PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.
* O fascínio ocidental pelo Tibete fundamenta-se no contraste absoluto entre uma civilização tradicional fechada e a sociedade secularista moderna, onde as prioridades ontológicas são diametralmente opostas.
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Para a mentalidade moderna, a realidade limita-se ao domínio dos fatos materiais, enquanto as realidades espirituais são relegadas ao campo do subjetivismo ou da imaginação.
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No Tibete, o bem-estar humano é considerado inalcançável sem a subordinação total da vida à Ordem Espiritual, tornando conceitos como “Estado de Bem-Estar” ou “progresso secular” incompreensíveis ou jocosos.
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A função contemplativa é reconhecida como a atividade prática por excelência, e os santos são vistos como os únicos protetores eficientes da humanidade.
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A estrutura da civilização tibetana organiza-se em torno da dialética entre o Conhecimento direto e a fé participativa, onde o “Olho do Coração” ocupa a posição axial do microcosmo humano.
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O objetivo supremo é o estado de Buda ou “Desperto”, que implica a remoção das superimposições da ilusão sobre a realidade fenomênica.
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A técnica budista utiliza uma “teologia apofática”, focando na destruição dos conceitos limitadores para que a Luz do Conhecimento brilhe por si mesma.
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A primeira das “Quatro Nobres Verdades” equipara a existência ao sofrimento (Dukkha), incluindo as alegrias efêmeras que, por sua natureza dual, conduzem inevitavelmente ao arrependimento.
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A consciência da impermanência e da fragilidade da vida humana não conduz ao pessimismo, mas a um realismo sereno e a uma alegria buoyancy que aceita a mortalidade como o suporte para a libertação.
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O escapismo moderno tenta ocultar a morte através de narcóticos ideológicos e médicos, o que resulta em patologias psíquicas que os palliatives contemporâneos são impotentes para curar.
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No Tibete, a meditação sobre a morte é o “bastão do peregrino”, servindo como remédio contra as distrações triviais e o torpor mental.
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A posição humana é considerada um privilégio raro e central, oferecendo a oportunidade única de quebrar os laços da ignorância.
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A percepção do sofrimento universal em todos os reinos da existência desperta a Compaixão (Karuna), culminando no voto do Bodhisattva de buscar a iluminação para o benefício de todos os seres.
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O Bodhisattva renuncia à entrada final no Nirvana enquanto houver sofrimento, adotando todas as criaturas como parentes próximos.
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Chenrezig (Avalokiteshvara), o Senhor da Compaixão, é o arquétipo desse ideal e o padroeiro espiritual do Tibete, cuja presença é sentida na “transparência” da paisagem e na atmosfera contemplativa do platô.
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O Dalai Lama é reverenciado como a encarnação visível desse princípio e o protetor precioso da nação.
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A ética da compaixão manifesta-se de forma exemplar no tratamento dado aos animais e à natureza, fundamentada na “Portaria da Montanha e do Campo” que proíbe a caça em vastas áreas sagradas.
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Embora a dieta inclua carne por necessidade geográfica, os tibetanos não utilizam subterfúgios morais para justificar o ato, admirando aqueles que conseguem abster-se.
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A ausência de medo nos animais selvagens no Tibete é um testemunho da harmonia primordial, evocando o estado de pureza de Adão no Éden.
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A relação com os animais é baseada na consideração mútua, priorizando o cuidado com a montaria e o rebanho antes das necessidades pessoais do condutor.
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A robustez nervosa do caráter tibetano permite uma aceitação franca da dor e da severidade da lei, contrastando com a sensibilidade excessiva e o pavor da solidão característicos do Ocidente.
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O tibetano possui uma capacidade inata de permanecer em silêncio e solidão, fatores que favorecem a concentração meditativa.
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A dureza da vida no platô é acompanhada por uma qualidade espiritual que o luxo moderno exclui.
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Toda aquisição espiritual exige uma renúncia correspondente; é impossível colher os frutos da contemplação mantendo um padrão de vida baseado em premissas profanas.