PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.
-
A tradição japonesa estabelece uma distinção nítida entre os métodos denominados jiriki (poder próprio) e tariki (outro poder), os quais representam dois tipos principais de esforço espiritual interdependentes, onde a predominância de um nunca exclui totalmente a presença latente do outro.
-
O Zen Budismo exemplifica o caminho jiriki ao enfatizar a autossuficiência heroica e a renúncia a suportes mentais ou consolos.
-
O Budismo Jodo (Terra Pura) representa o caminho tariki através da confiança absoluta na graça salvadora de Amida Buda e na invocação de seu Nome.
-
A inexistência de uma incompatibilidade de princípio entre as duas vias exige a identificação do elemento recessivo que equilibra a dominância do outro em cada escola.
-
O praticante de Zen extrai o elemento tariki do próprio ambiente tradicional que molda suas atitudes de forma inconsciente, enquanto o devoto de Amida exerce o jiriki através da atenção centrada e infatigável exigida pela prática da invocação.
-
No Zen, o uso do paradoxo e do koan estimula a iniciativa individual em direção ao objetivo imediato.
-
Na via da Terra Pura, a atividade espiritual é atribuída a Amida, restando ao sujeito o esforço intelectual de reconhecer a Graça e dissolver a egocentricidade.
-
A intelectualidade no tariki consiste na abertura do coração à influência suavizante do Amor de Amida até que os portais da Terra Pura se abram.
-
A aceitação de qualquer disciplina formal ou a submissão a um mestre espiritual implica um elemento tariki, pois a autoridade externa — seja o ambiente tradicional ou o guru — deve ser contabilizada como um fator proveniente do “outro”.
-
Seguidores de todas as escolas, inclusive do Zen, compartilham a submissão a um instrutor como fundamento da prática.
-
Caminhos jiriki frequentemente adotam as formas mais rigorosas de disciplina, enquanto escolas tariki enfatizam o caráter leve dos meios oferecidos.
-
O Beloved conhece a fraqueza do devoto nos tempos atuais, oferecendo um jugo suave e um fardo leve, conforme as tradições de bhakti.
-
A compreensão da complementaridade entre jiriki e tariki previne tanto o perigo do ascetismo dessecante quanto o do quietismo completo, garantindo que o caminho escolhido esteja em harmonia com a capacidade intelectual e temperamental do indivíduo.
-
O exagero do jiriki sem o elemento companheiro pode levar a uma heresia pelagiana ou a uma autossuficiência mental pretensiosa.
-
A hipertrofia do tariki pode resultar em vago doutrinalismo ou na deificação da comunidade humana por via do quietismo.
-
O equilíbrio é mantido por uma interação contínua de compensações que residem na própria natureza das coisas e não em preferências arbitrárias.
-
Reações ocidentais contra excessos sentimentais do pensamento cristão levam frequentemente a uma busca unilateral pelo jiriki, o que pode gerar um farisaísmo neobudista ou uma intelectualidade arrogante que é apenas um simulacro mental da verdadeira inteligência.
-
A religião exige o homem integral, incluindo os sentimentos, que devem ser orientados para a vida espiritual em vez de serem suprimidos.
-
O desdém pelo teísmo devocional indica uma pretensão gnóstica que inibe a intuição intelectual pura.
-
Um pouco de sentimentalismo em uma vida devocional genuína é um mal menos repelente do que a soberba de um intelecto falsificado.
-
A doutrina da não-dualidade (advaita) reconcilia oposições como “poder próprio” e “poder externo” em um nível superior de síntese simultânea, onde as contradições perdem a validade que possuíam no plano relativo.
-
O pensamento educado em termos de exclusão mútua (“ou… ou”) falha em perceber o princípio universal que unifica os opostos.
-
O conhecimento não-dual não consiste na supressão de um termo em favor de outro, o que seria apenas uma paródia monista da verdade.
-
Expoentes orientais devem alertar que o caminho jiriki não invalida a presença latente do tariki e vice-versa.
-
O patriarca Honen sintetiza a finalidade única de todas as seções e veículos do Budismo, afirmando que as diversas interpretações — da vacuidade total ao coração da realidade — são adequações do Nyorai às variadas capacidades dos seres.
-
As contendas entre escolas sobre profundidade ou retidão absoluta ignoram que todas as doutrinas derivam das palavras de ouro do Buda.
-
Interpretações extremas devem ser evitadas em favor da prática religiosa conforme ensinada nos Sutras.
-
A disputa sobre matizes de cor é comparada a surdos discutindo a qualidade de uma voz; o essencial é a prática que conduz à libertação da escravidão terrível.