Shakespeare, diferentemente de Milton, reconhece a impotência da razão limitada para justificar os caminhos de Deus, operando sua defesa da ordem divina no plano do intelecto, que equivale à faculdade de visão espiritual.
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Fracasso dos argumentos puramente lógicos e da imaginação humana em Paradise Lost para convencer sobre a justiça divina.
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Identificação do intelecto como o Graal ou o Elixir da Vida, capaz de perceber a harmonia invisível.
A função primordial da arte sagrada não é didática, mas sim proporcionar uma participação natural e involuntária no mundo da santidade por meio da revelação da beleza e da harmonia do cosmos.
Para o espectador medieval, a distinção fundamental não ocorria entre a ficção e a vida, mas entre este mundo de sombras e o mundo seguinte, que representa a Verdade e a Substância real.
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Atribuição de uma realidade superior à arte por ser ela, em casos supremos, um reflexo direto da Substância espiritual.
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Percepção da vida terrena como uma sombra menos absoluta do que o simbolismo inspirado da arte.
A experiência de assistir a uma peça de Shakespeare assemelha-se à observação de uma tapeçaria pelo lado correto, permitindo a visão do padrão e da unidade que permanecem ocultos na fragmentação subjetiva da vida cotidiana.
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Utilização da passividade da audiência para transpor o espectador da subjetividade comum para uma objetividade superior.
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Identificação com a purificação do herói como meio de acessar a sabedoria espiritual.
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O drama como imagem do universo total que conduz o indivíduo através da trama até a percepção da unidade perfeita.
A objetividade superior mencionada por King Lear ao referir-se aos espiões de Deus define o estado do intelecto capaz de perceber a justiça nas operações da Providência, situando o autor e o espectador purificado fora do domínio da fortuna.
A tragédia shakesperiana atua como um antídoto ao veneno do conhecimento do bem e do mal, restaurando momentaneamente a percepção do Bem Absoluto e eliminando a dúvida sobre a permissão divina para a existência do mal.
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Superação da justiça humana fragmentária em favor da justiça poética, que é reflexo da Justiça Divina.
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Diferença qualitativa entre a harmonia transcendente das grandes tragédias e a paz exalante das comédias anteriores como Romeo and Juliet.
A inspiração de Shakespeare vincula-o à tradição do poeta como vidente, cujo acesso ao Jardim das Musas equivale ao retorno ao Éden e ao fruto da Árvore da Vida.
A catarse aristotélica e a magia branca de Prospero em The Tempest simbolizam o poder da arte inspirada em comunicar segredos dos Mistérios e fazer com que o homem exceda a si próprio.