O sufi percebe, pelo “olho do coração”, que “toda coisa é Ele”, pois o mundo, embora não seja Deus em sua existência particular, é “o Exterior” em sua possibilidade profunda e no milagre permanente que o sustenta, de modo que, em certo sentido, “não é outro senão Ele” devido à sua causalidade divina.
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A afirmação de que o mundo “é Deus” é verdadeira em um sentido, mas exige a contrapartida de que Deus não é o mundo, razão pela qual não se pode falar de “o Exterior” sem “o Interior”.
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O mundo “é Deus” ou não é, pois sua existência depende inteiramente da causalidade divina.
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Todo homem está suspenso entre “o Primeiro” e “o Último”, sendo um fluxo emanado do “Primeiro” e uma coagulação veiculada por “o Exterior”, devendo, para ser humano, carregar em si a vontade do refluxo para “o Último” e a consciência de “o Interior”.
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O homem é um fluxo que deve tender ao refluxo, sob pena de ser animal.
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O homem é uma individuação (coagulação) que deve ter consciência do “Interior”, pois sua razão de ser é a manifestação do Não-Manifesto.
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Deus é “o Primeiro” também como Legislador, cuja Lei estava antes do homem, e “o Último” também como Juiz.
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O homem, por ser feito à imagem de Deus, estende-se da forma corporal, passando pela alma e espírito, até o Ser e o Si, sendo tecido em “o Exterior” e desembocando em “o Interior”.
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O que provém de “o Primeiro” deve retornar a “o Último”, constituindo o fundamento do drama escatológico humano, no qual o homem, como “mensagem de Deus a Deus”, deve percorrer livremente o caminho, sendo a liberdade uma espada de dois gumes que inclui a possibilidade do absurdo de querer ser para si mesmo o princípio e o fim.
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A razão de ser da natureza humana é a manifestação plena da liberdade.
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A liberdade, sendo uma possibilidade, não pode deixar de se realizar, tornando o homem necessário.
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A liberdade inclui a eventualidade do absurdo, que é o desejo de ser autossuficiente, ignorando que a existência provém de uma vontade externa.
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O homem, tendo recebido tudo, inclusive a existência, é feito para a obediência, e é nesse quadro que sua liberdade positiva encontra sentido ao escolher a submissão espiritual, ao contrário da ilusão moderna de uma liberdade de direito que a criatura contingente não pode possuir, a menos que seja transcendida pela gnose, onde a Liberdade absoluta toma posse do homem.
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A liberdade positiva é a que escolhe a verdade e o bem, e, tendo-os escolhido, decide-se por uma verdade e um bem particulares.
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A liberdade de escolher a submissão é a liberdade positiva, espiritualmente falando.
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A pretensão à posse total de algo que escapa ao próprio poder é absurda, como a existência recebida.
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A maldição do homem moderno é crer-se inteiramente livre de direito, quando a liberdade só é possível no sobrenatural, onde a criatura se ultrapassa pela gnose e pela graça.
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A “mística” moderna é a da revolta, um espírito de rigidez e frieza, uma petrificação espiritualmente mortal e agitação sem saída, que contrasta fundamentalmente com o espírito de submissão e só pode ser vencida pela inteligência e pela graça, cujo milagre é uma irrupção de “o Interior” (El-Bâtin) no domínio de “o Exterior” (Ezh-Zhâhir).
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O espírito de revolta, diferentemente da santa cólera, é o orgulho que se coloca como vítima.
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Esse espírito implica ódio e é incompatível com a submissão, como água e óleo.
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A inteligência da maioria não resiste à paixão da amargura, tornando necessário o milagre para romper essa crosta.
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O Paraíso celestial tem o sentido inverso ao do milagre, sendo uma entrada de “o Exterior” no domínio de “o Interior”, assim como as Revelações são manifestações “tardias” de “o Primeiro” e os cataclismos manifestam “por antecipação” “o Último”.
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O Paraíso é a natureza interna da pura Existência, e a conformidade com essa natureza, obtida pela submissão à Lei celeste, leva à Bem-aventurança, enquanto a oposição a ela, pela idolatria dos acidentes, afasta da Beatitude e encerra na própria contingência e no inferno, princípio que se estende do Ser ao Supra-Ser, onde reside o “Paraíso da Essência”.
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Submeter-se à Lei é conformar-se à própria essência, pela qual se existe.
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A ausência de Beatitude só pode ser o inferno, pois a Existência é feita de felicidade.
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O “Paraíso da Essência” (Jannat edh-Dhat) dos sufis é o Parinirvana supremo.
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O Si (Soi) é a natureza interna ou absoluta da pura inteligência, cuja via de acesso é o discernimento e a concentração contemplativa, ao passo que o polo da Existência se caracteriza por Pureza, Inviolabilidade e Misericórdia, sendo o Si o eixo luminoso e liberador que nela penetra.
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A resposta sobre o Si é dada em simetria com a resposta anterior sobre o Paraíso.
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O polo da Existência corresponde à via da ação, da obediência, da caridade e do amor ativo de Deus.
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O polo do Si corresponde à via do amor contemplativo de Deus e da gnose.
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A devoção é o elemento que une todas as intenções e perspectivas humanas.
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A questão sobre se a Realidade é “boa” ou “má” comporta duas respostas: ela não é nem boa nem má, por transcendência, e ela é boa, porque o bem revela essencialmente a natureza dessa indiferenciação superior, de modo que o todo é sempre bom, mesmo que a parte possa ser um mal.
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O mal só pode existir a título de fragmento, nunca de totalidade.
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O bem dilata, o mal retrai; o mal torna fragmentário, o bem torna inteiro.
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Deus só se manifesta nas perfeições; onde há falta, não pode haver totalidade ou centro.
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Diante do mundo, há três atitudes possíveis: a aceitação dos fenômenos como única realidade, que nega a interioridade de Deus; a rejeição do mundo como o que não é Deus, que nega a exterioridade divina; e a visão do mundo como “Exterioridade divina”, que, consciente de sua transparência metafísica, vê Deus em tudo sem prejuízo da Lei divina.
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A primeira atitude, infra-humana, nega que Deus é tanto “o Exterior” quanto “o Interior” e que um só tem sentido pelo outro.
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A segunda atitude vê no mundo apenas impermanência, engano e sofrimento, negando “Deus-o-Exterior”.
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A terceira atitude toca as essências através das formas, sem perder de vista que nenhuma aparência “é” Deus e que cada uma tem um reverso oriundo da exterioridade separada da interioridade.
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A sexualidade, pertencente ao domínio de “o Exterior” (Ezh-Zhâhir), tem como fins a procriação e, em virtude de seus protótipos divinos e da transparência dos símbolos, uma função contemplativa, sendo que a fruição sexual fora dessas condições constitui uma profanação de gravidade ontológica que acarreta a queda em estados infernais.
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O êxtase carnal pertence a “Deus-o-Exterior”, sendo o homem apenas o instrumento da vontade divina de expansão.
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Nada humano é puramente animal, pois o homem é feito à imagem de Deus.
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O elemento contemplativo deve encontrar seu lugar no quadro da legislação sagrada, sem comprometer o equilíbrio social tradicional.
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Uma imagem do reino de “o Primeiro” (El-Awwal) remeteria às origens do Paraíso terrestre e ao desabrochar das criaturas, enquanto uma ideia do advento de “o Último” (El-Akhir) exigiria antever a explosão da matéria e o refluxo existencial da Trombeta.
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“O Exterior” (Ezh-Zhâhir) está sempre ao alcance imediato, manifesto na grandeza da natureza virgem e nos símbolos da arte sacra, enquanto “o Interior” (El-Bâtin) está ao mesmo tempo próximo e infinitamente distante, sendo pressentido na verdade, na intelecção pura, na virtude e na graça, podendo o divino Si, por sua onipresença, queimar os véus da separação.
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A natureza virgem (profundezas do céu, majestade das montanhas, ilimitação dos mares) manifesta a grandeza de Ezh-Zhâhir.
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El-Bâtin está “dentro de nós”, mas escapa à imaginação voltada para as contingências.
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Para o animal, só Ezh-Zhâhir é Deus; para o crente comum, só El-Bâtin o é; mas para o “conhecedor por Deus”, ambos os aspectos são Deus e nenhum deles o é, pois esses Nomes, resultantes de uma polaridade, resolvem-se na unidade intrínseca do Princípio, que é o que é por Si mesmo e em Si mesmo, independentemente de qualquer função.
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Falar de interioridade é ainda considerar Deus em função de uma exterioridade.
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Deus é o que é “por Si mesmo” (bi-Hî) e “em Si mesmo” (fî-Hi).
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A distinção entre os aspectos depende do grau de realidade que o Intelecto contempla “com a permissão de Deus”.
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A afirmação final do versículo de que “Ele sabe infinitamente toda coisa” exclui qualquer interpretação que reduza o Princípio a estados ou substâncias inconscientes, pois Allah, sendo a causa infinita de tudo, possui toda perfeição concebível, incluindo a consciência e a atividade, sem conflito com sua unidade e simplicidade.
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Sendo Allah Um, a polaridade “Exterioridade-Interioridade” não é absoluta nem eterna, de modo que “o Interior” coincidirá com “o Último” quando, para além de todas as distinções, só restar a “Face de Allah”.
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O sol “interior” se levantará no campo “exterior”; “Deus virá”.
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“O Exterior” retornará a “o Interior”.
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A frase final “não restará senão a Face de Allah” sintetiza o destino último de toda polaridade.