O concretismo filosófico, realismo às avessas, sempre foi uma tentação do espírito humano que esquece sua verdadeira natureza, e resulta do concretismo ingênuo da experiência sensorial, o qual se constitui em doutrina universal e totalitária.
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O concretismo sensorial resulta não tanto da sensação em si quanto da separação — causada pela queda original — das realidades invisíveis, tornadas então noções mitológicas e objetos de fé.
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O homem decaído pode ser reduzido à experiência sensorial e à razão que a registra e coordena, e tirar daí toda a sua falaz sabedoria; situação natural se se quiser, mas anormal, pois o homem decaído tem outros recursos de conhecimento além da sensação e do raciocínio.
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Na Índia antiga, os Charvakas rejeitavam a Revelação e toda realidade suprassensível; os Ajivikas admitiam uma fatalidade absoluta e cega, sem saída para um Absoluto libertador.
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Rama teve de refutar o materialismo de Jabali; Krishna refuta o materialismo em geral na Bhagavadgita; o
Buda rejeita o fatalismo naturalista de Goshala.
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Na Índia, essas aberrações nunca puderam se impor e foram eliminadas por uma poderosa ortodoxia; na Grécia, afirmaram-se com mais facilidade e nocividade, favorecidas por uma mentalidade profana quase generalizada que os concretistas modernos tomam por uma das glórias da herança clássica.
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Antes de Epicuro, Protágoras e Pirro, o concretismo já existia no mundo antigo.
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As percepções metafísicas mais diretas e evidentes são convencionalmente chamadas de “especulações abstratas”, mas o Intelecto é em si infalível, e a intelecção pura é uma Revelação subjetiva e imanente, assim como a Revelação propriamente dita é uma Intelecção objetiva e transcendente.
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A intelecção é garantida na medida em que o Intelecto pode operar sem entraves, o que pressupõe condições não apenas intelectuais, mas também morais no sentido profundo — relativas às virtudes, não apenas aos comportamentos sociais.
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A prova da realidade do Intelecto não pode ser dada a todo entendimento, assim como não se pode provar a validade de uma religião a toda alma; essa impossibilidade não infirma a validade.
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Toda prova é relativa por definição; uma prova absoluta seria a própria coisa a provar.
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A prova da verdade do invisível é a reminiscência que a expressão dessa verdade atualiza nos espíritos que permaneceram conformes à sua vocação original.
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A função iluminativa cabe ao argumento metafísico, ao símbolo e ao milagre, conforme os modos ou imponderáveis da inteligência ou da alma.
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Comunicar a Intelecção ao espírito receptivo é lembrá-lo do que ele é e, ao mesmo tempo, do que é o Ser pelo qual ele existe.
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O conhecimento do Absoluto é absoluto — “absolutamente absoluto” para distingui-lo do “relativamente absoluto” —, pois o conhecimento do relativo não pode ser absolutamente relativo, o que equivaleria ao nada, sendo portanto necessariamente “relativamente absoluto” por participação no Conhecimento Uno.