A talidade divina, inefável e imanifestável, corresponde à experiência humana do silêncio, do qual o som nasce e ao qual retorna, sendo a tônica imagem da Unidade originária e causa eficiente de todos os efeitos musicais.
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A tônica permanece presente ao longo da composição.
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Causa e efeitos mostram-se inseparáveis.
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O Intelecto divino contém permanentemente tudo o que foi ou será criado.
O universo criado caracteriza-se por mudança, competição e impermanência, onde os seres convergem, divergem e colidem segundo forças relativas.
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Todo mundo implica contraste e oposição.
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Contatos e colisões desviam trajetórias.
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O processo repete-se indefinidamente.
Tal dinâmica espelha o contraponto musical, cujo jogo de tensões e resoluções expressa a unidade de origem e explica seu poder de comover.
Na fantasia para violas ou na música sacra do período, a enunciação temática gera concordância ou contraste que conduz a colisões e resoluções até o retorno final à unidade.
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Repetições ou novos sujeitos instauram dualidade.
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Discordâncias representam oposição.
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A busca de liberdade prossegue enquanto dura o processo.
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A paz encontra-se apenas no retorno à unidade originária.
A lógica interna do contraponto determina crescendos e diminuendos como expressão necessária das relações entre partes, excluindo arbitrariedade subjetiva.
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A intensificação inicia-se sempre em parte determinada.
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As demais partes respondem proporcionalmente.
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A disciplina consiste em obedecer aos sinais da estrutura.
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Trata-se de arte situada entre ciência e arte propriamente dita.
O contraponto existencial chamado vida constitui busca da unidade sempre pressentida, cujas cadências temporárias figuram micro-imagens da reconciliação dos opostos.
Assim como Deus é descrito como grande Arquiteto do Universo, pode ser igualmente concebido como grande Contrapontista, pois a criação implica expressão dinâmica do ser no devir.
O contraponto, musical ou existencial, afirma a presença imutável da unidade através das vicissitudes da multiplicidade e revela o mistério da existência ao reduzir as oposições ao princípio originário.