Shakespeare, deliberadamente, situou muitas de suas peças maduras em um cenário pré-cristão, podendo referir-se aos “deuses”, mas sua atitude em relação à Grécia e Roma não é típica da Renascença; ele se colocou no centro do mundo antigo, onde Apolo não é apenas o deus da luz, mas a Luz de Deus.
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Embora a forma de seu drama pertença à sua época, a perspectiva de Shakespeare diferia da de colegas como Marlowe, parecendo voltar atrás enquanto o tempo seguia em frente, tornando-se, por volta da mudança do século, o continuador e recapitulador do passado, o último sentinela de uma época que desaparecia.
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Críticos como Bradley e Wilson Knight notaram em peças como “Rei Lear” e “Otelo” um modo de imaginação próximo ao das peças de moralidade medievais, que exibiam o processo de salvação da alma individual, seja historicamente, pelos dramas sacros dos ciclos de Corpus Christi, ou alegoricamente, pelas peças de moralidade.
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É importante distinguir entre obras esotéricas, que remetem para além da salvação à santificação, e obras exotéricas, nas quais a santificação é um ideal remoto; “The castle of perseverance” é um exemplo de obra exotérica que se detém no sentido mais elementar de salvação, enquanto “A divina comédia” é um exemplo supremo de obra esotérica que pressupõe a salvação e trata da purificação do homem e sua santificação última.
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Na Idade Média, a massa dos leigos seguia a via da salvação, enquanto as ordens monásticas e irmandades visavam a via da santificação, atravessando o Purgatório nesta vida; sabe-se que Dante pertenceu a uma irmandade afiliada à Ordem do Templo, e especula-se sobre a possível filiação de Shakespeare a irmandades como a Rosa Cruz ou a maçonaria, mas o que é óbvio a partir de sua obra é que suas peças transcendem a ideia de salvação em seu sentido mais limitado, sugerindo que ele seguia uma via espiritual.