SETH, O DEUS MALDITO

ROBIN, Jean. Seth le dieu maudit. Paris: Trédaniel, 1986.

O deserto implacável onde reina Seth, da cabeça de asno, e o delta nutritivo, terra de Hórus da cabeça de falcão, se opuseram desde a origem do Egito, dando nascimento a uma dualidade metafísica que a incompreensão dos homens fixou tardiamente em um dualismo teológico. Mais que qualquer outra, portanto, a civilização egípcia, nas antípodas das esquematizações garantidoras, foi fundada de maneira quase sacrificial sobre a antinomia e a tensão dialética.

E Set, relegado na baixa época ao nível de «deus maldito», encarnava em realidade o aspecto destruidor do Princípio. Indispensável sacrificador das aparências e das religiões obsoletas, vivificou uma tradição secreta — encarnada simbolicamente por seus 72 companheiros que bem além da terra vermelha do deserto egípcio e da glória guerreira dos Ramsés e dos Sethi, atravessou subterraneamente nossa história. Ela constitui mesmo um dos aspectos mais interiores e dos mais “inconfessáveis”do judeu-cristianismo.

Na hora em que as iniciações reputadas tradicionais do Oriente e do Ocidente manifestam cruelmente sua caducidade, Seth e os «72», além do Bem e do Mal, nos oferecem a última chave… (traduzido da contracapa do livro)

Nota do Autor

Não se trata de nada menos, neste livro, do que colocar em luz — entre outras coisas — certas origens do cristianismo, que os exegetas haviam recoberto até então com um véu tão pudico que se tornara impenetrável. Entre outras coisas, afirmou-se. Precise-se um pouco, desde logo: o que se propõe, em resumo?

1. Revelar, após René Guénon ter feito furtivas alusões ao tema, a perenidade e a verdadeira natureza dos mistérios de Seth, o deus egípcio com cabeça de asno; 2. Provar que esses mistérios (o que os antigos não ignoravam) influenciaram o judaísmo e o cristianismo, onde são, de fato, nitidamente reconhecíveis; 3. Indicar, com o apoio da Bíblia e graças a certas chaves, datas extremamente precisas, entre as quais aquela que deve abrir o ciclo de remanifestação de Seth — ainda que sob uma identidade nova; 4. Seguir o rastro dos mistérios sethianos até… Rennes-le-Château, onde o percurso conduziu quase contra a vontade própria.

Que se compreenda bem: não se trata aqui de um livro sobre Rennes-le-Château. Trata-se de um livro que, partindo do deserto do alto Egito, desemboca em Rennes-le-Château, o que é bastante diferente. E como o propósito não é somente especular ou supor, mas informar e eventualmente advertir, da mesma forma que se fornecem datas, indica-se um lugar: no caso, o santuário onde se esconde Ísis. (E ver-se-á qual grandiosa realidade recobre esta denominação mitológica.) Em todo rigor, dever-se-ia dizer: indica-se novamente um lugar, visto que no livro anterior, As Sociedades Secretas no Encontro do Apocalipse, o contra-almirante Georges Cagger gentilmente permitiu que os leitores usufruíssem de sua irrefutável decodificação da pedra tumbal da marquesa de Blanchefort, a qual, como sabem todos os que se interessam por Rennes-le-Château, está no cerne dos mistérios do local.

Em um assunto sobre o qual se disse e escreveu tanto, por vezes de modo muito criterioso e inteligente, por vezes de forma mais contestável, os pesquisadores, em todo caso, tinham até então em comum o fato de nada terem encontrado, como ressaltava agradavelmente o senhor Cagger. Pela primeira vez, a situação alterou-se. Retorquir-se-á, é verdade, que se a descoberta fosse real, o silêncio seria mantido. Ao que se responde que tal atitude se justificaria se se tratasse de um tesouro material, como muitos erroneamente pensaram. Mas não é o caso. Recorde-se, ademais, o destino reservado aos profanadores da Arca da Aliança! Em contrapartida, se alguém se dirige ao local em piedosa peregrinação, se se deixa impregnar pela atmosfera que reina nesse lugar terrível, se reserva tempo para o recolhimento e a meditação em presença do indizível, quais frutos não serão colhidos…

É também para indicar o modo de emprego de Ísis que este livro foi escrito.

Dir-se-á, para concluir esta breve advertência, que, embora muitas das informações provenham de uma fonte não oficial (para dizer o mínimo), não houve autorização para as facilidades do fantástico peremptório e inverificável. Nenhum coelho branco foi tirado da cartola. O autor encontrava-se, de fato, como um espeleólogo em uma caverna de Ali Babá, que apenas a ausência total de iluminação e de mapa havia impedido, até então, de inventariar. Foram fornecidos simplesmente pontos de referência precisos e uma lanterna. Em outros termos, tratava-se sobretudo de dar o verdadeiro sentido a uma massa caótica de informações por vezes bem conhecidas — demasiadamente conhecidas, sem dúvida, pois a superinformação é a tática mais hábil para ocultar certas coisas. Se, portanto, e para usar ainda uma imagem célebre, a carta de Edgar Poe foi reencontrada, estando tão em evidência sobre a lareira, não há nisso mérito algum.

Non nobis, Domine, non nobis…

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