SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983.
* A abordagem exegética do criacionismo semítico, nas suas duas concepções opostas, reservou para os capítulos seguintes a exposição de exemplos típicos das interpretações exotéricas e esotéricas, representando variações sobre os temas antinômicos da criação ex nihilo e ex Deo et in Deo.
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Reconhece-se que as variações são extensas de parte a parte
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Doutores do exoterismo chegam, implícita e involuntariamente, a aproximar-se da tese esotérica
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Certos esoteristas utilizam a fórmula ex nihilo para extrair, pelo viés do simbolismo, a verdade da creatio ex Deo, entendendo o “nada” como Non-Ser ou Sobre-Ser não-causal
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O caso da exegese exotérica que se aproxima implicitamente da perspectiva esotérica centra-se na doutrina segundo a qual o termo “nada” da expressão ex nihilo não designa aquilo de que Deus fez o mundo, mas antes que Deus produziu o universo por sua Vontade livre e onipotente, sem servir-se de nada de exterior a si mesmo.
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Se Deus, para criar, não se serviu de nada além de suas Qualidades ou de seu Verbo, o que utilizou para produzir a criação é o que se identifica com Ele mesmo
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Segundo a lógica pura e segundo o esoterismo, Deus criou o mundo com Ele mesmo e nEle mesmo, no Princípio que Ele próprio é
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Os doutores do exoterismo que insistem na creatio ex nihilo se aproximam da fórmula ex Deo et in Deo sem nela desembocar explicitamente
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A análise do criacionismo de um dos grandes porta-vozes do judaísmo exotérico requer, antes, um exame da obra de Maimônides, considerado representante medieval do exoterismo judaico, nascido em 1135 em Córdoba e falecido no Cairo em 1204.
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Maimônides, cognominado a Águia da Sinagoga, foi chefe de comunidade e um dos mais ilustres comentadores da Bíblia hebraica e do Talmude, além de médico e filósofo
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Exegetas não judeus o descrevem como um escolástico judaico cuja doutrina prefigura, sob certos aspectos, a escolástica cristã
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Sua doutrina reflete, além das fontes tradicionais de Israel e do Islã, a dos filósofos árabes helenizantes e, por intermédio deles, a filosofia de Aristóteles
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O risco de má interpretação das palavras de um autor exige que a análise do pensamento de Maimônides parta da letra de seus enunciados, procurando extrair o espírito à luz de sua exegese criacionista integral e da lógica espiritual de ordem objetiva e universal.
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A intenção não é sobrepor interpretações exotéricas superficiais a exegeses de autoridade, cortando-as de seu contexto integral
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A contestação de vários aspectos do criacionismo maimonidiano e a demonstração de seus limites intelectuais serão feitas sem a pretensão de comentar tudo o que foi enunciado sobre o assunto
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Plato est amicus sed magis amica veritas: o próprio Maimônides cita Aristóteles ao contestá-lo em vários pontos, afirmando que quem quer julgar com verdade deve ser benevolente e imparcial para com quem o contradiz
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A doutrina criacionista de Maimônides, examinada à luz do Guia dos Perplexos, perpetua a antiga concepção exotérica da creatio ex nihilo, afirmando que Deus produziu o universo inteiro do puro e absoluto nada, por sua livre Vontade, sem que antes existisse qualquer ser além dEle.
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Desta posição decorre que há algo além de Deus, produzido por sua Vontade livre de um nada puro e absoluto
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Deus, que primeiro existiu sozinho e sem nada fora dEle, deixou de ser o único Real em razão da criação existente doravante fora dEle
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Surge a questão de saber se o autor toma essa concepção ao pé da letra em todos os seus aspectos
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Embora Maimônides defina a totalidade criada como “todo ser além de Deus” e afirme que, antes de criar, Deus “existiu sozinho e nada fora dEle”, ele parece contradizer-se ao não admitir que Deus tenha cessado de ser o único Existente ou Real após o ato criador.
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Maimônides afirma que Deus não está sujeito a mudança e que nada de novo lhe ocorre
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Em seus treze artigos de fé, Maimônides professa que Deus existe e que sua Realidade é intemporal, que é único e que sua Unidade é sem par, desconhecida e infinita
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Se sua Unidade é infinita e sua Realidade não tem tempo nem limite e não está sujeita a mudança, ela deveria ser, após o ato criador, tal como era antes dele
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Da afirmação de que a Unidade divina é infinita e de que “antes” e “depois” só existem para o que é criado, decorre logicamente que a criação de “todo ser além de Deus” não implica que Ele tenha cessado de ser a Realidade única e infinita, pois que compreende todas as coisas, dado que “nada existe fora dEle”.
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A origem em que “Deus sozinho existiu” só pode referir-se à sua Transcendência eterna, a partir da qual, por sua Vontade e por seu Derramamento, fez nascer tudo que é “fora dEle” enquanto transcendente, mas “no seio dEle” enquanto onipresente
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A sua infinitude mesma, em seu aspecto cosmológico, constitui ha-maqom, o Lugar divino do universo
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Ela contém todas as coisas criadas no estado arquetípico em sua Transcendência e no estado efetivado em sua Onipresença, onde as habita como Shekhinah ou Imanência
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A demonstração de que todas as coisas que parecem estar “fora de Deus” estão na realidade “nEle” é conduzida pelo próprio raciocínio exposto, e não por Maimônides, que adverte os fiéis contra qualquer ideia de continuidade inteligível entre Deus e a criação, declarando desconhecida a natureza de seu vínculo.
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Maimônides afirma que Deus não é uma faculdade no corpo do universo, mas está separado de todas as suas partes
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O governo e a providência de Deus se prendem ao conjunto do mundo por um vínculo cuja verdadeira natureza é desconhecida e que as faculdades dos mortais não poderiam compreender
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Pode-se demonstrar tanto que Deus está separado do mundo e é independente dele, quanto que a influência de seu governo e de sua providência se estende a cada uma das partes do mundo
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A simultaneidade misteriosa entre “separação” e “derramamento” indica que não pode tratar-se de uma descontinuidade absoluta entre Deus e o mundo, pois escolher o termo “derramamento” ou “escoamento” para designar a concretização desse vínculo indica ao menos que há alguma continuidade entre Deus e o criado.
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Maimônides aplica o adjetivo “desconhecido” tanto a esse vínculo quanto, em outra passagem, à Unidade divina, situando ambos num plano que transcende a compreensão das criaturas, mas que não é necessariamente não imanente
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A Unidade ou Continuidade infinita de Deus, que é esse vínculo mesmo, é subjacente à criação e a toda descontinuidade, em modo ao mesmo tempo transcendente e imanente
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Maimônides atesta que, apesar da separação do Criador de todas as partes do universo, sua influência se estende a todas elas, o que equivale ao ensinamento clássico relativo aos dois aspectos transcendente e imanente de Deus
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O derramamento divino, segundo Maimônides, desce de Deus sobre as Inteligências segundo sua ordem sucessiva, e estas, por sua vez, derramam bens e luzes sobre os corpos das esferas celestes, que por fim derramam forças e bens sobre o corpo inferior sujeito ao nascimento e à corrupção.
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Esse derramamento se identifica ao próprio ato criador, que produz toda a hierarquia das existências cósmicas, fazendo repercutir de um plano a outro o que se derrama sobre eles
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Há, a partir da Causa primeira, como uma escala de causas segundas, ligadas entre si e com a Causa primeira por esse derramamento, e separadas desta última e da matéria pela descontinuidade relativa existente entre Deus e as coisas
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O derramamento proveniente de Deus para produzir Inteligências separadas se comunica também a partir dessas Inteligências para que se produzam umas às outras, até o Intelecto ativo, com o qual cessa a produção das separadas
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A ideia do derramamento encontra-se também nos profetas de Israel, que a apresentaram metaforicamente, como em Jeremias II,13 (“Eles Me abandonaram, a Mim, fonte de água viva”) e no Salmo XXXVI,10 (“pois junto de Ti está a fonte da vida”), significando o derramamento da existência.
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A expressão “em Tua Luz vemos a luz” indica que, graças ao derramamento do Intelecto ativo emanado de Deus, pensa-se, é-se dirigido e guiado e se percebe o Intelecto ativo
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Quanto mais essa percepção ou conhecimento aumenta, mais o intelecto humano participa do Intelecto ativo de ordem universal, a um tempo emanado e separado de Deus
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Nessa participação cognitiva reside a perfeição e a imortalidade da alma, isto é, sua coexistência perpétua e bem-aventurada com Deus
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Embora insistindo em que a vida e a luz emanam por derramamento descontínuo do Ser necessário que é Deus, ou de sua Essência que é sua própria Existência, Maimônides sublinha que não se trata de uma emanação naturalmente necessária, mas de um ato criador ditado por uma intenção e uma vontade criadoras.
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Deus é o Ser necessário cuja Essência é sua Existência
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A Existência desse Ser não Lhe basta de modo a existir somente Ele mesmo, mas dela emanam numerosas existências, não como o calor emana do fogo, mas por uma ação divina com intenção e vontade
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Se Deus é o Ser necessário eternamente, sua Vontade, que é a Determinação própria de seu Ser, é necessária como este último, inclusive o cumprimento universal dela
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A Vontade criadora de Deus responde a uma necessidade que se oculta nEle mesmo e que faz parte integrante da necessidade de seu Ser causal, de modo que tudo o que existe, em qualquer nível da Existência universal, participa necessariamente desse Ser.
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O Ser, ao determinar-se a si mesmo como Causa, determina o ser de seus efeitos criados e atualiza sua existência por essa Determinação, que é sua Vontade
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Se não há efeito sem causa, tampouco há causa sem efeito
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A Vontade de Deus se identifica não só à necessidade causal inerente a seu Ser, mas antes de tudo à necessidade de ser deste último
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Independentemente da refutação da antinomia entre a Vontade divina e a necessidade divinamente natural da criação, permanece, segundo o próprio Maimônides, que as existências criadas emanam da Existência de Deus, que ele identifica a seu Ser, sua Essência ou Substância.
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A Essência ou Substância divina é a Realidade, o Fundamento de tudo que existe
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Há um Ser primeiro que produziu todos os outros seres, e tudo que existe no céu, na terra e entre os dois tem seu fundamento na Realidade de sua Substância
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Surge a questão de como compreender a outra afirmação de Maimônides, segundo a qual Deus produziu a criação do “nada puro e absoluto”: do Ser divino ou do nada?
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Se o nada preexistisse, não seria nada, mas “algo” preexistente, de modo que a não preexistência de algo distinto de Deus não é o nada, mas a preexistência da Realidade eterna e infinita dAquele “fora do qual não há nada”.
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Em paralelo à doutrina do derramamento que supõe uma continuidade entre Deus e o derramado, Maimônides introduz entre eles uma descontinuidade absoluta que se une ao “nada puro e absoluto” no sentido literal, de onde Deus teria tirado o mundo
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Dessa separação absoluta resulta a ausência total e paradoxal de toda relação e, consequentemente, de toda similitude entre Deus e o que dEle emanou
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Maimônides afirma que, como a relação entre nós e Deus é inadmissível, a similitude é igualmente inadmissível, enquanto a Escritura revela que Deus criou o homem à sua imagem e segundo sua semelhança
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A concepção que afirma a inadmissibilidade da relação entre Deus e o que está fora dEle comete um erro duplo: vê algo “fora de Deus” abstraindo indevidamente sua Imanência ou Onipresença, e vê na Transcendência apenas a Absolutidade divina supra-ontológica, sem levar em conta o Princípio ontológico da relatividade universal.
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Os doutores exotéricos que não veem os dois aspectos ontológico e supra-ontológico do Transcendente confundem às vezes as características do Ser causal com as do Sobre-Ser não-causal
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Se diante do Absoluto o relativo é pura ilusão, essa ausência de relação não pode ser ela mesma absoluta, sob pena de introduzir na Realidade absoluta de Deus o impossível nada
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Existe uma relação indireta entre o Absoluto e os efeitos relativos e cósmicos, que consiste no próprio Ser causal; os efeitos do Ser causal, mesmo produzidos em modo relativamente descontínuo, não são desprovidos de toda relação com o Sobre-Ser não-causal
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Embora haja incomensurabilidade entre o Absoluto e o relativo, a similitude e a comparação existem, graças ao simbolismo sagrado da natureza e das revelações escriturais, entre a criação e o Ser causal, de cujo efeito ela é e de que manifesta algo.
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A criação reflete aspectos que se ocultam indistintamente na Unidade do Ser causal e cujas qualidades intrínsecas se revelam por suas manifestações cósmicas
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Essas qualidades inerentes ao Ser causal constituem os arquétipos eternos das coisas criadas
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O Sobre-Ser não-causal transcende todos esses protótipos divinos e qualitativos da criação
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Maimônides refere-se ao Ser causal e qualitativo, mas aplica-lhe implicitamente as características do Sobre-Ser não-causal e não-qualitativo ao afirmar que o Ser necessário não tem absolutamente nada em comum com os seres que produziu.
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Essa afirmação é exagerada mesmo em relação ao Sobre-Ser, que é a Essência absoluta dos seres criados, de modo que não se pode dizer que Ele “não tem absolutamente nada em comum com eles”
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Entre o Ser causal e suas imagens cósmicas há incomensurabilidade, mas não no mesmo sentido que entre elas e o Absoluto não-causal
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A comparação entre o efeito cósmico e sua Causa arquetípica é possível, mas exige uma transposição espiritual da forma criada e finita para seu Conteúdo divino, supra-formal e infinito
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O Conteúdo infinito é a Unidade do Ser e do Sobre-Ser: o Sobre-Ser é a Essência absolutamente indeterminada ou a Unidade absoluta que exclui em si mesma toda relatividade, mesmo arquetípica, enquanto o Ser causal é o Um que se afirma e se determina como tal e determina, no seio de sua Transcendência, a multiplicidade essencialmente una e prototípica das coisas.
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Maimônides não parece conceber a verdade ensinada pelo esoterismo: só visa a possibilidade da Unidade absoluta e exclusiva da Essência divina, e não a da Unidade relativa e inclusiva do Ser causal
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A Unidade relativa do Ser é considerada, primeiramente, sob o aspecto da relação do Ser com sua própria Essência absoluta, o Sobre-Ser não-causal, relação graças à qual subsiste a do Ser consigo mesmo
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Em seguida, é a Unidade relativa sob o aspecto da relação do Ser causal com todos os seus efeitos possíveis que ele atualiza, no seio de sua Onipresença, como criaturas
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Porque Maimônides, apesar de sua doutrina do derramamento divino, não visa essa Unidade relativa de Deus, atribui ao Ser causal e qualitativo as características de sua Essência ou Unidade absoluta, não-causal e não-qualitativa, excluindo toda relação entre o Criador e a criação e situando fora do Ser divino quase todas as Qualidades que os homens e a própria Escritura Lhe atribuem.
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Maimônides não visa as Qualidades divinas em sua multiplicidade essencialmente una, mas unicamente em sua manifestação cósmica, distinta e múltipla
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Não as considera inerentes ao Ser criador, que é, apesar delas, de uma única Essência simples
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Em suas Qualidades, na Transcendência, encontram-se totalmente e indistintamente unidas, sem confusão intrínseca de suas propriedades respectivas; Maimônides afirma que as Qualidades de Deus não passam de suas Ações, que se manifestam aquém de sua Essência una e não-qualitativa
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Maimônides acaba por separar Deus tanto de suas Qualidades quanto de suas Ações, por temor de introduzir nEle qualquer multiplicidade, como se nada pudesse atualizar-se a partir da Essência sem nela encontrar-se previamente em potência ou em essência.
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Maimônides admite que um Atributo divino, que considera simples Ação, pode indicar uma Perfeição absoluta, mas não conclui explicitamente que essa Perfeição, sendo a de Deus, seja uma de suas Propriedades e, por conseguinte, inerente ao seu Ser
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Ao afirmar que ações diversas emanam de uma única Essência simples na qual não há multiplicidade nem nada de acessório, situa as Qualidades divinas no plano exclusivo de suas manifestações ou das Ações de Deus
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Todo Atributo de Deus encontrado nos Livros divinos designa sua Ação e não sua Essência, ou indica o conceito humano de uma Perfeição absoluta
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A Essência una e infinita não é composta de coisa alguma, nem ao grau de sua Absolutidade nem ao de sua Causalidade; a Transcendência do Ser causal implica a multiplicidade essencialmente una de suas Qualidades, e sua Imanência ou Onipresença cósmica implica a multidão, existencialmente distinta, de seus efeitos criados, sem que qualquer dualidade ou pluralidade afete o Um absoluto e infinito.
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Maimônides é a tal ponto assombrado pela eventualidade de uma introdução de multiplicidade no Um que exclui de sua Essência até o atributo de unidade, afirmando que Deus é um, não pela Unidade, mas por Si mesmo
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O Um é Um por Si mesmo, não porque se Lhe atribua o acidente de unidade, mas a Essência, no grau absoluto, não é nem múltipla nem una, mas não-dual ou, melhor, inefável
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O Ser causal é um em Si mesmo e permanece um como Princípio do múltiplo que contém sem ser por ele afetado, como o número um a todo outro algarismo
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O fato de não levar em conta que o Um contém o múltiplo e nele se oculta sem que isso altere em nada sua Unidade leva Maimônides a situar fora de Deus não somente a multidão criada, mas também o arquétipo eterno dela, a multiplicidade essencialmente una das Qualidades divinas.
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Essas Qualidades, segundo Maimônides, não passam de Ações da Essência, não inerentes a Ela, mas ao único universo onde se manifestam
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Seriam manifestações sentidas pelas criaturas e qualificadas por elas em comparação com os nomes que dão a suas próprias experiências
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São atributos emprestados por elas a Deus, sem que Ele os possua realmente, como se as Ações que emanam de Deus no universo não manifestassem nada dEle, mas emanassem de um nada interposto entre Ele e suas manifestações cósmicas
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Maimônides afirma que esses nomes de Deus derivados de suas Ações, tendo-se multiplicado e fazendo crer a certos homens que Ele tinha atributos numerosos, todos nasceram após o nascimento do mundo, em relação às Ações de Deus encontradas no universo; mas se se considera sua Essência desnuda e despojada de toda Ação, Ele não tem absolutamente nenhum nome derivado, mas um único nome improvisado para indicar sua Essência.
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Isso seria em certa medida sustentável se não estivesse em correlação com a afirmação de que, se se aplica ao mesmo tempo a Deus e a tudo que está fora dEle a palavra “existente”, é apenas por simples homonímia
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Da mesma forma, se a ciência, a potência, a vontade e a vida são atribuídas simultaneamente a Deus e a tudo que é dotado dessas qualidades, é apenas por simples homonímia, não havendo nenhuma semelhança de sentido entre os dois tipos de atributos
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Fica demonstrado de modo decisivo que entre os atributos que se prestam a Deus e os que se conhece nos seres humanos não há absolutamente nenhuma espécie de comunidade de sentido
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Se há homens que creem numa multidão de Atributos de Deus, é porque sua Manifestação cósmica é múltipla e o homem busca a raiz do múltiplo no Um, encontrando a razão de ser do múltiplo na infinita Riqueza do Um, em sua Toda-Possibilidade e Toda-Realidade, de que a multidão criada é um reflexo ínfimo e evanescente.
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O homem só está abaixo da verdade se não transpõe o número dos Atributos ao nível de sua divina Plenitude, que ultrapassa tudo que é de ordem numérica ou quantitativa
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O mistério da Multiplicidade essencialmente una, da Unidade sem confusão das Perfeições ou Qualidades arquetípicas, é a origem transcendente da multidão distinta das coisas criadas
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É o mistério do grau ontológico e inteligível da Essência divina, o grau do Ser causal e qualitativo, enquanto o grau supra-ontológico e supra-inteligível é o da Essência não-causal, não-qualificável, inexprimível
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O que Maimônides não parece conceber são esses dois graus da Essência, cujo superior não exclui o inferior, sob pena de esvaziar a criação de toda sua substância divina e fazer dela um puro produto do nada, de uma descontinuidade absoluta.
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Segundo Maimônides, não há nenhuma relação real entre o Criador e sua obra, que representa em relação a Ele uma alteridade absoluta onde se procurará em vão um traço de seu derramamento cosmogônico, por ele mesmo afirmado em outro lugar
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O derramamento criador, do qual fala Maimônides, não poderia ser o de Deus mesmo, mas o que Ele fez sair do nada
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A menos que se trate de um derramamento de existência pura e não-qualitativa a partir de sua Essência, por sua vez pura e não-qualitativa
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Maimônides acrescenta ele mesmo à existência pura e não-qualitativa uma primeira qualidade existencial ao afirmar, em relação ao derramamento, que “em Tua Luz vemos a luz”, o que quer dizer que, graças ao derramamento do Intelecto ativo emanado de Deus, pensa-se e percebe-se o Intelecto ativo.
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Não somente a existência pura e simples, mas também sua luminosidade espiritual que a qualifica eminentemente e comporta toda outra qualidade ou perfeição existencial, é “emanada de Ti”, de Deus mesmo
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Essa separação existe efetivamente enquanto descontinuidade relativa entre Deus e sua obra, mas não como interrupção absoluta ou nada real
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Se a luz da inteligência é emanada de Deus mesmo, de modo que o Salmista a vincula à Luz divina, graças à qual “vemos a luz”, decorre logicamente que a Fonte divina de toda luz é Ela mesma infinitamente luminosa
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Maimônides não pode definitivamente eliminar toda similitude entre o criado e Deus, sob pena de rejeitar a imitatio Dei ordenada aos homens, como em Levítico XIX,2: “Sede santos, porque Eu sou santo”, e para contornar essa dificuldade recorre ao que chama de Atributos negativos.
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A realização da santidade pode ser visada pela via da negação de tudo que é impuro e profanado em nós e fora de nós, e de tudo que se opõe à Verdade absoluta
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Os Atributos negativos são aqueles de que se deve servir para guiar o espírito ao que se deve crer a respeito de Deus, pois deles não resulta multiplicidade alguma e conduzem o espírito ao limite do que é possível ao homem apreender de Deus
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Dizer que Deus existe significa que sua não-existência é inadmissível; dizer que é vivo significa que Deus não é sem vida; atribuir-Lhe potência, ciência e vontade significa que Ele não é impotente, ignorante, distraído nem negligente
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A tradução dos Atributos negativos em termos positivos que o próprio Maimônides realiza contradiz sua afirmação de que os Atributos afirmativos de Deus são impossíveis, pois dizer que “não isto” significa de fato “aquilo” equivale precisamente à comparação entre Deus e o criado.
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A via apofática, que procede pela negação do finito, ultrapassa a via catafática ou afirmativa, mas esta não é impossível, antes prepara a negação final de tudo que nega a Realidade incriada e ilimitada de Deus
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O que, no Sobre-Ser, não é nem impotente nem ignorante nem distraído nem negligente, afirma-se no Ser como sua Potência, sua Sabedoria e sua Vontade, que manifesta e irradia na criação sob múltiplos aspectos
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Maimônides, a despeito de sua perspectiva apofática ou negativa, acaba por se aproximar da via catafática ou da abordagem de Deus pela afirmação, imitação e assimilação relativa de sua Perfeição absoluta
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Os esotéristas judeus, ao buscar realizar as Perfeições ontológicas reais de Deus pela contemplação dos Atributos positivos, são suscetíveis de conhecer ipso facto a creatio in Deo, conhecendo-se a si mesmos por Deus mesmo, em Deus mesmo.
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Nessa contemplação, que se identifica essencialmente ao Conhecimento próprio de Deus, os esotéristas acabam por absorver-se na Realidade suprema e supra-inteligível do divino Nada ou Nada do nada
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Esse Nada divino é a Essência infinita e absoluta do próprio contemplante
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É a passagem final da via afirmativa para a via negativa, ao ultrapassamento de toda afirmação e de toda negação, que, sendo de ordem relativa, são transcendidas pelo Absoluto
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O esoterista ou Cabalista, após ter afirmado o que deve ser afirmado e negado o que deve ser negado, transcende tanto a afirmação quanto a negação e as utiliza com mestria, sem as confusões, incoerências ou contradições encontráveis em enunciados exotéricos.
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Maimônides, apesar de sua tese da ausência total de relação e comparação entre atributos criaturais e aqueles que as criaturas projetam em Deus, faz referência paradoxalmente à Vontade e à Sabedoria divinas, considerando a Sabedoria sob seu aspecto de Presciência
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Tendo afirmado que não há em Deus diferentemente algo pelo qual Ele saiba, queira ou possa, Maimônides distingue entre a Presciência e a Vontade divinas
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Se as identifica à Essência absoluta de Deus, nenhuma distinção poderia ser feita; se as assimila ao Ser causal, este teria Qualidades intrínsecas, o que Maimônides nega
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O ensino de que a Vontade de Deus não está sujeita a mudança e de que tudo se conforma à sua Sabedoria perpétua e invariável, sendo a Vontade conforme à Sabedoria e tudo em Deus uma mesma e única coisa, contradiz a afirmação de que a Presciência divina não faz sair o possível de sua natureza de possibilidade.
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A Vontade criadora de Deus seria livre a ponto de não dever levar em conta sua própria Presciência
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Isso implicaria que Deus, conhecendo ou prevendo uma coisa criada, poderia encontrar-se em plena ilusão a seu respeito, caso ela jamais existisse
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A sentença talmúdica de Rabi Akiba: “Tudo é previsto, mas a liberdade é dada ao homem de escolher e fazer o bem ou o mal” não é infirmada por isso, pois essa liberdade também é prevista
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Maimônides separa a Presciência de Deus de sua Vontade ao ponto de que ela não pode “exigir” de sua Vontade que faça sair do possível o que previu de toda a eternidade, introduzindo assim uma cisão fictícia na Unidade sem confusão dos Aspectos criadores.
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Deus conhecendo ou “prevendo” uma coisa criada poderia encontrar-se em plena ilusão a seu respeito, caso sua Vontade não tenha considerado o conteúdo de sua Presciência
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Ou ainda porque a Vontade o teria modificado, ou porque o homem, por sua só vontade livre e sem nenhuma relação com o Querer e o Saber eternos de Deus, teria feito sair uma possibilidade de sua natureza de possível
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Maimônides ensina que Deus, por sua Ciência perfeita e única, conhece de toda a eternidade todos os fenômenos, seres e mundos que surgem na criação, e que tudo o que Deus conhece está nEle eternamente em ato
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A distinção entre a Presciência eterna e a atualização dos possíveis pela Vontade livre, que Maimônides introduz, serve para afastar a ideia de necessidade da criação e manter a liberdade absoluta do Querer divino, preservando assim a Transcendência absoluta do Um em relação à multidão criada.
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Maimônides distingue e separa a Presciência do Um de seu Desígnio, sua Intenção, sua Vontade de criar as coisas: Deus sabe que elas chegarão à existência, mas seu Saber não exige necessariamente que cheguem à existência
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As coisas são em decorrência de um desígnio e não por necessidade; poderia Ele que formou o desígnio modificá-las e formar outro desígnio
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Porém, não poderia ser um desígnio qualquer, pois há uma natureza do impossível que é estável e não poderia ser destruída
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Se o impossível não pode ser objeto do divino desígnio, o possível mesmo deve ser logicamente correlativo de uma necessidade, cuja forma suprema é o Real no sentido absoluto, e em particular o Real enquanto Bem soberano.
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O divino Bem deve necessariamente difundir o que implica sua Bondade em possibilidades atualizáveis sob formas criadas, pois a Bondade é o que, por natureza, se comunica ao outro
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Os desígnios de Deus são necessariamente determinados por seu Bem, que é seu Ser mesmo, e se realizam necessariamente por sua Bondade
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A Escritura confirma isso em Gênesis I,31: “E Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom”
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Maimônides, ao sustentar que as coisas são por desígnio e não por necessidade, introduz no desígnio criador pelo menos a necessidade do bem, afirmando que Deus não pode fazer o mal diretamente, que todas as suas ações são o bem puro, pois Ele só faz o ser, e todo ser é o bem.
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Todos os males são privações de ser, às quais não se prende diretamente nenhuma ação divina, salvo que Deus produz a matéria com a natureza que lhe é própria, a saber a de estar sempre associada à privação
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Isso a torna causa de toda corrupção e de todo mal
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Por isso, toda coisa à qual Deus não deu essa matéria não perece e não está sujeita a nenhum dos males
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A diferença entre os termos hebraicos bara, criar, e asah, fazer, é destacada por Maimônides em referência à palavra de Deus revelada em Isaías XLV,7: “Eu, que formo a luz e crio as trevas, que faço a paz e crio o mal.”
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As trevas e o mal são privações, razão pela qual não se diz “que faço as trevas” nem “que faço o mal”, aplicando-se a essas duas realidades o verbo bara, criar, que na língua hebraica se vincula ao não-ser anterior
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Para Maimônides, o ato criador implica um nada literal, enquanto a perspectiva oposta sustenta que implica apenas a necessidade de uma descontinuidade relativa entre o Criador e sua obra
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A Continuidade do Um é subjacente a toda descontinuidade criada por Ele; seu Ser é imanente a toda privação de ser; sua Luz ilumina os viventes e seu Bem dissolve o mal ou o transmuta em Si mesmo
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Embora Maimônides afirme que as coisas são por desígnio e não por necessidade, introduz no desígnio criador ao menos a necessidade do bem, e essa necessidade decorre do próprio Ser necessário que é o Bem em si e que, consequentemente, faz necessariamente o ser ou o bem.
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A Bondade é o que, por natureza e por necessidade, comunica seu bem ao outro; por isso a Bondade do Bem soberano O comunica necessariamente a si mesmo ao que, existencialmente, é outro que Ele, sem ser essencialmente outro que Ele
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Deus ama seu próximo, e O ama como a si mesmo, enquanto a si mesmo; seu próximo, a criatura, é o objeto de seu Amor, e nesse objeto oculta-se seu próprio Sujeito
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O objeto criado é necessariamente a possibilidade correlativa de seu Amor, de sua Bondade, de seu Bem, de seu próprio Ser; em Deus, que é o Um, a Vontade e a Necessidade de amar, de criar, de unir tudo a Si mesmo não fazem mais que um
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O desígnio criador de Deus, sua própria determinação de criar, identifica-se à necessidade de comunicar-se, de difundir seu Bem ao outro criando-o e dando-se à criatura para uni-la a Si mesmo; por isso a criação, por definição, não pode não existir, contrariamente ao que afirma Maimônides.
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A inexistência do criado, que precede sua existência, é em si a realidade incriada de sua predeterminação eterna, do desígnio e do ato criador
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Maimônides afirma que a ideia do desígnio e da determinação só se aplicam a algo que ainda não existe e que pode existir ou não existir tal como foi projetado ou determinado
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Tudo que Deus prevê e quer, Ele o faz necessariamente em virtude de sua Onipotência: se determinou e quis a criação, se tal foi seu desígnio, ela deve necessariamente existir e existir tal como a projetou
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A alternativa simplista de Maimônides é separar absolutamente, pelo nada, o efeito criado de sua divina Causa, ou considerá-los absolutamente inseparáveis ao ponto de que o criado não poderia mudar sem que o Criador mudasse também.
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Nenhuma das duas hipóteses corresponde à relação real entre a Causa divina e seus efeitos, que é a Continuidade subjacente e imanente da Causa divina à sua separação ou descontinuidade relativa de com seus efeitos criados
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A Causa primeira e transcendente não é nem absolutamente separada de seus efeitos criados, como atesta sua Imanência, nem absolutamente inseparável deles, em virtude da descontinuidade evocada
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Os efeitos são essencialmente não separados de sua Causa, mas existencialmente dela dissociados; a Causa é separada deles precisamente lá onde eles começam a estar sujeitos à mudança, de modo que Ela em nada muda em relação a qualquer condição existencial
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A questão de como Maimônides visa a necessidade e a possibilidade, e correlativamente a potência e sua passagem ao ato, é examinada a partir de Aristóteles, sendo a necessidade absoluta própria somente de Deus.
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Tudo que é de uma existência necessária por sua própria essência não recebe sua existência, de modo algum, de nenhuma causa
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Toda coisa cuja existência tem uma causa é, por sua própria essência, de uma existência possível e não necessária: se suas causas estão presentes, existirá; se desapareceram ou se a relação que torna necessária sua existência é mudada, não existirá
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Maimônides aplica essa proposição à criação, causada pela livre Vontade de Deus: se essa causa está ausente, a existência do criado também o está
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Como o criado tem sua causa no livre Querer de Deus, não é em si mesmo senão uma possibilidade que, à semelhança de toda outra possibilidade, não tem realidade em si mesma, sendo portanto o nada, podendo ser se o único Ser necessário o quiser.
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Esse Ser é totalmente outro que os seres criados que faz passar da potência ao ato, situando-se fora deles, absolutamente separado deles
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Toda criação é atualizada a partir do nada e da potência, criada no seio desse último, que é a matéria primeira
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Em Deus, nada está em potência; nada passa, a partir dEle mesmo, ao ato; toda criação, salvo os anjos ou Inteligências separadas da matéria, é criada por Deus do nada puro e absoluto
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Os anjos ou Inteligências separadas constituem um caso excepcional: são criados por Deus em virtude de seu derramamento direto, sem que haja neles nenhuma privação e, consequentemente, nenhuma passagem da potência ao ato.
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Somente a matéria comporta essa privação; ela é a única potência de que e na qual a Vontade divina faz passar todas as outras criações ao ato
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O derramamento universal, por cujo intermédio a existência cósmica é efetivamente criada, provém de Deus mesmo, da Realidade de sua Substância
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Esse derramamento descendo de Deus às Inteligências comunica-se por seu intermédio às esferas celestes e destas ao corpo inferior sujeito ao nascimento e à corrupção
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A matéria primeira e informal é criada, embora seja pura potência contendo o possível, e tudo em ela está em potência e passa ao ato tomando formas e corpos celestes ou terrestres.
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Privada de todas as formas, ela as recebe todas sucessivamente, produzida do nada
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É a primeira das criaturas comportando o nascimento e a destruição, sendo o nascimento os criaturas celestes e terrestres e a destruição reservada apenas às criaturas deste mundo
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Maimônides distingue três matérias e três formas fundamentais: a dos corpos sempre em repouso (astros), a dos corpos sempre em movimento (esferas) e a dos corpos que ora se movem ora repousam (quatro elementos terrestres)
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O esoterismo judaico também considera a materia prima como informal e contendo em potência toda matéria criada, mas, segundo ele, é incriada, oculta eterna e indistintamente em Ain, o Nada divino, o Não-Ser ou Sobre-Ser de Deus, enquanto está eternamente atual em seu Ser como sua Receptividade a um tempo feminina e maternal.
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Enquanto Arquétipo do andrógino criado à sua imagem, Deus preenche eternamente sua Receptividade ou Feminidade própria com sua Luz a um tempo masculina e paterna
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A Receptividade divina é chamada, enquanto materia prima ou Princípio divino da matéria, o Éter transcendente (aramaico: Avira ilaah) ou o Éter principial (hebraico: Avir qadmon), muito puro e impalpável
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Essa receptividade, obscura em si mas de toda a eternidade inteiramente iluminada no seio do Ser pela Sabedoria divina que implica sua Presciência, é ela mesma o arquétipo divino de toda matéria criada
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As formas são manifestações da Luz, Sabedoria ou Presciência de Deus, nas quais preexistem real e eternamente em modo incriado e arquetípico, e a partir das quais são produzidas por sua Vontade criadora, que não se distingue de sua Determinação eterna compreendendo sua Presciência.
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A matéria está em potência na Receptividade de Deus, potência situada em seu Ser transcendente sem privação, pois eternamente preenchida de sua Luz
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A matéria é uma das possibilidades manifestáveis de Deus, possibilidade que não implica, portanto, sua própria irrealidade intrínseca, pois pertence ao Ser necessário mesmo
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Todas as possibilidades arquetípicas das formas criadas são eternamente atuais na Luz e Receptividade transcendentes de Deus, antes que Ele as atualize transitoriamente em sua Receptividade cósmica
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O creacionismo maimonidiano difere do esotérico essencialmente por não admitir no Criador nenhuma possibilidade, nenhuma coisa em potência, nenhum arquétipo do criado, portanto nenhuma preexistência prototípica das criaturas, das formas e das matérias, tudo sendo tirado por Deus do nada puro e absoluto.
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O Ser causal de Deus não é, segundo Maimônides, o Arquétipo supremo que contém em sua Unidade, em modo indistinto mas sem confusão qualitativa, todos os arquétipos de seus efeitos
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Mesmo que se diga que nEle as possibilidades se encontram em potência, essa potência incriada e divina é infinitamente mais real do que o que, dela, passou ao ato criado
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Toda forma criada, dotada de alguma matéria, está em potência em seu próprio arquétipo supra-formal e imaterial, em sua própria realidade incriada ou transcendente, eternamente em ato in divinis
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A possibilidade em si, que por definição é de ordem metafísica, comporta tudo que é compatível com as leis universais da realidade ou do ser; é, em verdade, o Um absolutamente real mesmo, cuja Realidade não se opõe à possibilidade em si.
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Se certos pensadores definem a noção de possibilidade como o que pode ser ou não ser, convém distinguir entre a possibilidade em si, de ordem metafísica, e a possibilidade enquanto visada em sua passagem da potência ao ato como possibilidade física
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Dizer que a possibilidade em si pode ser ou não ser significa que há, de um lado, possibilidade ontológica e, de outro, possibilidade supra-ontológica; a expressão “não ser” não pode indicar senão o não-ser no sentido de Sobre-Ser, de Realidade absoluta
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O não-ser no sentido de nada não se identifica ao possível, mas ao impossível
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No plano metafísico ou onto-supra-ontológico, no infinito Ser-Sobre-Ser, tudo é real: Ele é a Toda-Realidade em estado puro e, consequentemente, a Toda-Possibilidade em si, que se manifesta como Toda-Potência.
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No plano físico, cósmico ou criado, a atualização das possibilidades é limitada por definição; suas manifestações limitam-se mutuamente por impossibilidades ou descontinuidades por sua vez relativas
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A irrupção da Toda-Realidade ou Toda-Possibilidade divina no relativo pode tornar possível e atual o que, para o criado, é impossível: é a intervenção sobrenatural, o milagre
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Leibniz afirma: “Em Deus está não somente a Fonte das existências, mas ainda a das essências, enquanto reais, ou do que há de real na possibilidade… sem Ele, não haveria nada de real nas possibilidades, e não somente nada de existente, mas ainda nada de possível”
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Para Maimônides, a possibilidade é o que não é, o nada, mas que graças à criatio ex nihilo é atualizado; para o ponto de vista esotérico, a possibilidade não é, não no sentido de uma inexistência ou irrealidade absoluta, mas no sentido de um não-ser idêntico ao Sobre-Ser, à Realidade absoluta.
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A Realidade absoluta implica indistintamente a possibilidade de ser, sem ser Ela mesma; pois transcende o Ser, é mais que o Ser
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Enquanto contém indistintamente o Ser, este tem a possibilidade de determinar-se a si mesmo como tal, sem determinar por isso o indeterminável, o Absoluto
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O que o Ser determina simultaneamente são seus efeitos cósmicos, cujas essências residem em sua Essência, sua Sabedoria, sua Presciência ou Predeterminação cognitiva implicando sua Vontade criadora
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A cisão introduzida por Maimônides na Unidade divina manifesta-se especialmente ao separar a Presciência da Vontade divinas, afirmando que o conhecimento antecipado e divino de que nascerá das coisas possíveis não exige necessariamente que elas se realizem, e que a Presciência divina não faz sair o possível de sua natureza.
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Se não é nem a Presciência nem a Vontade de Deus que fazem sair o possível de sua natureza própria, seria necessário que fosse o próprio possível que, por seu só querer, saísse de seu próprio nada
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Isso elevaria o criado ao nível do próprio Criador, o que Maimônides não pode querer dizer
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A liberdade humana também é prevista: tudo o que o homem fará com ela, assim como as reações divinas a seus atos, está incluso na Determinação universal de Deus que abraça o livre-arbítrio do homem
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Em seu conjunto, a doutrina criacionista de Maimônides difere do criacionismo esotérico em pontos essenciais, começando pela concepção do Deus Um, para o qual, na visão exotérica, há fora dEle tudo que tirou do nada, enquanto para o esoterismo Ele é a Realidade pura, única, infinita e absoluta, fora da qual não há nada.
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Para a Kabbale, Deus não é somente a Essência absoluta e não-qualitativa que deixa fora de Si todo o relativo; é também o Ser causal, inteligível e qualitativo, que contém em sua Transcendência todas as coisas a criar no estado metacósmico, incriado e arquetípico, e em sua Onipresença cósmica no estado criado
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Maimônides visa apenas o aspecto supra-ontológico, não-causal ou não-qualitativo, atribuindo ao Ser causal as características do Sobre-Ser, confusão de que resulta boa parte de seus ilogismos doutrinais
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A eliminação dos arquétipos reais, eternos e qualitativos das coisas, que fazem parte integrante do Ser causal, e sua substituição pelo nada do qual provém a criação decorrem diretamente dessa confusão
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Apesar de sua doutrina do derramamento divino e criador, Maimônides permaneceu fiel à creatio ex nihilo no sentido literal, implicando a descontinuidade absoluta entre a Essência divina e a existência criada; isso significa que Deus não pode ser posto em relação com nada do que se encontra fora do Ser causal e universal.
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Maimônides vê a finalidade do homem em sua semelhança a Deus, que segundo ele não tem similitude com nada
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Para Maimônides, a semelhança do homem com Deus não desemboca na identificação total, espiritual e real, da essência humana com a Essência divina, pois isso suporia sua identidade preexistente e eterna
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O abismo do nada interposto entre o Criador e a criatura deve permanecer eternamente aberto, e o finito, uma vez saído do nada, é eternizado enquanto tal, coexistindo perpetuamente com Deus, o que contradiz a própria definição do Infinito que, somente, não tem fim nem começo
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Em verdade, o finito tem um começo e um fim e não pode coexistir sem fim com o Infinito; o finito deve retornar à Realidade de onde veio, à sua própria Essência divina, eterna e infinita, que pode sempre manifestar-se sob novas formas de finitude, sem que estas sejam jamais eternas ou co-eternas enquanto tais.
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A criação como tal é uma realidade relativa, transitória, ilusória: é aparência efêmera de um outro que Deus
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Ela está nEle, nasce nEle e é reabsorvida nEle, em sua Transcendência, onde não é mais criada, mas o que é eternamente: seu próprio arquétipo incriado, não fazendo mais que um com o Arquétipo dos arquétipos, o Ser divino
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O Ser divino em si, além de sua autodeterminação como Ser e Causa, é idêntico ao Sobre-Ser não-causal, ao Absoluto, à Essência absoluta de tudo que é relativo ou criado
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A doutrina criacionista de Maimônides, malgrado seus múltiplos adversários, foi finalmente adotada pela maioria de seus correligionários, especialmente pelos exotéristas; rabinos como Gersônides e Crescas criticaram vários pontos dessa doutrina.
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O rabino L.-G. Lévy, em seu Maimônides, resume as críticas a aspectos da doutrina maimonidiana, observando, por exemplo, que se não há rapport entre os dados da experiência sensível e o transcendente, qual pode ser o valor das provas da existência de Deus tiradas do espetáculo da natureza
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Lévy mostra também como Maimônides se contradiz a si mesmo, de uma obra a outra, em vários pontos de sua doutrina
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Gersônides ou Lévi ben Gerson, chamado também Magister Leo de Bannolis, opõe-se à creatio ex nihilo maimonidiana admitindo que existia de toda a eternidade uma matéria incriada, inerte e indeterminada, à qual Deus comunicou a forma, a vida e o movimento
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Crescas opõe a Maimônides que, quando se fala de criação ex nihilo, não se entende que exista um Nada que se tornaria o suporte da criação, mas que todo o ser, tanto a matéria quanto a forma, deriva do Ser necessário.
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A hipótese que visa a criação como ato necessário não exclui a concepção desse ato como efeito da vontade divina
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A comunicação criadora de ser que parte do princípio espiritual divino é acompanhada da plena representação dessa comunicação; enquanto esse princípio é pensante ou conhecente, quer imediatamente o que representa ou determina cognitivamente em si, e sua vontade não faz senão atualizá-lo no plano cósmico
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Crescas afirma que a pluralidade conceitual não significa pluralidade real; se a natureza discursiva do espírito nos obriga a separar as qualidades, elas não são por isso múltiplas em Deus, e os atributos negativos têm no fundo um conteúdo positivo
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O Gaon Saadia ben Joseph de Faium, no século IX-X, comentando a doutrina cosmogônica do Sefer Yetzirah, visa o termo creatio ex nihilo da seguinte maneira: “Dizemos: Ele criou algo, não de algo; e não dizemos: Ele criou algo de nada.”
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Com isso, indica como se deve compreender a fórmula negativa cara aos exotéristas: se o termo “algo” designa o criado, Deus não poderia produzir a criação de uma coisa que ela mesma pertence à criação
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Portanto, cria necessariamente a partir de uma não-coisa, mas sem que esta seja o nada, pois atribuir ao nada uma realidade preexistente e receptiva à criação o torna, por definição, essa realidade
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Saadia abre a porta à interpretação esotérica segundo a qual a não-coisa de que Deus criou o mundo é seu próprio Ser ou o Aspecto causal de sua Unidade infinita
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O grande mestre cabalista Moisés de Leão, nos séculos XIII-XIV, autor ou compilador do Zohar, ensinou no Sefer ha-Rimmon que cada coisa está ligada a outra até o anel mais baixo da cadeia, e que a verdadeira Essência de Deus está acima tanto quanto abaixo, nos céus e na terra, sem que nada exista fora dEle.
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Quando Deus deu a Torah aos israelitas no Sinai, abriu-lhes os sete céus e eles viram que lá não existia nada além de sua Glória; abriu os sete mundos e viram que não havia nada senão sua Glória; abriu os sete abismos e viram que não havia nada senão sua Glória
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A Essência de Deus está ligada a todos esses mundos e todas as formas de existência estão ligadas umas às outras, derivando da Existência e da Essência de Deus
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A Continuidade divina e onto-cosmológica é o fio condutor do esoterismo, manifestando-se pelo encadeamento causal de todas as coisas, indo da Essência criadora até seus últimos reflexos criados