David, nos Salmos, manifesta o diálogo entre a criatura e o Criador em todos os seus aspectos (angústia, confiança, resignação, certeza, gratidão), abrindo a via da oração e, indiretamente, um caminho para a gnose, permanecendo sempre no ponto de vista humano.
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Jesus é “filho de David” e Maria pode ser dita “filha” do Rei-Profeta.
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Ser profeta é abrir uma via; David abriu a da oração.
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David manifestou em modo concreto e humano a reciprocidade entre Mâyâ e Atmâ.
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Os Salmos, por serem inspirados pelo Espírito divino, contêm implicitamente toda a sabedoria e também passagens com significações esotéricas diretas, como o Salmo primeiro sobre a meditação dia e noite na Lei do Senhor, referindo-se respectivamente à verdade literal e à verdade esotérica.
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O Salmo 139 expressa a oniciência divina e a incapacidade humana de a ela escapar.
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“Murmurar a Lei dia e noite” significa meditar (contemplação), com dois modos: o “dia” (verdade literal) e a “noite” (verdade esotérica).
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Salomão representa mais diretamente o esoterismo no mundo bíblico, sendo David e Salomão dois polos inseparáveis da mesma Revelação: David é o construtor de Jerusalém (o corpo), Salomão o construtor do Templo (o coração).
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Salomão construiu também santuários para divindades estrangeiras, entrando em conflito com a forma mosaica, mas não com a Verdade informal.
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Os três Livros de Salomão representam uma ascensão espiritual, com o Cântico dos Cânticos como o cume ou o coração.
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Para os Semitas, antes do contacto com os Gregos, a metafísica era em grande parte inexprimível, não por não ser concebida, mas pela ênfase na transcendência e no temor de Deus, que impunha a interdição de pronunciar o Nome supremo e a reticência em articular os mistérios divinos.
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Shankara exprime sem véu a distinção entre Atmâ e Mâyâ, deixando o exoterismo e o legalismo para outros; seu mensagem, embora possa parecer parcial em relação ao sistema hindu total, é perfeito e autossuficiente como o ponto que não precisa englobar a periferia.
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Shankara é profeta, não fundador de religião; seu mensagem supõe um quadro preexistente.
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Râmânuja é o complemento quase exotérico de Shankara.
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Os discípulos de Shankara adoram e invocam divindades, pois sabem que não se pode ultrapassar Mâyâ sem a graça de uma divindade nela incluída.
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O fenômeno shankariense é quase único pelo seu caráter direto, rigoroso, explícito e integral, trazendo ao mundo o grande mensagem da Intelecção, tal como os Profetas semitas trouxeram o da Fé.
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A mensagem de Shankara condensa-se em: “Brahma só é real; o mundo é ilusão (Mâyâ); a alma não é nada mais que Brahma”.
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As Upanishads e Bâdarâyana já haviam formulado o mistério, mas Shankara oferece uma cristalização particularmente precisa, completa, perfeita e fecunda.
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A afirmação de que o advaitismo shankariense provém do budismo mahayanico é improcedente, pois, embora haja um paralelismo entre o imanentismo metateísta de ambos, os pontos de partida são totalmente diferentes: o hinduísmo parte do reflexo do Si que é o eu, enquanto o budismo parte do Samsara como mundo de sofrimento, concebendo o vazio de modo negativo.
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As invectivas de Shankara contra o Buda devem-se à sua função de “interpretação simbolista autodefensiva”, protegendo o meio vital do Advaïta-Vedânta contra a invasão budista, e não à sua missão de dar conta da validade intrínseca do Budismo, que não concernia o mundo hindu.
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Shankara não fazia “ciência das religiões”.
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No plano da metafísica pura, Shankara foi uma das autoridades mais eminentes, de envergadura profética e infalível.
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Hônen Shônin, tal como Shankara, não fundou a perspectiva que personificou, mas foi seu representante mais explícito e incisivo, sendo o sétimo e último patriarca da escola devocional do Budismo, encarnando a Fé e a Invocação, ou a via da facilidade e da Graça.
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O equivalente budista de David ou Shankara seria Nâgârjuna.
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A via de Hônen coincide com a do “Peregrino russo”, com o japa-yoga hindu e com a prapatti dos vixnuítas.
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A via é tecnicamente fácil, mas a perseverança concreta é difícil, pois exige morrer ao mundo e a si mesmo.
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A ideia fundamental da via de Amitâbha (Amida) coincide com a palavra de Cristo sobre o que é impossível aos homens, mas possível a Deus, sendo a perspectiva do “poder do outro” (tariki) em oposição ao “poder de si mesmo” (jiriki), onde o homem adota uma fé combinada com um suporte divino e sacramental que opera a salvação.
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A alternativa abrupta entre jiriki e tariki é mais teórica que prática; na realidade, há equilíbrio e complementaridade, como no símbolo yin-yang.
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Shinran acentuou exclusivamente o tariki, mas a colaboração pessoal do homem (jiriki) na fé é um critério de realidade concreta e garantia de eficácia.
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A fé semita ou abraâmica é a aceitação fervorosa do invisível todo-poderoso e a submissão à sua Lei, enquanto a fé amidista é a confiança na Vontade salvífica de um Buda específico, ligada à prática da invocação do seu Nome.
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As três vias (Oração, Discernimento metafísico, Confiança salvífica) podem combinar-se porque a subjetividade humana comporta diferentes setores: a Oração e a Confiança pertencem ao setor da alma sensível, enquanto o Discernimento pertence ao da pura inteligência, o que permite a simultaneidade de abordagens paralelas, como exemplificado pela piedade lírica de Shankara.