A leitura adequada de um Livro sagrado requer consciência das associações de ideias próprias da língua original, distinguindo-se Escrituras cuja língua é canonicamente insubstituível, como Torá, Corão e Veda, daquelas cujo sentido se comunica por imagens e admite tradução tradicional, como o Evangelho e os Livros budistas.
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A língua original é capital em certas tradições e pode implicar proibição de tradução para uso canônico.
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A Revelação cristã e budista funda-se numa humanização do Divino.
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Nas tradições judaica, islâmica e hindu, a Revelação assume primariamente a forma de Escrituras.
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O Veda precede os Avataras e não depende deles para revelar o Sanatana-Dharma.
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A compreensão detalhada da Torá, do Corão e dos Livros brahmânicos pressupõe conhecimento das associações linguísticas e das proposições implícitas fornecidas pelos comentadores, exigindo ainda discernimento entre simbolismo direto e essencial e simbolismo indireto e acidental.
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O gesto de Jesus elevando os olhos ao céu constitui simbolismo direto da dimensão divina.
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Na parábola do semeador, os pássaros significando o diabo exemplificam simbolismo indireto e provisório.
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O braimento do asno comparado à voz de Satanás indica simbolismo parcial e direto.
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A Lei de Manu apresenta frequentes graus de simbolismo que requerem conhecimento de suas ramificações.
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Certos versículos do Corão e dos Evangelhos contêm repetições ou aparentes redundâncias que se esclarecem à luz do contexto doutrinal e das associações implícitas, como no caso de Abraão, das palavras de Jesus sobre o que se come e se acumula, e da súplica da mesa celeste.
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A menção de Abraão no mundo e no além evita interpretação limitativa.
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A referência cristã aos limbos dos pais e à anterioridade de Jesus contextualiza a precisão islâmica.
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A alusão ao que se come relaciona-se à Eucaristia e ao tesouro no além.
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A ameaça divina aos indignos remete à advertência de saint Paul na Primeira Carta aos Coríntios.
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Outras dificuldades aparentes do Corão, como permissões durante a peregrinação ou repetições relativas ao temor de Deus, são esclarecidas pelos comentadores em referência às circunstâncias históricas, às divisões do tempo e aos graus de aplicação moral.
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A busca de subsistência durante a preregrinação é permitida sem pecado.
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O apagamento do mal anterior à revelação aplica-se aos verdadeiros crentes.
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As repetições remetem ao passado, presente e futuro, e às relações com si mesmo, Deus e o próximo.
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Em circunstâncias excepcionais, princípios intrínsecos podem prevalecer sobre prescrições alimentares.
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A inserção de fórmulas como “Alá é poderoso, sábio” após estipulações legais indica a sobreposição de camadas no Corão, nas quais o fundo imutável reaparece após a menção de contingências temporais.
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A expansão do Islame entre povos não arabófonos explica-se pela manifestação humana e social da religião, enquanto os oulemas desempenham função essencial como depositários das sentenças e significações implícitas do Corão e da Sounna.
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A conversão ocorre por observação da vida dos muçulmanos e de suas práticas.
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A maioria dos muçulmanos não aprecia diretamente as qualidades literárias do Corão.
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Os oulémas conservam e transmitem significações frequentemente sibilinas.
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A interpretação do versículo em que Satanás ataca de frente, de trás, da direita e da esquerda evidencia a limitação do poder satânico e simboliza as dimensões invioláveis da grandeza e da pequenez, articuladas com imagens como a de Lao-Tseu.
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A ausência de referência ao alto e ao baixo indica esferas protegidas.
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A salvação pode derivar da humildade infantil ou da elevação contemplativa.
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O tipo prometéico corresponde ao adulto ambicioso privado dessas qualidades.
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A altura simboliza a Verdade e a profundidade a natureza incorruptível do Ser.
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Nos textos sagrados podem ocorrer antinomias simbólicas ou dialéticas sem contradição real, como nas narrativas divergentes sobre os ladrões nos Evangelhos de São Lucas, São Mateus e São Marcos, cuja chave reside na diferença de ponto de vista.
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Em São Lucas, a oposição entre os ladrões exprime contraste entre bem e mal.
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Em São Mateus e São Marcos, ambos injuriam o Cristo, representando polos do mal na alma.
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O Cristo simboliza o Intelecto e a voz da consciência.
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A primazia do relato de Luc é associada à superioridade da Misericórdia sobre o Rigor segundo fórmula islâmica.
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A necessidade de transpor imagens escriturísticas aos planos metafísico, macrocósmico ou microcósmico é ilustrada por tradições exegéticas presentes em Orígenes, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Cassiano e São Gregório.
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Divergências entre textos sagrados podem assemelhar-se à oposição entre astronomia exata e sistema de Ptolomeu, sendo cada perspectiva sustentada por lógica própria e oportunidade espiritual, como na diferença entre teses cristã e muçulmana sobre o fim terrestre de Jesus.
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A oposição entre o nirvanismo budista e o monoteísmo semítico exemplifica a maior divergência possível no domínio religioso, fundamentando-se respectivamente na impermanência do cosmos e na manifestação ativa do Princípio criador, sem implicar contradição da Palavra celeste universal.
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As aparentes deficiências internas de um Livro sagrado constituem na realidade sínteses ou elipses, não sendo necessário compreender ou sentir como sublime cada passagem para manter respeito sincero e ortodoxia fundada na certeza da perfeição intrínseca da Palavra divina.