O processo de imersão na peça conduz o espectador, pouco a pouco, de uma fria objetividade inicial à subjetividade quente da identificação com o herói, para depois emergir numa objetividade mais elevada.
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A purificação do herói acontece com vistas a um fim: no final, o espectador é conduzido através da tapeçaria até o lado correto, onde vê a unidade em que todas as partes se combinam maravilhosamente.
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O vislumbre é momentâneo e não perdura, mas produz uma marca na alma que não é facilmente apagada.
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Estar desde o começo do lado correto da pequena tapeçaria é parte do segredo de Shakespeare como artista; estar do lado correto da grande tapeçaria da vida é parte de seu segredo como homem.
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A fala de Lear sobre viver com Cordélia na prisão como espiões de Deus condensa o significado mais profundo do capítulo, associando o mistério das coisas à objetividade mais elevada que Shakespeare partilha com o espectador no final da peça.
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Cordélia personifica, no sentido mais profundo, a objetividade que pode descarrancar a falsa carranca do destino.
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Somente o olho do intelecto, o olho dos anjos que são os espiões de Deus, pode perceber a justiça das ações da Providência.
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No final, depois de terem passado através da tapeçaria, espectador e Shakespeare assumem juntos, em certo sentido, a responsabilidade a respeito do mistério das coisas.
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A queda do homem é representada como a perda do conhecimento intelectual do Bem Absoluto, substituído por um conhecimento mental que só apreende o bem relativo, oposto ao mal.
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Shakespeare, nos dramas maduros, retira momentaneamente da boca do espectador o gosto do fruto da Árvore Proibida, sem suprimir o conhecimento do bem e do mal mas sem que ele cegue para o Bem Absoluto.
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A aceitação serena do final de Otelo e de Rei Lear, como também de Cimbelino e Conto de inverno, é o sinal dessa justiça poética que não é senão a Justiça Divina.
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As peças anteriores a Hamlet, incluindo Romeu e Julieta e Sonho de uma noite de verão, produzem harmonia exaltadora mas algo menos transcendente, incapazes de justificar os caminhos de Deus.
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O fato de Shakespeare justificar os caminhos de Deus várias vezes sugere que sua própria vida estava baseada no padrão de suas peças e que ele escrevia sobre o que conhecia por experiência.
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Segundo a concepção tradicional da poesia, um poeta não deve ser menos do que um vidente, um vates.
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O Jardim de Helicon, morada de Apolo e das musas e fonte de autêntica inspiração poética, é, segundo Dante, nada menos do que o Jardim do Éden, onde cresce a Árvore da Vida, único antídoto ao veneno do conhecimento do bem e do mal.
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A explicação do efeito de Shakespeare sobre o espectador reside em sua inspiração ou intelectualidade, e não no mero poder da linguagem nem nos sentimentos de compaixão e terror da catarse aristotélica.
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Webster em A Duquesa de Malfi e Shelley em Cenci possuem verso refinado e elementos de compaixão e terror, mas deixam o espectador com horror, não com aceitação visionária e serenidade.
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O efeito do Édipo de Sófocles é essencialmente o mesmo que o de Rei Lear, e a partir desse exemplo fica claro o que
Aristóteles quis dizer com catarse.
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Personagens como Hamlet e Cleópatra são criações, não fabricações: há algo miraculosamente vivo neles, como se tivessem sido trazidos prontos do alto.
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A arte verdadeiramente inspirada é comparada a uma magia branca que transforma o espectador momentaneamente, fazendo-o literalmente superar a si mesmo como se fosse espião de Deus.
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Cada peça de Shakespeare é como uma esfera única de existência, com atmosfera própria, completamente distinta de todos os outros macrocosmos shakespearianos.
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O contato com uma fonte transcendente é sugerido, acima de tudo, pela constante repetição de um efeito transcendente.
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O verdadeiro propósito original da arte é comunicar segredos, oferecendo-os com a mão entreaberta, aproximando-os do espectador e convidando-o a aproximar-se deles.
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Em A Tempestade, a magia de Próspero representa os poderes artísticos do próprio Shakespeare.