A Essência, em sua infinitude, “quer” seu próprio raio de ação, que é o mundo em sua totalidade, implicando isso, por definição, o afastamento da Fonte e, indiretamente, a possibilidade do mal; essa Vontade da Essência difere da Vontade do Ser, que, já relativa, opera dentro do mundo e quer o bem como participação das coisas no divino Bem.
-
A vontade do Supra-Ser ou Essência quer o mundo como bem, por ele manifestar o Bem supremo.
-
A vontade do Ser quer o bem como obediência à Lei divina, que faz participar no supremo Bem.
-
As duas Vontades divinas são intrinsecamente idênticas, mas aplicam-se a planos diferentes, o que pode gerar aparência de contradição.
-
O mundo é globalmente bom por manifestar Deus, mas comporta um aspecto de mal em sua tendência a opor-se a Deus e a igualá-Lo, impossibilidade que resulta na impermanência de todos os fenômenos, que sempre retornam ao nada.
-
O mundo, não sendo Deus, tende a opor-se a Ele.
-
A impermanência dos fenômenos é a prova de sua incapacidade de serem o Absoluto.
-
O raciocínio de Epicuro sobre a impossibilidade de uma teodiceia funda-se em equívocos sobre as noções de “mal”, “querer” e “poder”, pois Deus não pode nem quer o que é contrário à sua Natureza, que é Absolutição e Infinitude, e a Onipotência não se exerce sobre o Ser divino, que é sua fonte.
-
O raciocínio epicurista apresenta quatro alternativas sobre a relação de Deus com o mal, todas levando à conclusão de que o mal não deveria existir, embora exista.
-
Deus não pode ter o poder de ser outro que Deus, nem pode querer o que está fora de seu poder.
-
A Onipotência exerce-se em relação ao mundo, não em relação ao Ser divino.
-
A Infinitude divina implica a Possibilidade ilimitada, que por sua vez engendra a Relatividade e a Manifestação, a qual comporta necessariamente a separação do Princípio e, com ela, a possibilidade e necessidade do mal, que, visto sob esse ângulo, deixa de ser mal para ser uma manifestação indireta da Infinitude.
-
A Relatividade comporta por definição o princípio do contraste.
-
Uma qualidade relativa exige, por sua contingência, a existência da manifestação privativa correspondente (defeito, vício, mal).
-
O mal é a possibilidade do impossível, pois o bem relativo é o Possível que se aproxima da impossibilidade.
-
Deus não pode suprimir o mal enquanto possibilidade, pois ele é função de sua Natureza (Infinitude), e, sob esse aspecto, deixa de ser mal; mas a Vontade divina se opõe ao mal enquanto ele é contrário à Natureza divina (Bondade), e, sob esse aspecto, o bem sempre vence, sendo o mal apenas um fragmento e uma passagem.
-
O que Deus não pode, sob pena de contradição, Ele não pode querer.
-
O mal, enquanto oposto à Natureza divina, é intrinsecamente mal e é combatido por Deus, com a vitória final do bem em todos os planos.
-
O fundamento de toda teodiceia deve ser: a Onipotência não se estende à Natureza divina; a Vontade divina é solidária da Potência e não se opõe à Natureza divina, sua fonte; o mal só é tal enquanto oposto à Natureza divina, não enquanto dela resulta indiretamente como instrumento de separatividade, que procede da Toda-Possibilidade e da Infinitude.
-
O raciocínio de Epicuro, adotado por incrédulos e por aqueles hipnotizados pelo mundo “concreto”, é um exemplo de operação lógica impecável com dados insuficientes, ignorando que o mal não é substância e só o é sob certo aspecto, que a Infinitude divina comporta a causa de um desdobramento com elemento de contradição, e que o poder e o querer divinos têm como Sujeito a Natureza divina, não como Objeto.
-
O mal não é absoluto nem substância.
-
A Infinitude divina implica um desdobramento que comporta um elemento de contradição.
-
O poder e o querer divinos são ilimitados em direção à contingência, mas limitados “no topo” pela Absolutição divina.
-
Para os estoicos e para Leibniz, o mal é uma concomitância necessária do bem, pois o mundo é perfeito em sua totalidade, mas as coisas são imperfeitas, e Deus permitiu o mal moral porque sem ele não haveria virtude, argumentação que se funda no princípio do contraste, uma lei interna da relatividade.
-
O princípio do contraste estabelece que o bem, para se atualizar em um nível relativo, necessita de um elemento contrário.
-
Essa visão é comum aos teólogos em geral.
-
Para Platão, o ponto de queda cosmogônico é a matéria, que para os cristãos se torna a “carne” e o prazer, enquanto no Islã e no Judaísmo o mal é o politeísmo, a idolatria e a desobediência, ou seja, a dualidade em sua raiz ontológica.
-
A “matéria” platônica e a “carne” cristã, quando levadas às suas raízes, remetem à Substância e à Beatitude, respectivamente.
-
Para Plotino, o Ser absoluto é a fonte do mal no sentido de que o Ser emanado (princípio criador), ao sair do Supra-Ser, limita-se e assume um aspecto de menor realidade, produzindo indiretamente a privação que constitui a diversidade descendente do mundo.
-
Origênio vê a fonte do mal no mau uso do livre-arbítrio, dado ao homem para que ele não fosse imutável como Deus, mas a objeção de que Deus possui liberdade sem mau uso mostra que a causa do mal não é a liberdade, mas a corruptibilidade, embora o argumento de Origênio indique que a criação implica metafisicamente a imperfeição.
-
O livre-arbítrio foi dado para que o homem não fosse imutável como Deus.
-
A corruptibilidade, e não a liberdade em si, é a causa do mal.
-
A possibilidade de escolha entre a Substância e o acidente funciona como motor da descida cosmogônica.
-
Segundo São Tomás, o mal resulta da diversidade e gradação das criaturas, sendo a compensação do mal a Ordem total; o mal não tem causa no Ser, mas adere ao bem privando-o de uma qualidade, e sua existência é um bem em função da totalidade universal, podendo-se acrescentar que a causa do mal (não enquanto mal) é o inato desejo do Bem de se comunicar.
-
O mal físico é privação de Ser na substância das criaturas; o mal moral é a mesma privação em sua atividade.
-
A tese evita o dualismo maniqueísta, que arruína a noção do Bem supremo.
-
O mal não “é”, mas “existe” como privação.
-
O desejo do Bem de se comunicar produz o mundo, cujo desdobramento exige diferenciação, que acarreta modos de privação de Ser (o mal).
-
Seja qual for o termo usado (matéria, carne, liberdade mal usada), a causa última do mal é a Possibilidade (Shakti, Potência de Atmã), que coincide com a Relatividade e o processo cosmogônico e individualizante, do qual o ego deriva por separação e inversão, manifestando o mal, embora o ego, em si, seja tão inocente quanto a matéria ou a carne em sua pureza existencial.
-
O ego deriva do divino Si de forma direta (participação) e indireta (separação e inversão).
-
Sob o aspecto da separação, o ego manifesta o mal ou o luciferismo.
-
A santidade não exclui necessariamente a matéria, a carne ou o prazer em sua pureza.
-
A exposição do homem ao mal decorre do fato de ele ser obra do Princípio, e não o Princípio, que é o único bom; o mal serve para lembrar que “só Deus é bom”, pois, se o mundo fosse perfeito, ele seria Deus, o que é impossível, e a ideia de que tudo seria perfeito sem sofrimento ou crime é ingênua, dado o estado de decadência do homem médio.
-
A função do mal é lembrar a transcendência divina.
-
O homem, mesmo com comportamento moral correto na “idade sombria”, está longe de representar um puro bem.
-
A maioria das teodiceias negligencia a extrema limitação do mal no espaço e no tempo, dando a impressão de uma simetria entre bem e mal que não existe na realidade, impressão que as escatologias, embora voltadas para o estado atual do homem, podem inadvertidamente reforçar.
-
A teodiceia não deve ser confundida com otimismo ou pessimismo, pois seu ponto de vista é essencialmente objetivo, enquanto o otimismo nega um mal real e o pessimismo nega um bem real.
-
A Potência de propulsão cosmogônica, ao contatar certos planos cósmicos, dá origem ao princípio privativo e subversivo chamado mal, o que levou gnósticos a atribuir ao demiurgo um significado negativo, e o Cristianismo a ver em Lúcifer um anjo decaído, enquanto o Islã especifica que Iblís é um djinn (criado do fogo) para indicar que a potência só se torna negativa ao entrar na substância anímica.
-
Os gnósticos rejeitaram a Potência criadora sobre o demiurgo, dando-lhe significação negativa.
-
O Cristianismo vê em Lúcifer um anjo decaído, referindo-se à Potência de propulsão que se torna tenebrosa no estado anímico.
-
O Islã, ao afirmar que Iblís é um djinn e não um anjo, indica que a potência propulsiva só se torna negativa a partir da entrada na substância anímica ou sutil.
-
A potência propulsora pervertida se personifica em suas relações com o mundo humano, e a ideia de sua reintegração final, embora antropomórfica, tem sentido metafísico ao referir-se à apocatástase, onde o mal será reabsorvido em sua substância original neutra.
-
A personificação da potência maléfica ocorre em suas relações com o mundo humano.
-
A ideia de reintegração final do diabo, presente em algumas correntes do Islã e do Cristianismo, é metafisicamente significativa como referência à apocatástase.
-
O mal será reabsorvido e o fogo e as trevas se transmutarão em luz.
-
A liberdade divina significa que Deus é livre para não criar este ou aquele mundo, mas não para não criar absolutamente, pois a Manifestação resulta necessariamente da Infinidade da Essência, para a qual, no entanto, a questão da Manifestação e do mal não se coloca, pois o acidente jamais acrescenta algo à Substância.
-
A liberdade do Ser (Brahma saguna) exerce-se sobre os modos e formas da Manifestação, não sobre seus princípios imutáveis.
-
Deus pode suprimir tal mal, mas não o mal como tal, que é uma consequência necessária da Manifestação decorrente da Infinidade da Essência.
-
Do ponto de vista da Essência, o “Sonho universal” jamais existiu.
-
O acidente, contudo, pode ser visto como não sendo nada além da Substância ou participando de sua realidade.
-
A argumentação metafísica, por si só, não pode convencer se a certeza que visa despertar não estiver já contida na substância do espírito, sendo impossível que uma demonstração sobre o Invisível e o Transcendente convença a todos como uma demonstração matemática.
-
A certeza metafísica é virtual em alguns, potencial e inoperante em outros.
-
As demonstrações metafísicas não são as causas da certeza, mas seus efeitos.
-
A certeza metafísica, embora subjetiva, é função de uma Realidade independente do espírito.
-
O Intelecto percebe o Bem universal a priori, antes mesmo de compreender a natureza do mal, e o metafísico pode negligenciar a doutrina do mal por estar certo da infinita primazia do Bem, servindo a teodiceia apenas como um “apaziguamento do coração”.
-
O Bem é percebido sob os aspectos de “puro Ser”, “puro Espírito” e “pura Beatitude”.
-
A teodiceia tem uma função secundária para o metafísico contemplativo.
-
O “credo ut intelligam” de Santo Anselmo significa que a fé é uma antecipação da certeza quintessencial por todo o ser, participando já dela, e a palavra sobre “os que não viram e creram” aplica-se a todos os níveis, incluindo o da gnose, onde crer é tirar as consequências do que se sabe e ter a consciência de ser visto por quem não se vê.
-
A fé antecipa a intellection, sem que se possa sempre determinar onde termina a fé elementar e começa o conhecimento direto.
-
A fé, no plano da certeza plenária e intelectiva, é a dimensão de amplitude que torna operativa a consciência especulativa.
-
Muitas precisões doutrinais, como as teodiceias, perdem importância prática diante da intuição da Essência, que permite colocar entre parênteses questões cuja solução se possui em princípio, e o melhor meio de compreender os limites metafísicos do mal é vencê-lo em si mesmo, o que só é possível com base na intuição da divina Essência.
-
Quem sabe que Deus é soberanamente bom sabe que o mal não pode ter a última palavra e tem uma causa compatível com a Bondade divina.
-
A intuição da Essência não resolve dialeticamente o problema do mal, mas o coloca entre parênteses, retirando-lhe o veneno.
-
Aquele que tem a intuição do Absoluto possui o sentido das relações entre a Substância e os acidentes, vendo o fenômeno como bom na medida em que manifesta a Substância ou a resolução do acidental nela, e mau na medida em que manifesta a separação do acidental da Substância, separação que jamais é completa, pois a existência testemunha a Substância.
-
O fenômeno bom manifesta a participação e comunicação do acidente na Substância.
-
O fenômeno mau manifesta a tendência à separação e privação da Substância.
-
A vitória sobre os acidentes da alma, por analogia micro-macrocosmo, é a vitória sobre a acidentalidade privativa e a melhor das teodiceias.