A oração, no sentido habitual, parece implicar um ponto de vista antropomórfico e sentimental, mas essa aparência é ilusória, pois é legítimo e necessário conceber a Divindade sob um aspecto mais ou menos personificado, e o sentimento é um fato psíquico normal suscetível de papel positivo na espiritualidade.
-
A oração não implica, por definição, a concepção de um Deus arbitrariamente humanizado e despojado de Sua transcendência infinita.
-
O fato de o homem em oração fazer participar todas as suas faculdades interiores, incluindo a sentimentalidade natural, não significa que o sentimento deva se pôr como fim em si mesmo.
-
A oração tem sua razão de ser na existência do eu humano, que deve ser canalizado para sua última razão suficiente; o indivíduo, enquanto tal, nunca cessa de ser eu, e a oração é o ato espiritual do eu.
-
Na meditação metafísica, ao contrário, o homem se situa simbolicamente no ponto de vista da natureza das coisas.
-
A oração deve permanecer, em todos os casos, uma conversação com Deus ou um apelo dirigido a Ele; só sendo plenamente o que é em sua possibilidade mais imediata pode servir de suporte a intelecções que ultrapassem o plano individual.
-
A oração não pode ser substituída pela meditação impessoal e abstrata, pois esta tem outro fim imediato; mas a meditação pode ser integrada à oração segundo modos apropriados.
-
A oposição entre razão e sentimento não deve ser invocada a todo propósito, pois a própria razão, tão logo se trata de conhecimento efetivo, torna-se obstáculo, sendo apenas o reflexo mais direto do Intelecto, que está além das contingências cerebrais.
-
O Intelecto, sendo de essência universal, penetra necessariamente todo o ser e engloba todos os seus elementos constitutivos, e a Conhecimento espiritual põe em jogo tudo o que somos, incluindo os elementos psíquicos e físicos, pois nada de positivo pode ser excluído do processo de transmutação.
-
A razão é o espelho central do Intelecto cujo órgão é o coração sutil, mas as demais faculdades são igualmente planos de manifestação para o Intelecto.
-
As faculdades ou energias psíquicas devem ser determinadas e canalizadas pela mesma Ideia diretriz que determina e transforma o pensamento, o que exige situar-se no próprio terreno dessas faculdades.
-
O homem deve transpor para um plano superior todas as reações positivas que a realidade circundante provoca nele, lembrando-se, através das coisas sensíveis, das Realidades divinas; é preciso humanizar as coisas espirituais e espiritualizar as coisas humanas.
-
O homem que negligencia integrar seus elementos psíquicos à sua atitude espiritual não os elimina, mas os deixa errar livremente em contradição com suas concepções teóricas, ou os reprime no subconsciente como obstáculos latentes.
-
Para toda realização espiritual, o homem não pode estar fixado numa porção restrita de seu eu; todas as suas possibilidades devem ser despertadas, recapituladas e canalizadas conforme suas respectivas naturezas.
-
Não é possível abrir a inteligência ao Divino sem enobrecer o ser psíquico e mesmo físico; não há espiritualidade sem grandeza e sem beleza.
-
O exemplo da possibilidade psicológica da infância ilustra a necessidade de integração e não de simples supressão: a virilidade é sempre aspecto de um equilíbrio, e o homem que é adulto à exclusão de todo elemento infantil o é imperfeitamente e por incapacidade.
-
A possibilidade da infância, quando não chega ao término de seu florescimento normal por efeito da educação escolar, subsiste comprimida durante o desenvolvimento ulterior, gerando desequilíbrio psíquico.
-
O indivíduo deve gozar em toda idade de tudo o que as idades precedentes comportam de positivo, reagindo aos eventos em pleno equilíbrio, unindo por exemplo a espontaneidade da juventude à ponderação da maturidade.
-
A razão é de substância demasiado abstrata para representar sozinha o eu, e por isso o sentimento e o desejo devem ser transmutados pela Ideia, distinguindo-se claramente a faculdade psíquica como tal de seus conteúdos possíveis.
-
A Ideia nega o sentimento e o desejo como fatores de individuação, mas não nega os conteúdos positivos e simbólicos desses fatores, que traduzem a Ideia à sua maneira e são necessários ao equilíbrio psíquico e físico.
-
O sentimento é mais distante da inteligência pura do que a razão, mas, pelo rapport de inversão entre continente e conteúdo, os impulsos naturais do sentimento são menos prejudiciais à intelectualidade do que as concepções racionais tomadas ao pé da letra.
-
É por isso que o esoterismo muçulmano pode usar poesia e música, enquanto o Islam exotérico tende a proscrever essas artes; e os hereges racionalistas do Islam, que negam todo esoterismo, negam o sentimento precisamente no plano em que ele é mais aparente e menos perigoso.
-
O erro que atribui aos ocidentais modernos um frio realismo e aos orientais uma mentalidade sentimental é da mesma ordem: a sentimentalidade moderna se dissimula nas concepções fundamentais, e a aparente secura que a compensa não sai do quadro da sentimentalidade.
-
No homem espiritual, nenhuma faculdade normal está ausente, mas toda a vida psíquica é como iluminada pelos olhos do Intelecto; a sentimentalidade é intelectual, enquanto no homem ordinário o inverso ocorre.
-
A conformidade psíquica fundada no simbolismo do sentimento ou do desejo só é possível com uma conformidade racional, ou seja, um conhecimento teórico suficiente, e uma conformidade da ação, pois os elementos mais individuais dependem substantivamente do mundo físico.
-
Pela Ideia, as emoções naturais são reduzidas às proporções correspondentes ao equilíbrio psíquico e dotadas de uma essência espiritual.
-
Pela ação simbólica tornada ritual, as emoções recebem uma nova substância.
-
A Ideia da Unidade dissolve o sentimento enquanto fator de individuação, mas as energias de base sentimental, que devem subsistir enquanto subsiste o eu, modelam-se sobre a Unidade e traduzem conscientemente seus aspectos.
-
A ação participa da Unidade limitando-se aos atos necessários e retratando um aspecto da Unidade no domínio da mudança; o ritmo e o equilíbrio da atividade espiritualizada dão à vida psíquica uma substância nova.
-
Para o homem enquanto tal, é mais lógico falar a Deus e viver de Seu Verbo do que falar a indivíduos ou alimentar-se de alimentos, pois Deus possui uma realidade incomensurável em relação à realidade circundante, sendo a Causa infinita de todo bem e a Essência infinita de todo alimento.
-
Deus se revela sob um aspecto mais ou menos humano ao entrar em contato com o homem, pois sem isso nenhum ponto de encontro seria possível entre Deus e o indivíduo; mas esse aspecto humano não pertence à Divindade em Si mesma, como a cor não pertence à Luz divina.
-
Deus escuta as orações e a elas responde sem sofrer em Si mesmo qualquer modificação.
-
As orações expressam o nada do homem e seu falta de plenitude, manifestações de um vazio relativo; as respostas divinas são efeitos da Plenitude absoluta.
-
Antes que as orações fossem formuladas, as respostas divinas já estavam na eternidade; Deus é para o homem a Resposta eterna e onipresente, e a oração não tem outra função senão eliminar o que nos separa dessa Resposta infinita.