Sentenças evangélicas sobre não julgar, a espada e a primeira pedra exigem interpretação quanto à intenção, pois se dirigem ao lado passional do homem, já que julgamento legítimo, uso justo da força e punição funcional são necessários para justiça e discernimento, e a comparação entre leis sinaíticas, corânicas e do Cristo concerne a objetos diferentes, não a contradições.
-
Discernimento dos espíritos e justiça pressupõem julgamento legítimo.
-
A função de juízes e executores é tratada como distinta da paixão pessoal.
-
A confrontação entre legislações é apresentada como comparação de planos diferentes.
-
A divergência sobre moral sexual decorre de definições diferentes do matrimônio, pois semitas e orientais o definem pela união física e sua moldura religiosa, enquanto teólogos cristãos o definem pelo pacto anterior, pelos filhos posteriores e pela fidelidade concomitante, expressando uma tendência ascético-mística que, embora relativa, reaparece em graus diversos e convive com vestígios de alquimia sexual em esoterismos cristãos e islâmicos.
-
O pacto transforma noivos em esposos.
-
Os filhos transformam esposos em pais e educadores religiosos.
-
A fidelidade sustenta a vida e a ordem social.
-
A fórmula atribuída a saint Thomas d’Aquin é citada como indicador de tendência fundamental.
-
A tendência cristã é tratada como fundada em um aspecto real da natureza das coisas.
-
A presença de traços compensatórios é admitida em ambos os climas religiosos.
-
O Cristianismo mantém a alternativa entre carnal e espiritual e exclui o carnal do Paraíso, enquanto o Islã distingue carnal bruto e carnal santificado e admite este no Paraíso, de modo que censurar as houris por sensualidade é tão injusto quanto censurar o Paraíso cristão por abstração, pois ambos operam simbolismos distintos com o mesmo enjeu, sem implicar hostilidade cristã ao corpo como tal.
-
O simbolismo cristão enfatiza oposição entre graus cósmicos.
-
O simbolismo islâmico enfatiza analogia essencial.
-
O Verbe fait chair e a glória do corpo virginal de Marie são invocados contra o maniqueísmo.
-
A objeção de que o Koran teria incluído a Virgem na Trindade é respondida por uma leitura metafísica em que Pai, Filho e Espírito correspondem a Deus em si, Deus manifestado no mundo e Deus manifestado na alma, com correlações cosmo-macro-microcósmicas que aproximam Jesus do macrocosmo e Marie do microcosmo pneumático e explicam associações antigas entre Espírito e a Virgem.
-
O Pai é definido como Deus em si, como metacosmo.
-
O Filho é definido como manifestação no mundo, como macrocosmo.
-
O Espírito é definido como manifestação na alma, como microcosmo.
-
A feminização do Pneuma em textos antigos é citada como apoio.
-
Não haveria ponte a partir da teologia cristã para o Islã nem da teologia judaica para o Cristianismo, pois a legitimação cristã exige mudança de plano para uma dimensão interior supraformal, e isso impede aos cristãos usar contra o Islã a argumentação teológica estrita que rejeitam quando provém dos judeus, impondo ao menos admitir a possibilidade de uma legitimidade islâmica fundada em dimensão nova.
-
A adoração em espírito e verdade é apresentada como núcleo da novidade cristã.
-
A passagem do Judaísmo ao Cristianismo é descrita como extra-teológica, por retorno à interioridade e santidade.
-
A crítica cristã ao Judaísmo menciona a descendência de Jacob e o primado do ato prescrito.
-
O amor de Deus é posto antes do ato prescrito, com introdução necessária de novas formas.
-
A coerência lógica exige reciprocidade no reconhecimento de mudanças de plano.
-
Do ponto de vista islâmico, a limitação do Cristianismo consiste em postular corrupção total pelo pecado e necessidade exclusiva do Cristo, enquanto o Islã afirma a deiformidade inalterável do homem e a necessidade absoluta não de tal revelador, mas da Revelação como tal, reprochando ao Cristianismo definir Deus como trino e não apenas admitir um ternário.
-
O homem participa do Absoluto e por isso pode ser salvo com a ciência revelada necessária.
-
A crítica dirige-se ao Cristianismo, não ao Evangelho, e ao nivelamento da Trindade com a Unidade.
-
Definir Deus como trino implicaria triplicidade do Absoluto ou negação de que Deus seja o Absoluto.
-
A perspectiva cristã ordinária tende a ver a natureza como corrompida e os prazeres sensíveis como justificáveis apenas por necessidades de conservação, enquanto a perspectiva islâmica atribui ao prazer normal e nobre, quando circunscrito pela religião, uma qualidade contemplativa de barakah ligada a arquétipos celestes, propondo complementaridade entre espírito e carne evocada pelo Yin-Yang.
-
O prazer islâmico é enquadrado por limites naturais e religiosos.
-
A barakah é apresentada como benefício para virtude e contemplação.
-
A alternativa carne-espírito é reconhecida como relativamente legítima, mas compensada por manifestações recíprocas.
-
O cristão é associado ao renúncio e sacrifício; o muçulmano, à nobreza e bênção.
-
A gnose é apresentada como abrangendo e transcendendo ambas as atitudes.
-
No plano literal da teologia cristã, o Islã aparece como escândalo, e no plano da lógica rabínica o Cristianismo é análogo, impondo compreender cada Mensagem por sua intenção profunda e reconhecer que fenômenos característicos não são critérios de legitimidade exclusiva, mas funções de um upâya e de um sistema salvífico.
-
A unicidade do Cristo e a salvação por ele são vinculadas à definição cristã como Manifestação divina.
-
No Islã, a ideia do Réel único dispensa mensageiro sobre-humano e admite pluralidade profética.
-
No Judaísmo, o pacto entre Deus e uma sociedade consagrada funda a ideia de povo eleito, com solução do universalismo por formas monoteístas subsequentes.
-
Por não precisar apresentar-se como Manifestação do Absoluto, Mohammed pôde permanecer no estilo semita atento às contingências humanas, enquanto o Cristo, como Manifestação, introduz elemento de simplificação idealista que aproximaria do mundo ariano, e a leitura ocidental de um Absoluto intramundano teria alimentado cosmolatria e a busca de pseudo-absolutos terrestres, ao passo que o Islã maximiza a relatividade do terrestre para afirmar o único Absoluto.
-
A causalidade criada é relativizada pela fórmula de que Deus sozinho faz queimar.
-
A crítica ao Islã por ingenuidade, esterilidade e inércia é atribuída a erro de ótica ligado à absolutização do terrestre.
-
A concepção islâmica do tempo é descrita como rotação em torno de centro imóvel, com reversibilidade condicionada pela vontade divina.
-
A história importa na medida em que retorna à Origem ou converge ao Dernier Jour.
-
O Islã visa combinar sentido do Absoluto com qualidade de Equilíbrio, abrangendo homem coletivo e singular e reconhecendo direitos do normalmente humano diante do Absoluto, enquanto o Cristianismo é caracterizado por dramatismo, senso do Sublime e do Sacrifício e por estender vocação ascética à sociedade inteira, gerando desequilíbrios históricos ambivalentes.
-
O Equilíbrio é apresentado como realização em vista do Absoluto.
-
Vocação de retranchement é admitida como particular.
-
A Igreja latina é mencionada como intensificação do alcance social ascético.
-
Desequilíbrios são descritos como nefastos e providenciais.
-
Segundo o ponto de vista muçulmano, os cristãos teriam cristificado Deus ao tornar inconcebível adorá-lo fora do Homme-Dieu e ao acusar de ignorância de Deus quem o concebe de modo pré-cristão, enquanto o Islã reconhece cultos monoteístas pré-cristãos mas adota exclusividade quanto ao último ciclo, e a evidência dos direitos do Deus-Unidade se refletiria no caráter muito humano da manifestação mohammadiana.
-
Adorar Deus fora de Jésus seria interpretado como inimizade contra Jésus e contra Deus.
-
O culto cristão seria visto como confisco do culto de Deus por uma manifestação exclusiva.
-
A suficência da evidência metafísica torna supérfluo mensageiro sobre-humano.
-
O caráter humano do mensageiro é ligado à preeminência indivisível do Absoluto.
-
Admitindo uma única Consciência infinita como origem das Revelações, especifica-se que o Cristianismo se funda no Prodige salvador e o Islã na Verdade salvadora, de modo que a natividade virginal prova exclusividade cristã no ponto de vista cristão, mas apenas um motivo suficiente de potência divina no ponto de vista muçulmano, e o Islã evita fazer a Verdade depender da surhumanidade do porta-voz.
-
A pureza da Verdade é apresentada como dotada de qualidade salvífica que compensa majestade.
-
A tese islâmica maior é a qualidade salvífica da pura Verdade, juntamente com a Unidade de Deus.
-
Uma jalousie ontológica é evocada como figura da preeminência divina.
-
Os muçulmanos colocam a questão da possibilidade de Deus fazer-se homem sob o prisma da absolutidade, negando que o Absoluto possa tornar-se contingência, enquanto a doutrina trinária e a doutrina hindu dos Avatâras pressupõem princípio já considerado sob aspecto relativo, e o Islã existe para acentuar dogmaticamente a essência e o intemporel no ciclo monoteísta.
-
A oposição Atmâ transcendente excluindo Mâyâ é evocada como contraste.
-
A razão de ser do Islã é definida como mensagem do essencial e do intemporeal.
-
A divergência dogmática é descrita como necessária no ciclo monoteísta apesar de outras perspectivas possíveis.
-
Dogmaticamente, a divergência entre Cristianismo e Islã é irreduzível, mas metafísica e misticamente é relativa como pontos opostos coordenados por um círculo, pois dogmas são coagulações formais de uma luz informelle e toda coagulação implica limitação e exclusão, sendo o Espírito manifestável sem confinamento.
-
A imagem do círculo é usada para explicar complementaridade.
-
A forma dogmática é apresentada como necessária e limitadora.
-
A liberdade do Espírito é evocada pela fórmula Spiritus autem ubi vult spirat.
-
A tese de uma evolução do Soufismo por influências externas é rejeitada ao afirmar-se que as fases crainte, amour e gnose são projeção cíclica normal de virtualidades presentes desde a origem e já contidas na pessoa do Prophète, como atestam o Koran e a Sounna.
-
A ordem de aparecimento aberto do mais elevado é explicada como acentuação tardia, não como progresso essencial.
-
Os três elementos existiriam desde o início como possibilidades e fundamentos.
-
A prova invocada é a presença desses elementos no Koran, na Sounna e no Prophète.
-
Dois movimentos paralelos são descritos, com decadência coletiva ao afastar-se da origem e florescimentos sucessivos ascendentes que tornam explícitas as virtualidades originárias, fenômeno observado também no Bouddhisme e acompanhado por renovadores mujdddid que funcionam como profetas em sentido derivado.
-
As floraisons são apresentadas como desdobramento doutrinal compensatório.
-
O termo mujdddid é associado a função profética secundária.
-
São citados Rabi’ah Adawïyah, Dhün-Nün El Miçri, Niffari, Ghazzalï, Abdel-Qadir El-Jilâni, Ibn Arabi, l’Imam Shadhili e Rümï.
-
A eclosão do amor pressupõe um meio humano moldado pela crainte, e a eclosão da gnose pressupõe um meio impregnado pelo amor, pois a religião forma sua humanidade antes de projetar acentuações espirituais, fenômeno análogo ao desenvolvimento de art sacré e liturgia.
-
O ternaire soufique crainte, amour e connaissance corresponde, no plano do monoteísmo integral, às três religiões semíticas, cada uma contendo os três modos com acentos próprios, com o Cristianismo como perspectiva de amor, o Judaísmo como perspectiva de fé e crainte e o Islã como perspectiva de fé e connaissance.
-
O Cristianismo é associado aos Pères du désert, ao signo da Vierge-Mère medieval e a manifestações de gnose em místicos rhénans, escolástica e teósofos alemães.
-
O Judaísmo é contrastado entre Pentateuque e momentos de amor como Psaumes e Cantique des Cantiques, com Cabalistas florescendo no Moyen Âge.
-
O Judaísmo é descrito como centrado na relação entre Dieu e Israël, com crainte enquadrando amor e connaissance e amor ligado à esperança.
-
O Cristianismo é descrito como centrado na Manifestação divina e redentora, com amor enquadrando crainte e gnose.
-
O Islã é descrito como centrado na Unité divine e suas consequências humanas, com crainte e amour em função da fé.