PALLIS, Marco. The Way and the Mountain: Tibet, Buddhism, and Tradition. 1st ed ed. New York: World Wisdom, Incorporated, 2008.
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O advento da civilização moderna gerou um fenômeno sem precedentes caracterizado pela necessidade de cada indivíduo religiosamente inclinado enfrentar a questão do contato entre diversas tradições espirituais.
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Anteriormente, os contatos inter-religiosos possuíam caráter acidental ou geográfico, permitindo que cada tradição operasse como um mundo fechado e autossuficiente.
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O intercâmbio intelectual de alto nível entre tradições era uma exceção reservada a poucos, enquanto a conformidade média ignorava as ideias de vizinhos estrangeiros.
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As religiões de tronco semítico, como o Cristianismo, historicamente excluíram a possibilidade de pluralidade de formas espirituais legítimas, ao passo que as tradições indianas aceitam naturalmente múltiplos caminhos formais para a verdade.
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A perspectiva cristã tendeu a rotular outras fés como erros ou mera religião natural fruto da aspiração humana insatisfeita.
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Tradições orientais reconhecem manifestações de Graça e encarnações divinas, denominadas Avataras, mesmo em formas externas à sua própria.
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A abertura oriental associa-se a uma visão menos individualista do homem e menos antropomórfica da Divindade.
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A tolerância prática do Oriente não advém de frouxidão doutrinária, mas de uma ortodoxia que distingue rigorosamente a Ordem Formal relativa da Verdade Sem Forma absoluta e libertadora.
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A aceitação de uma disciplina formal é compreendida como um degrau necessário para atingir a transcendência da Não-Forma.
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O livre-pensador ocidental permanece atado aquém das formas, diferindo do sábio oriental que as atravessa por conhecê-las como relativas.
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A tolerância religiosa liberal no Ocidente moderno frequentemente se confunde com uma indiferença ou ceticismo dogmático que desvaloriza o conteúdo espiritual em favor do relativismo.
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O colapso das reivindicações de exclusividade religiosa, impulsionado pelo escrutínio científico e pela excessiva disponibilidade de informações, transformou o valor espiritual de formas estrangeiras em uma questão urgente e central.
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A concepção quantitativa de conhecimento trata fenômenos religiosos de todos os tempos e espaços como matéria de pesquisa exaustiva.
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A dificuldade atual não reside na falta de dados, mas no excesso desconcertante de evidências factuais sobre todas as tradições.
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A tradução massiva de textos sagrados e o estudo das artes tradicionais revelam uma consistência interna e uma eficácia simbólica que desafiam interpretações puramente profanas ou convencionais.
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As artes operam como veículos de mensagens espirituais cuja verdade universal é proporcional ao rigor formal de sua expressão.
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Verdades visuais ou musicais possuem um apelo imediato que escapa aos subterfúgios da mente racional.
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A semelhança entre fenômenos religiosos de diversas origens torna insustentável a crença em uma validade exclusiva para um único caso favorecido.
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O cenário contemporâneo apresenta um paradoxo onde ocorre uma partilha indiscriminada de frutos espirituais enquanto as próprias tradições sofrem desintegração sob a pressão do ensino humanista centrado no interesse externo.
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A emergência da cooperação inter-tradicional surge como uma resposta defensiva sem precedentes contra o perigo mundial do materialismo e do suicídio intelectual da humanidade.
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O respeito mútuo implica o reconhecimento parcial de um fator espiritual comum que escapa às limitações formais.
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A divisão da espiritualidade contra si mesma é vista como um obstáculo para resolver a crise global presente.
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Movimentos como o Congresso das Fé de Sir Francis Younghusband e os esforços de H. N. Spalding exemplificam a busca por uma espiritualidade comum capaz de curar as patologias da civilização moderna.
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Pensadores como René Guénon e A. K. Coomaraswamy fundamentam a cooperação na unidade transcendente e na universalidade do conhecimento tradicional, rejeitando o ecletismo que descaracteriza a integridade de cada forma.
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O ecletismo é impotente por ignorar que cada forma exige aspectos excludentes e limites definidos para existir.
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O problema metafísico consiste em encontrar o ponto de reconciliação dos opostos sem evasões ou compromissos mal julgados.
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A veneração de figuras como Cristo e o Profeta do Islã por hindus bhaktis ilustra a aceitação da unidade transcendente, tendo em Sri Ramakrishna Paramahamsa o exemplo máximo de quem verificou a concordância essencial entre fés ao vivê-las.
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A proclamação da Índia como um Estado Secular, incentivada por Mahatma Gandhi em reação ao fanatismo, representa uma cópia infeliz de padrões europeus que arrisca ignorar a dependência do homem para com a Providência divina.
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O termo secular é privativo e carrega um sabor blasfemo, sendo preferível a noção de um Estado religiosamente abrangente.
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A mente comum da Índia ainda é dominada por valores espirituais, apesar do surto profano dos tempos atuais.
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Toda comunicação efetiva entre religiões envolve o princípio da relação entre a Letra e o Espírito, exigindo uma habilidade de transposição que harmonize a fidelidade à forma com a visão do universal.
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O apego excessivo ao elemento factual e histórico no Cristianismo torna a fé vulnerável ao ceticismo moderno, resultando em pânico e debandada quando os fatos idolatrados são postos em dúvida.
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A modernidade irreligiosa é vista como a vingança do Espírito contra a absolutização de elementos formais.
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O ponto de vista profano consiste na fragmentação indefinida da realidade sem esperança de unificação.
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O oriental, habituado à doutrina da Maya ou Ilusão Cósmica, lida com a efemeridade das formas com maior desapego, o que lhe confere força mas também o risco de um universalismo especuloso e sentimental.
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A morte de um fato ou de um ser causa menos perturbação para quem não atribui realidade absoluta às aparências.
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A proteção das definições dogmáticas é por vezes necessária para evitar a degeneração das tradições nascidas no tempo.
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A tentativa de unir religiões apenas através do amor ou do sentimento é ilusória e perigosa, pois a caridade verdadeira exige a presença da Inteligência e do conhecimento da natureza das coisas.
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O sentimento é instável e sujeito à polaridade, podendo converter-se em seu oposto durante crises como guerras.
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A verdadeira Caridade baseia-se no desaparecimento da separação do ego perante Deus e na abolição do senso de alteridade.
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Obras como A Unidade Transcendente das Religiões e Gnose: Sabedoria Divina, de Frithjof Schuon, fornecem os princípios operativos para a compreensão inter-religiosa ao distinguir entre o esoterismo e o exoterismo.
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A relação entre o espírito e a letra não é simétrica, mas hierárquica, pertencendo a ordens diferentes de realidade.
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O domínio do esoterismo confere maestria sobre as formas, permitindo construir pontes sem apagar as distinções formais.
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A incompreensão mútua entre as religiões advém frequentemente da comparação de elementos não comparáveis, onde o sentido do absoluto situa-se em níveis distintos em cada contexto tradicional.
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Semelhanças verbais podem ocultar diferenças essenciais, enquanto diferenças de expressão podem mascarar uma identidade de conteúdo.
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A tradução espiritual exige uma percepção intuitiva e um discernimento aguçado que ultrapasse a razão meramente discursiva.
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A posse do dom das línguas, no sentido espiritual, permite penetrar todas as formas tradicionais e torná-las mutuamente inteligíveis, transformando a obediência à forma em uma janela aberta para o voo da alma.
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A fidelidade à forma não deve ser um fechamento, mas um ponto de partida para a libertação final.
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A diversidade de dialetos através dos quais o Espírito se comunica é reconciliada pela inteligência que habita o centro de cada tradição.