A aparente contradição entre o “puro nada” das criaturas e sua realidade é resolvida: as criaturas são um “puro nada” apenas em si mesmas, sem Deus, mas como não podem existir sem Ele, que é o Ser único e universal, elas são, em verdade, aparições de uma Realidade que não é outra senão a Dele, de modo que, quando a criatura se despe de sua aparência criatural, ela é sua própria Realidade incriada e divina, identificando-se ao “Nada do nada” que é o Absoluto.
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As criaturas, sem Deus, seriam um “puro nada”, mas não podem ser sem Ele, o Ser único.
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Elas são aparições existenciais de uma Realidade que, em essência, é a própria Realidade divina.
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Quando a criatura deixa de ser a aparência de um outro que Deus, ela é sua própria Realidade incriada e divina.
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O “nada” do criado identifica-se, na coincidentia oppositorum, ao “Nada do nada” que é o Absoluto, o único “Nada” possível da creatio ex nihilo, que é, na verdade, uma creatio ex Deo.
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A criação a partir do nada é reinterpretada à luz da metafísica eckhartiana: o Ser causal e universal irradia-se a partir de sua própria Essência absoluta (o Sobre-Ser não-causal), numa operação no “Não-Ser” que faz “nascer” o Ser, sendo esta a verdadeira significação da creatio ex nihilo, na qual o “nada” é o próprio Fundo divino de onde tudo procede e para onde tudo retorna.
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O Ser causal, no “vasto espaço” de sua Infinitude, determina-se como Ser a partir do Sobre-Ser imutável, operando no “Não-Ser” sem que este seja afetado.
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Antes de todo ser, Deus já “operava” fazendo nascer seu próprio Ser, estando, em sua Essência, acima do Ser.
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A criação, portanto, não é um ato que parte de um nada literal, mas uma irradiação do Ser divino a partir de sua própria Essência absoluta, o “Nada” divino.
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O comentário de Mestre Eckhart a “In principio” revela o mistério da criação como um processo eterno no qual o Pai engendra seu Filho único “das Trevas escondidas” da Divindade, e este, por sua vez, desce para buscar a criatura e reconduzi-la, através da “câmara nupcial” da Paternidade oculta, à sua Absoluidade no “mistério das Trevas da Divindade eterna”, que é a Origem não-causal e a Finalidade última de todo ser.
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“In principio” significa que somos o Filho único que o Pai engendrou eternamente das Trevas ocultas da Divindade.
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O Filho, após “dormir” inexprimido na Paternidade eterna, ergue a tenda de sua glória e desce para buscar a criatura, sua “amiga”, com quem está unido desde a eternidade.
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A “câmara nupcial” para onde o Filho conduz a criatura é a “obscuridade silenciosa de sua Paternidade oculta”, a Essência supra-inteligível da Divindade.
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O “primeiro começo” (o Ser) só existe em virtude da “vontade do fim último” (o Sobre-Ser), onde Deus repousa como fim de toda causalidade e de toda criatura, nas Trevas mais que luminosas de sua Divindade eterna e incognoscível.
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A doutrina eckhartiana é resumida na imagem do Círculo divino da criação: a Divindade é o “Nada” que circunscreve o Círculo, cujo Centro é o Ser causal e trinitário, cujos raios são as “centelhas divinas” que constituem a realidade das aparências criadas, de modo que todas as coisas são nascidas de Deus e em Deus e a Ele retornam, numa creatio ex Deo et in Deo em sentido pleno, exigindo, porém, que a criatura decaída retorne pela graça à sua essência divina, unindo-se ao “Ponto central” que é a Trindade.
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A Divindade é o “Nada” ou “Treva mais que luminosa” que contém o Círculo da criação, cujo Centro é o Ser trinitário e causal.
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A irradiação do Centro produz os raios, as “centelhas divinas”, que são a realidade das aparências criadas, reais por participarem de Deus, mas efêmeras em sua alteridade criatural.
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O Círculo é a “Esfera cujo Centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma”, pois o Centro onipresente e infinito abrange toda a existência.
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A alma que vê a criação preenchida pela Glória divina cessa de tomar as aparências por realidades independentes e retorna ao Centro para recuperar sua Realidade pura.
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A descrição da alma que “percorreu o círculo do mundo” e se lançou no “único Ponto central” da Trindade é interpretada: neste Ponto, que é a Potência criadora una e imutável, a alma participa da Onipotência divina e, unindo-se a ele pelo “poder unitivo” do olhar de Deus, é desapegada de toda criaturalidade e nele confirmada, conhecendo a Deus por Deus mesmo, num estado onde sabe ter sido criada do “Nada” divino para afirmar e realizar o que realmente é: o próprio Absoluto.
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A Trindade é a Causa de todas as coisas, que imprimiu sua imagem nas criaturas e para a qual todas aspiram retornar.
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O “Ponto central” é a Potência criadora da Santíssima Trindade, Una e imutável, na qual a alma, ao se unir, participa dessa Onipotência.
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O “olhar” divino é o poder unitivo que desapega a alma de tudo o que é criado e mutável, resolvendo-a no Ponto único, onde é eternamente confirmada na união com Deus.
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Quando a alma é despojada de seu próprio ser criatural, Deus torna-se sua única Essência, e ela contempla, conhece e apreende a Deus por Deus mesmo.
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Os exemplos extraídos da obra de Mestre Eckhart demonstram sua penetração no mistério da criação até a “progressão” na Identidade essencial da criatura com o único Real, doutrina que encontra paralelo no esoterismo islâmico ou Sufismo, particularmente na doutrina da “Unidade do Ser” (wahdat al-wujud), fundamentada no Corão, que afirma que Deus criou o mundo “bi-l-haqq”, isto é, “pela, da e na Verdade ou Realidade” que Ele mesmo é.
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Mestre Eckhart atinge, em sua doutrina, a Origem e a Finalidade absolutas das criaturas: sua Identidade essencial e eterna com o único Real.
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No esoterismo islâmico, a doutrina da “Unidade do Ser” (wahdat al-wujud) afirma que não há realidade senão a Realidade divina, única e universal.
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O Corão revela que Deus criou o mundo bi-l-haqq, “pela, da e na Verdade ou Realidade”, sendo al-haqq um nome divino que significa o único “Verdadeiro e Real”.
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A doutrina da “Unidade do Ser” no Sufismo é exposta através de seus principais mestres: Ibn'Arabî afirma que a Realidade divina é o aspecto interior da criação, enquanto esta é o aspecto exterior daquela, sendo o mundo uma “revelação” (tajallî) de Deus a Deus em Deus; al-Jîlî identifica a Essência divina como o “Mistério da Unidade”; Hamzah Fansûrî equipara a existência do universo a uma imagem no espelho, sem realidade própria; e Jâmi sintetiza que a Essência única, considerada absoluta, é a Realidade, e considerada sob o aspecto da multiplicidade, é todo o universo criado.
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Ibn'Arabî ensina que a Realidade divina (al-haqq) é o interior (al-bâtin) da criação, e esta é o exterior (az-zâhîr) daquela.
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A palavra divina “Eu era um tesouro escondido e quis ser conhecido” fundamenta a criação como uma revelação de Deus a Deus em Deus.
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Os “arquétipos imutáveis” ('ayân ath-thâbita) do criado residem eternamente em Deus como determinações próprias de seu Ser uno.
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Al-Jîlî, Hamzah Fansûrî e Jâmi reforçam, em suas obras, a identidade essencial entre a Realidade divina e o universo, sendo este a manifestação externa daquela, sem que haja, contudo, uma existência independente para o criado.
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A concepção esotérica islâmica da criação é claramente distinguida do panteísmo: trata-se de uma doutrina da Unidade divina que abrange tanto a Transcendência quanto a Presença universal do Uno, mas sem reduzir Deus ao mundo ou considerar o mundo como uma emanação da Essência divina; a criação é uma “determinação cognitiva” de Deus, uma distinção principial que implica uma descontinuidade relativa entre Criador e criatura, compensada pela Unidade contínua da Causa, subjacente a toda dualidade.
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A doutrina não é um panteísmo imanentista (que reduz Deus ao mundo) nem emanatista (que considera o mundo um fluxo da Essência divina).
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Deus é o único Real e o Toda-Real, sendo “Ele mesmo” em sua Realidade transcendente e “Ele mesmo” no seio das aparências do universo criado.
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A criação é uma “autodeterminação cognitiva” de Deus, que se determina como Ser uno e como Causa universal, implicando seus efeitos criados sob a aparência de algo outro que Ele.
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Há uma descontinuidade relativa entre a Causa e o efeito, compensada pela Unidade ou Continuidade infinita da Causa, imanente a toda dualidade.
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A relação entre exoterismo e esoterismo no Islã é abordada: o exoterismo afirma o dualismo entre o “Senhor” e o “servo” e a creatio ex nihilo, enquanto o esoterismo, respeitando esse dualismo na prática religiosa, o supera na realização espiritual pela “extinção” (fanâ) da ilusão de uma “coexistência” com o único Real, alcançando a Unidade que não tem associado, o que é corroborado pela tradição profética sobre a proximidade divina a ponto de Deus tornar-se os próprios sentidos do fiel.
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O exoterismo islâmico afirma o dualismo entre o Senhor (rabb) e o servo ('abd) e a creatio ex nihilo.
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Os esotéricos respeitam esse dualismo na prática religiosa, mas o transcendem na realização espiritual pela “extinção” (fanâ) da ilusão da alteridade.
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A palavra divina transmitida pelo Profeta, sobre Deus tornar-se o ouvido, a vista, a mão e o pé do fiel que Dele se aproxima, mostra a relação essencial entre Deus e o criado, apesar da afirmação exotérica da creatio ex nihilo.
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O abismo entre o criacionismo exotérico e a concepção esotérica da creatio ex Deo et in Deo não é intransponível, sendo superado por aqueles a quem o mistério da criação se desvela à luz do único Verdadeiro e Real, confirmando que “Deus era e nada com Ele, e que Ele é agora como era”.