O mal se insinua em todas as ordens na medida do possível; o homem é tentado pelos vícios de exterioridade, superficialidade e mundanidade, mas o tormento está também na própria condição humana: o abuso da inteligência, caracterizável pelos termos titanismo, icarismo, babelismo, cientismo, civilizacionismo.
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O corpo humano é uma teofania sobrenaturalmente natural: sendo o homem imago Dei, seu corpo simboliza necessariamente o retorno libertador à origem divina e é, nesse sentido, memória de Deus.
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O animal nobre exprime um aspecto da majestade divina, mas não manifesta o retorno libertador da forma à essência — permanece na forma, daí sua horizontalidade.
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O corpo humano é vertical e sacramental, masculino ou feminino: a diferença dos sexos marca uma complementaridade de modo, não uma divergência de princípio.
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A nudez sacral — como na Índia — exprime a exteriorização do mais interior e a interiorização do mais exterior; Lallâ Yogîshwarî é citada: e é por isso que, nua, eu danço.
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Objeções à deiformidade física do homem baseadas no fato de que Deus não tem face anterior nem posterior e não pode caminhar são refutadas pela compreensão de que os níveis incomensuráveis dos pontos de comparação não abolem a analogia nem o simbolismo.
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A face posterior é Mâyâ enquanto separa o Ser do Sobre-Ser; a face anterior é o Ser enquanto concebe as possibilidades a projetar; a marcha de Deus é essa projeção mesma.
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A marcha divina em e por Mâyâ é um sonho da Divindade, que permanece única e imutável; somente para as criaturas esse sonho é uma exteriorização, uma creatio ex nihilo.
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Não há virtude que não derive de Deus e que Ele não possua, o que coloca a questão paradoxal de saber se Deus possui a virtude de humildade.
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A resposta é que o Deus pessoal não se opõe em nada à Divindade suprapessoal; o Ser não pode contradizer o Sobre-Ser; o Deus-Pessoa é submetido à sua própria Essência.
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Assim como o Deus pessoal é em certo sentido humilde perante a Divindade suprapessoal, o homem deve se mostrar humilde perante seu próprio coração-intelecto, a parcela divina imanente.
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O orgulhoso peca contra sua própria essência imortal, tanto quanto contra Deus e os homens.
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Afirmar que Deus está além da oposição entre o bem e o mal significa que Deus vê as coisas sob todos os aspectos que as concernem, de modo que o mal não é para Deus senão um aspecto fragmentário, provisório e extrínseco de um bem que o compensa e finalmente o aniquila.
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A afirmação sufi de que Deus não precisa de amar é malsoante por causa da ambiguidade do termo Deus, que se aplica a priori à Divindade personificada, enquanto a opinião mencionada concerne à Divindade suprapessoal.
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Para o Sobre-Ser, os homens não existem; é apenas enquanto Ser que o Absoluto concebe a existência humana.
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O grande ecúlho das teologias monoteístas é a confusão de fato dos dois níveis.
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A perspectiva divina sobre o mal deve se repetir na alma humana, e é a primeira condição da via de retorno.
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O homem ascendente não perde jamais de vista o ponto de referência categoricamente imperativo que é Deus: vê as coisas em seu contexto divino não por esforço acidental, mas por uma disposição profunda do coração.
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Disso resultam para o homem todas as qualidades que dão sentido à vida: humildade e caridade, resignação à vontade do Céu e confiança na Misericórdia.
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A humildade e a caridade — bem compreendidas e aplicadas — são critérios de sinceridade para o discernimento metafísico e para a união mística.
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A alquimia espiritual do homem comporta duas dimensões: doutrina e método, ou verdade e via.
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A verdade aparece como a palavra divina — uma descida; a via, como a resposta humana — uma subida.
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Atmâ tornou-se Mâyâ a fim de que Mâyâ se tornasse Atmâ: a razão é que a Toda-Possibilidade implica a possibilidade para Deus de ser conhecido de fora e a partir de outro que ele.
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A projeção cosmogônica afasta de Deus, mas no sentido de uma felix culpa; a Bíblia o atesta: E Deus viu que isso era bom; em linguagem budista: Que todos os seres sejam felizes.
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Além dos ciclos da existência, a última palavra é da Beatitude, que coincide com o Ser e portanto com a essência de tudo o que é.