Nenhum budista pode razoavelmente reivindicar autoridade exclusiva para os ensinamentos que segue, pois entre uma abordagem do Próprio Poder e uma do Outro Poder pode-se dizer que, se a última às vezes adquire aparência excessivamente passiva, a primeira, mal concebida, pode facilmente aprisionar numa consciência autocentrada.
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A melhor defesa contra qualquer dos dois erros é lembrar que, entre dois ensinamentos indubitavelmente ortodoxos mas formalmente contrastados, onde um é deliberadamente enfatizado, o outro deve sempre ser reconhecido como latente.
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Isso exclui qualquer tentação de excessos sectários.
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Nenhum método espiritual pode ser totalmente autocontido; por definição todo upaya é provisoriamente implantado em vista das necessidades conhecidas de uma mentalidade dada.
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A ênfase colocada no Outro Poder pelo Jodo-shin fornece um corretivo salutar a qualquer forma de autoestima, tornando seu ensinamento peculiarmente apto para o tempo presente, quando a deificação do animal humano confinado a este mundo e uma complacência total com seus apetites em expansão é pregada de todos os lados.
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Na presença de Amitabha, as realizações da humanidade individual se reduzem à sua devida insignificância.
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É na humildade inteligente que uma grandeza verdadeiramente humana se encontra.
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A misericórdia do Buda é providencial, mas não suspende por esse motivo a Lei do Karma: se os seres persistem em ignorar essa lei enquanto cobiçam o que a misericórdia poderia lhes conceder, a própria misericórdia os alcançará sob a forma de severidade.
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A severidade é misericordiosa quando é o único meio de provocar uma metanoia radical, uma mudança de perspectiva, sem a qual o vagar no samsara deve continuar indefinidamente.
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O nembutsu é o lembrete sempre presente dessa verdade.
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Se, confiando no Voto, abandonarmos todo desejo de atribuir a vitória a nós mesmos, o ego não alimentado certamente se consumirá, deixando-nos em paz.
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A confiança no Outro Poder permanecerá irrealizável enquanto a consciência egocêntrica for confundida com a pessoa real, e é essa confusão de identidade que o grande upaya proposto por Honen e Shinran Shonin foi providencialmente destinado a dissipar.
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O nembutsu deve servir como defesa perpétua contra esse erro fatal, por meio da lembrança que mantém viva nos corações humanos.
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Onde essa lembrança tiver sido elevada ao seu maior poder, ali se encontra a Terra Pura.