O intelecto é uma manifestação divina no centro do homem, participando do Sujeito divino e sendo, segundo Mestre
Eckhart, “incriado e incriável”, atuando como a manifestação divina permanente no microcosmo humano, ainda que frequentemente obscurecida.
-
O intelecto é, em modo subjetivo, o que a Revelação é em modo objetivo, mas esta é transmissível, enquanto a Conhecimento em si é incomunicável.
-
O caráter “incriado” que alguns teólogos discernem na fé indica que esta é um aspecto do intelecto, uma adesão à Verdade incriada.
-
O Avatâra ou a Revelação é o reflexo divino na humanidade, distinguindo-se do intelecto (subjetivo) e da Criação (objetiva), pois o Avatâra subjetiva a Criação e objetiva o intelecto, restaurando a qualidade primordial do homem.
-
Pela queda, o Intelecto individualizou-se em razão e a Criação interior exteriorizou-se em mundo material.
-
O Avatâra une em sua pessoa a totalidade do macrocosmo objetivo e o centro do microcosmo subjetivo.
-
O Avatâra encarna Deus e, por estar no mundo, personifica a Criação, o Espírito universal, o Homem e o Intelecto.
-
A encarnação de Deus no homem prova que a humanidade é uma manifestação divina em seu mundo, mas que essa divindade se tornou inoperante no indivíduo como tal, sem o que a Encarnação seria um pleonasmo, além de mostrar que não há simetria entre o Infinito e o finito.
-
O homem é centro do mundo terrestre, mas não um polo absoluto do cosmos, havendo outros centros em outros mundos.
-
O caráter de centro e totalidade do homem, que permite a Encarnação divina, prova que ele não é suscetível de uma evolução essencial que o separe de sua forma atual.
-
A Revelação, sendo Deus a dizer “Eu”, apresenta-se como algo absoluto, comparável à subjetividade empírica e única do ego, cuja pluralidade é tão ininteligível quanto a ilimitação do espaço e do tempo, o que revela uma parcela de ilusão na estrutura do cosmos.
-
O ego é praticamente solipsista, devendo admitir outros egos, mas sem abolir a unicidade empírica do próprio “eu”.
-
A subjetividade relativa é contraditória por ser “objetividade” em relação ao Sujeito puro, o divino Si-mesmo, que contém todos os sujeitos sem contradição.
-
A “egoidade” de fato das Revelações explica-se pela unidade divina e pelo meio humano formal, exclusivo e diverso.
-
Podem-se distinguir quatro categorias de Avatâras, sendo duas maiores (fundadores de religião ou dispensadores supremos de graças) e duas menores (grandes sábios ou santos), subdivididas em manifestações solares (plenárias) e lunares (parciais).
-
Os Avatâras maiores podem ser solares ou lunares conforme a natureza da Mensagem e do receptáculo coletivo.
-
Os Avatâras menores repetem, em menor escala e no quadro de uma tradição, a função dos maiores, de modo solar ou lunar.
-
As encarnações femininas (shakti) têm papel secundário.
-
Os Avatâras maiores são atribuídos a Vishnu (função de conservação) e os menores a Shiva (função transformadora).
-
A criação do homem e da Criação em geral não se deu por evolução a partir de uma célula única, mas por manifestações ou materializações sucessivas a partir do estado sutil, matriz cósmica das ideias a encarnar, conforme ilustrado por mitos como o pele-vermelha das três criações.
-
As formas de animais fósseis representam tentativas preliminares de encarnação de “ideias”, não uma continuidade genética entre espécies.
-
Nas primeiras ondas da criação, a matéria não era nitidamente separada do mundo sutil, permitindo materializações a partir do estado sutil.
-
Evoluções parciais e adaptações ao meio são possíveis, mas em proporções compatíveis com os princípios metafísicos.
-
Relatos antigos e medievais ilustram a antiga transparência da matéria e a interpenetração dos estados material e sutil, época em que o maravilhoso era frequente e as analogias cósmicas eram mais diretas, ao contrário do endurecimento mental dos últimos séculos.
-
Nas épocas primordiais, a “geografia sagrada” tinha plena eficácia espiritual.
-
A criação deve ser concebida como uma elaboração anímica, análoga às produções descontínuas da imaginação, não como um transformismo na matéria empírica.
-
O advento do homem foi uma descida súbita do Espírito num receptáculo perfeito e definitivo, conforme à manifestação do Absoluto, não havendo comensurabilidade ou continuidade psicológica entre o homem e as formas antropomórficas que o precederam.
-
A absolutez do homem é comparável à do ponto geométrico, que não pode ser atingido quantitativamente a partir da circunferência.
-
As formas que precederam o homem parecem ser esboços cada vez mais centrados na forma humana, cujos vestígios díspares seriam os símios.
-
O Símbolo e a Graça são manifestações divinas, sendo o primeiro exterior e formal, veiculador de graça, e a segunda interior e informal, presença ou essência divina.
-
Toda forma que exprime Deus, natural ou tradicionalmente, é um símbolo suscetível de veicular e desencadear a graça.
-
A graça, a Revelação, o intelecto e o Espírito universal podem ser chamados “incriados” devido à sua identidade essencial com a fonte divina.
-
Por extensão, seus receptáculos (símbolo, Avatâra, homem, Criação) poderiam ser ditos “incriados criados” para precisar sua função, se a expressão não fosse tão antinômica.
-
Há dois gêneros de símbolos: os da natureza (correspondência horizontal) e os da Revelação (correspondência vertical), sendo que estes últimos recebem sua eficácia espiritual do Avatâra ou da Palavra revelada.
-
Antes da queda, toda a criação era “interior” e todo fenômeno natural era um símbolo pleno; para o sábio, essa transparência é restituída.
-
O Avatâra deve “viver” uma forma para a tornar efetiva, razão pela qual as fórmulas sagradas e os Nomes divinos devem provir da Revelação para serem realizados.
-
Há dois gêneros de graças: as naturais (acessíveis pela existência, virtudes ou consolações sensíveis) e as sobrenaturais (em conexão com uma Revelação ou com a intelecção), que provêm diretamente da fonte divina em sentido vertical.
-
Embora todo bem venha de Deus, o homem decaído já não é capaz de ver espontaneamente a Causa celestial no efeito terrestre, o que exige a “reencarnação” de Deus nas formas “mortas” através da Revelação, cujo quadro é necessário para a atualização do intelecto.
-
O intelecto tem em princípio os mesmos poderes que a Revelação, mas sua atualização não se dá contra ela no quadro de uma tradição dada.
-
É pouco provável que o intelecto se atualize sem o concurso de um quadro tradicional ou de múltiplas fontes tradicionais.