O pecado original cristão é, em seu sentido esotérico, a tendência fundamental do homem caído para a ilusão, compensada e virtualmente abolida pelo batismo, que constitui uma iniciação e ultrapassa o plano moral; o Islã, que não conhece pecado original nem batismo no exoterismo, possui os equivalentes em seu esoterismo.
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A ideia da imaculada conceição, solidária à do pecado original, motivou a prudência da teologia grega em não cristalizar no plano da doutrina exterior uma verdade relativa à delicada questão da divindade humana.
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Se o dogma católico da imaculada conceição significa que a Virgem é a criatura perfeita, a ausência desse dogma nos gregos significa em última análise que só Deus é bom, segundo a fórmula do Evangelho.
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A ignorância que é condição fundamental da transgressão não é simples ignorância teórica, mas ignorância efetiva com raiz no coração, chamada com extrema justeza pelas Escrituras monoteístas de endurecimento do coração, e se manifesta segundo três modos principais: a tolice, a fraqueza e a maldade.
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A tolice é a privação da Sabedoria divina: incapacidade de discernir o essencial do acessório, apego aos fatos isolados sem indução.
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A fraqueza é a privação da Potência divina: abandono às ilusões e às aparências, falta de homogeneidade interior e de resistência.
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A maldade é a privação da Misericórdia ou Beleza divinas: tendência expressamente limitativa, negativa e destrutiva, abstração inversa à da inteligência; é a não-conformidade mais grave por ser eminentemente ativa e consciente.
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Antes de transgredir, o homem se engana a si mesmo: o tolo dissolve seu discernimento numa torpor; o fraco o abandona diante da ilusão; o mau o rompe com violência.
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Toda transgressão expressa no agente a falta de uma qualidade positiva referida a um aspecto divino, e essa falta corresponde a um centro cósmico de natureza luciferiana ou satânica que é a fonte direta da qualidade negativa; o vício vive pela comunicação regular com esse centro obscuro, que atrai e envolve o ser em estado de transgressão.
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Toda infração é por definição um precedente e estabelece um contato com um centro tenebroso.
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Os ritos de purificação têm precisamente o efeito de romper tais contatos e restabelecer a comunicação com o aspecto divino que a transgressão negou.
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A transgressão reflete necessariamente uma realidade universal, repetindo analogicamente no domínio da ação humana o processo da manifestação universal enquanto oposição demiúrgica em relação ao Princípio imutável; e a transgressão por omissão não reflete esse processo, mas apenas a irrealidade da manifestação.
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O justo peca sete vezes por dia não no sentido moral comum, mas porque é impossível agir sempre da melhor forma possível, pois o espírito humano é incapaz de fixar sua atenção simultaneamente em todos os aspectos de uma realidade; a imperfeição da ação humana é condicionada pelas vicissitudes do criado.
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Certas Escrituras atribuem pecados mesmo aos Profetas ou Homens-Deus; outras, encarando o pecado em seu sentido próprio, afirmam ao contrário a impecabilidade desses seres.
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Não pode haver qualidade pura na manifestação; uma manifestação puramente qualitativa é uma contradição nos termos.
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Só a Conhecimento intelectual pode aperfeiçoar a virtude, pois é participação direta nas Perfeições divinas, únicas capazes de dar às virtudes humanas seu sentido positivo e sua razão suficiente.
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O Homem-Deus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e sua individualidade, embora real enquanto tal, é de outra essência do que a do homem ordinário, em razão da penetração íntima de todas as suas modalidades pelo Universal.
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O indivíduo humano como tal comporta necessariamente os atributos limitativos que o definem, sem os quais não seria um indivíduo humano; isso vale também para o Homem-Deus.
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A terminologia psicológica ordinária aplicada ao Homem-Deus tem apenas valor analógico e aproximativo, pois há diferença eminente e essencial entre o psiquismo do pecador e o do homem deificado.
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É mais exato dizer do homem divino que ele tem uma individualidade do que dizer que ele é um indivíduo; a substância mesma da individualidade é nele transmutada pela Presença real.
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A palavra evangélica Deus só é bom concerne à individualidade enquanto tal, não enquanto penetrada e determinada pelo Universal, e de nenhuma forma concerne ao estado de Identidade suprema do Homem-Deus.
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Os ritos purificatórios neutralizam os efeitos do pecado em relação ao agente e abrem o caminho para a eliminação da causa mesma, operando a reintegração virtual no estado edênico; mas a extirpação da raiz do pecado exige uma ajuda mais positiva, seja sob a forma de influência espiritual, seja sob a de um meio que atualize a Presença divina interior.
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O primeiro caso é o da comunhão cristã; o segundo é o da oração dominical ou, no Islã, da oração ritual.
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Esses meios espirituais exigem do indivíduo a intenção reta e o esforço que a traduz em atos.
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A ablução muçulmana e a confissão cristã preparam e condicionam respectivamente a oração e a comunhão; na ablução, a água produz um contato com a pureza edênica pela analogia paralela e pelas repercussões do sensível ao espiritual.
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Os outros elementos além da água podem servir de suporte ritual pelo mesmo motivo: o areia substitui a água na ablução muçulmana em certas circunstâncias, as práticas respiratórias do hatha-yoga, e a purificação pelo fogo na incineração hindu.
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A respiração, ato vital principal, purifica o sangue e põe o homem em contato rítmico com o ar e, por transposição analógica, com a pureza do Espírito; por isso a respiração está intimamente ligada à meditação no Hesicasmo e nos métodos orientais.
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A transgressão é essencialmente a não-conformidade da ação, e como só o Conhecimento pode libertar dos laços da ação, só ele pode eliminar definitivamente a possibilidade mesma da transgressão, conforme a Bhagavadgita (IV, 36-38), que afirma que o fogo do Conhecimento consome todas as ações e que não há água lustral semelhante ao Conhecimento.