A imensa importância das “preces sobre o Profeta” no Islã é explicada pelo mistério do “Deus manifestado”, cuja natureza é incontestavelmente humana e, ao mesmo tempo, sobre-humana, como ilustra a imagem do sol que se reflete num lago: quem vê o reflexo vê, de certa maneira, o próprio sol, tal como no dito de Maomé: “Quem me viu, viu a Verdade (Deus)”.
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Sem o sol, a água não seria visível nem teria reflexo.
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A doutrina do “Deus manifestado” é esotérica do ponto de vista muçulmano.
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Embora o Islã seja estranho a todo avatarismo, ele não pode deixar de atribuir à qualidade profética de seu Revelador uma virtude única, pois toda manifestação do Logos se manifesta como a única manifestação, a mais ampla, a primeira, a última ou a da essência do Logos, analogamente aos Nomes divinos, cada um dos quais é Deus e se torna central quando se revela ou é invocado.
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Nenhum Nome divino é o outro, mas cada um é Deus.
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O mesmo princípio se aplica, mutatis mutandis, ao Adi-Buddha, que é sempre o mesmo Logos projetado no tempo e no espaço.
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Ao lado das três grandes teofanias (Supra-Ser, Ser e Logos-Intelecto), pode-se distinguir uma quarta, o Logos refletido no microcosmo, que é o Intelecto humano, “nem criado nem incriado”, ao qual é necessário submeter todas as potências da alma para atingir a Sophia Perennis.
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O princípio “ninguém vai ao Pai senão por mim” aplica-se também ao puro Intelecto em nós.
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Na ordem sapiencial, importa submeter todas as potências da alma ao puro Espírito, que se identifica, de maneira informal e ontológica, ao dogma fundamental da Revelação.
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O Islã cultiva a pobreza como um de seus traços fundamentais, manifestando-se desde a conduta do Profeta até a arte das mesquitas, onde a riqueza é neutralizada por uma calma monotonia, e o próprio Alcorão, com seu estilo sóbrio e viril, é o paradigma desse equilíbrio que previne o individualismo titânico.
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A pobreza do Profeta é livremente consentida e piedosamente praticada.
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O estilo corânico, com sua secura média, enraíza o tipo humano na piedosa pobreza e na santa infância.
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A alma árabe é feita de pobreza, da qual derivam e para a qual refluem qualidades como ardor, coragem, tenacidade e generosidade.
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O pauperismo islâmico encerra uma mensagem universal sobre a norma do bem-estar ser um mínimo de conforto, com as virtudes cardeais do contentamento e da gratidão, mas essa mensagem se assenta na verdade mais profunda de que os “pobres” são aqueles que sabem nada ter por si mesmos e tudo necessitar de Deus, o “Rico”, e a pobreza perfeita desemboca na riqueza da Imanência divina.
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A base corânica da pobreza espiritual é o versículo que declara os homens “pobres em face de Deus” e Deus “o Rico”.
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O Islã, como “resignação” à Vontade divina, é pobreza, que não é um fim em si, mas tem sua razão de ser no complemento positivo.
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Morrer para a Transcendência é nascer para a Imanência.