As “águas inferiores” são as vibrações cósmicas que, num movimento centrífugo, afastam-se da sua Fonte, mas, num movimento centrípeto, gravitam em torno do Centro imóvel e universal, o “Lugar Uno” (ha-Maqom), que é um nome divino para a Imanência que contém todo o múltiplo e onde as “águas” se recolhem para que a “Sêca” (yabashah), a Shekhinah ou Imanência divina, se torne visível.
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Ha-Maqom, o “Lugar”, significa que Deus é o Lugar do mundo, e não o contrário, pois sua Onipresença infinita não é localizável pelo finito.
A exegese passa do nível onto-cosmológico para o onto-cosmológico, onde a “terra” designa, após o “céu” transcendente, a Imanência do Princípio, a Shekhinah, cuja manifestação luminosa se dá sob as formas de anjos (“verdura e erva”) e as formas primeiras de tudo o que é macho e fêmea (“árvores frutíferas”).
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O “amontoado de águas inferiores” concentra-se, ao final da criação, na imagem mais acabada do Uno: o homem, que é o “lugar único” onde Deus se reflete perfeitamente como num espelho, sendo ele a síntese final de todas as manifestações das Qualidades divinas.
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Quando as “águas” do homem são puras, o Fundo “seco” de todas as coisas, o Uno imanente, torna-se visível nele; quando essas águas se aquietam completamente, seu ser é reintegrado na Realidade suprema, elevando-se das “águas inferiores” às “Águas superiores”, ao Não-Começo, ao eterno “Sábado”.
No fundo da relatividade humana encontra-se a Absolutidade, a identidade total com a Essência de Deus e de todas as coisas, que só pode ser reencontrada pelo amor e conhecimento que discernem e realizam cognitivamente o único Si-mesmo da Toda-Realidade em si, no próximo e em Deus.
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O duplo mandamento de amar a Deus de todo o coração, alma e força e ao próximo como a si mesmo contém a via para essa realização.
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O ser que chega diante do Absoluto apegado ao “eu” é reenviado à relatividade, mas aquele em que o conhecimento e o amor se identificam com a essência de todas as coisas no Absoluto é por Ele absorvido.
Pelo amor espiritual e conhecimento, o homem eleva-se de sua relatividade à Absolutidade, e na oração, na recitação ritual, nas invocações e na contemplação, sua relatividade acaba por se absorver e se apagar no Absoluto, sua própria Absolutidade.
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O homem deve invocar o Supremo “de todo o seu coração, de toda a sua alma e de toda a sua força” para que o Divino se “desperte” e o reconduza, com toda a Criação, à sua Essência pura, o “Sábado dos Sábados”.
O amor total e o conhecimento total são idênticos no estado supremo da Toda-Realidade, onde a alma, tendo superado seus limites criados e se tornado puro Espírito universal, conhece a si mesma como Aquele que, em seu amor infinito, se dá totalmente a toda coisa, realizando a Identidade universal e amando a Deus e ao próximo como seu “Si-mesmo”.
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Contemplando todas as coisas em sua própria essência divina, o espírito do homem as eleva à Absolutidade, e quando seu olhar volta à relatividade, vê em cada uma delas a “mancha branca” do Sol único, vê Deus, o único Real, em toda parte.
O discernimento entre o Real e o ilusório é a afirmação do próprio Sol interior, que revela que as trevas do finito esperam ser iluminadas pela mediação espiritual do contemplativo, que, no “lugar único” do coração, vê todas as coisas em Deus e Deus em todas as coisas.
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No coração, o “lugar uno” que é o próprio Deus onipresente, toda obscuridade se dissipa, o criado se converte a Deus e nele repousa, e o contemplativo encontra todas as coisas em sua Verdade e Realidade puras, sua Absolutidade.
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A contemplação deificante é o ato mais poderoso, no qual tudo se realiza sinteticamente e encontra sua libertação no Absoluto, fazendo remontar em si mesmo todas as “águas inferiores” até imergirem na Paz infinita das “Águas superiores” e imóveis.
A realidade pura do homem permanece como era antes do Começo das ondas, pois a Água era e nenhuma onda estava “com” Ela, sendo toda onda a própria Água, e a Água é agora como era antes do Começo, assim como será até o Fim, que reencontra e ultrapassa o Começo.