Há uma humildade, uma caridade e uma sinceridade que relevam da hipocrisia, portanto do satanismo: a humildade igualitária e demagógica, a caridade humanista e amarga no fundo, e a sinceridade cínica.
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Há falsas virtudes cujo motivo é no fundo demonstrar a si mesmo que não se precisa de Deus; o pecado de orgulho consiste em crer que as virtudes são propriedade nossa e não dom do Céu.
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Ser sincero e ter boa intenção significa, entre outras coisas, dar-se o trabalho de refletir e eventualmente de se informar, sobretudo em matéria grave.
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As religiões e as sabedorias tradicionais são valores naturais — de forma sobrenatural — como o ar que se respira; não reconhecer o imperativo categórico dessa ecologia espiritual é atitude tão autodestrutiva quanto irrealista.
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Nos dois polos da via contemplativa — a concentração mental e a intenção do coração —, a intenção prima a concentração: vale mais ter a intenção apropriada sem saber bem se concentrar do que saber se concentrar sem se importar com a boa intenção.
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Deus escuta a intenção mesmo do incapaz, mas não pode aceitar a perfeição técnica do ambicioso e do hipócrita.
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Sob outro aspecto, a qualidade da concentração é função da intenção precisamente.
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O abuso da noção de traumatismo em clima de narcisismo psicanalítico merece exame: o homem só pode ser legitimamente traumatizado por monstruosidades; quem é traumatizado por menos do que isso é ele mesmo um monstro.
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Um traumatismo não tem o direito de ser absoluto; está aí para ser vencido e posto a serviço da razão de ser da vida.
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Muitos santos tinham razões para ser traumatizados, mas aceitaram as injustiças pelo amor de Deus.
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É natural que um povo possa ser coletivamente traumatizado sem que isso implique todo indivíduo; a alma coletiva é passiva e não pode ter nem inteligência homogênea nem vontade livre precisa — razão a mais para não se deixar dominar por um psiquismo coletivo.
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Para o sincerismo em voga, o segredo é coisa detestável; mas o homem tem um direito natural ao segredo: pode não mostrar um sentimento que só lhe diz respeito, e a fortiori uma graça espiritual.
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A sinceridade consiste menos em se mostrar em tudo como se é do que em não querer parecer mais do que se é.
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Para a mentalidade moderna, sinceridade é vulgaridade e vice-versa — o que pressupõe que o homem é normalmente vulgar; assim a vulgaridade tornou-se quase oficial.
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A dignidade deriva da piedade, do temor e do amor; mesmo o pecador tem direito à dignidade visível, pois é homem feito à imagem de Deus.
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O homem de natureza aristocrática — independentemente de classes sociais — é aquele que se domina e gosta de se dominar; o plebeu de natureza é ao contrário quem não se domina e não quer fazê-lo.
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A intenção comporta essencialmente duas dimensões: primeiro, o bem deve ser feito; segundo, deve ser bem feito.
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Realizar um bem implica igualmente realizá-lo bem: a execução deve estar à altura da ideia, o que exige tanto a sinceridade quanto a lógica.
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Quanto à acentuação da intenção ou da ação: um legalismo excessivo verá na ação correta uma garantia de mérito; uma mística unitiva verá nas observâncias exteriores um formalismo secundário ou supérfluo.
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Em princípio, a segunda atitude supera a primeira porque o interior prima o exterior — mas nesse caso trata-se de uma intenção intrínseca que se basta a si mesma e engloba concretamente as possibilidades de ação meritória.
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Do ponto de vista do Cristo, a observância de uma prescrição só se impõe sob a dupla condição de que a prescrição expresse adequadamente sua razão de ser e de que o homem, agindo, realize essa razão de ser em sua alma: Tua Lei está no mais profundo do meu coração.