* Uma doutrina merece ser chamada de sentimental não por usar simbolismo dos sentimentos ou linguagem emotiva, mas porque seu próprio ponto de partida é determinado pela sentimentalidade.
Uma teoria ilusória, de inspiração passional em seu axioma, pode afetar tom racional e desdobrar lógica impecável a partir de seu erro de base.
O caráter acéfalo dessa lógica não escapa a quem sabe que a lógica só tem sentido em virtude da justeza — física ou metafísica — de seu fundamento.
O kantismo, aparentemente a mais intelectual e menos emotiva das doutrinas, tem como ponto de partida uma reação gratuita contra tudo o que a razão não pode alcançar.
O que é decisivo no kantismo não é sua lógica pro domo, mas seu desejo irracional de limitar a inteligência.
O resultado é uma desumanização da inteligência e a abertura para todas as aberrações inumanas do século.
Se o homem é a possibilidade de se superar intelectualmente, o kantismo é a negação do humano real e integral.
Os kantianos, não compreendendo a metafísica dogmática, recusam-se a notar a enorme desproporção entre a grandeza intelectual e humana dos metafísicos e as ilusões que lhes atribuem.
Enquanto o metafísico quer retornar à primeira palavra — a da Intelecção primordial —, o filósofo moderno quer ter a última palavra.
Comte imagina que após dois estágios inferiores — a teologia e a metafísica — vem o estágio positivo ou científico, que se limita gloriosamente às experiências mais exteriores e grosseiras.
O positivismo de Comte, como o criticismo de Kant, parte de um instinto sentimental: destruir tudo para renovar no sentido de um mundo dessacralizado, totalmente humanista e profano.
A indignação contra abusos arrasta a rejeição dos princípios positivos que esses abusos falsificam, e quando a reação sentimental se codifica filosoficamente, ela perverte e empobrece a imaginação.
O erro cria os bastidores de que precisa para se sentir à vontade: o mundo torna-se cada vez mais um sistema de bastidores destinados a limitar a faculdade imaginativa e impor a convicção de que essa é a única realidade.
No século XIX, tentava-se criar um universo onde só haveria o homem; hoje, a iniciativa escapou ao homem, que desliza para um pseudo-universo onde apenas a máquina é real.
O homem que se atribui sua própria razão suficiente não pode permanecer o que é: se não acredita no que o supera e não situa seu ideal acima de si mesmo, condena-se ao inumano.
A máquina tende a fazer do homem o que ela é — brusco, brutal, vulgar, quantitativo e estúpido —, o que explica em parte o sincerismo e a mística do engajamento.
Ser sincero porque a máquina não tem mistério; ser engajado porque a máquina só tem valor por suas produções e devora o homem e o humano.
Abster-se de complacência em arte e literatura porque a máquina não a tem, e sua feiura, barulho e implacabilidade se confundem, no espírito de seus escravos, com a realidade.
A ideologia democrática e antiteocrática, fundada por reação contra abusos em um desejo de liberdade ao qual se empresta caráter desmesurado, pode se desdobrar sem inconsequência dialética e dar impressão de perfeita objetividade.
Os homens que ignoram as razões profundas das situações terrestres se deixam convencer pela afirmação violenta de uma causa parcialmente legítima sem se perguntar se a ideologia agregada é verdadeira ou falsa.
Uma verdade parcial torna-se falsa quando separada de seu contexto total e dotada artificialmente de alcance quase incondicional.
A liberdade exterior das criaturas é relativa e condicional, e o que a tradição busca realizar é um equilíbrio entre a liberdade individual terrestre e as chances de salvação celeste.
Uma liberdade desproporcional às possibilidades individuais e comprometedora das chances de salvação não é mais desejável do que uma privação de liberdade que não as comprometa.
É normal que males legítimos ou inevitáveis possam ferir a sensibilidade dos homens de bem; é anormal e ilegítimo que os homens tirem de sua sensibilidade conclusões errôneas.
A experiência da falsa liberdade que se apresenta como fim em si mesma mal começou, embora o mundo já tenha colhido frutos amargos.
Tudo o que ainda é humano, normal e estável no mundo sobrevive pela seiva de tradições ancestrais, sejam do Ocidente cristão sejam de tribos nilóticas ou amazônicas.
Se se retiram do homem as marcas profundas e subconscientes da tradição, restam apenas os estigmas da queda e o desencadeamento do infra-humano.
A democracia logicamente se opõe à tirania, mas na prática conduz a ela, pois sendo sua reação sentimental, não é mais do que um extremo que chama fatalmente outro extremo e uma nova reação autoritária.
Em democracia, é verdadeiro o que a maioria acredita; ela cria praticamente a verdade e porta em si os germes de seu próprio suicídio.
A autoridade vive à mercê dos eleitores, tornando impossível governar realmente; as campanhas eleitorais provam que os aspirantes ao poder devem enganar os eleitores por meios grosseiros e estúpidos.
Uma democracia possível exigiria coletividades restritas — sobretudo nômades — e seria interiormente aristocrática e teocrática, não igualitarismo laico imposto a grandes povos sedentários.
Pode ocorrer que um homem ou uma minoria seja inteligente e competente, mas que a maioria o seja é impossível.
O adágio vox populi vox Dei só tem sentido na presença de um quadro religioso que confere às multidões uma função de médium: elas se exprimem então por intuição e sob influência do Céu, não por reflexão.
O povo como portador coletivo da religião tem caráter positivo e instintivamente tem razão contra as exceções doentias e ímpias; seu fanatismo, apesar dos abusos, representa uma força centrípeta e reguladora.
O povo tem dois significados: a maioria distinta das elites, ou a coletividade total que as inclui; neste último sentido, as elites cavalheiresca e sacerdotal são expressão do gênio popular.
A exigência de que todo homem pense por si mesmo não é conforme à natureza humana, pois o homem normal e virtuoso reconhece os limites de sua competência.
O homem excepcionalmente dotado não pode ser impedido de pensar de modo original, e o fará em acordo com a tradição, pois sua inteligência lhe permite captar a necessidade desse acordo.
O homem de inteligência média ou medíocre deve remeter-se aos juízos dos mais competentes, o que é a coisa mais inteligente a fazer em seu caso.
Individualizar intelectualmente o homem, desapegando-o da hierarquia intelectual, viola sua natureza e equivale praticamente à abolição da inteligência e das virtudes sem as quais o entendimento real não se atualiza plenamente.
A obsessão demagógica do social é uma variante muito atual do sentimentalismo ideológico, difundida inclusive entre os crentes.
Antigamente, a pobreza preservava os pobres de certa hipocrisia; hoje, ela acarreta frequentemente a incredulidade e a inveja, de modo que ricos e pobres estão quites.
É profundamente injusto preferir a impiedade dos pobres à hipocrisia dos ricos: se os pobres são vítimas de seu estado, os ricos o são igualmente do seu.
Os cristãos perseguidos sob Nero sofriam mais do que os operários mal pagos de hoje, sem que nenhuma teologia lhes conferisse o direito de não crer em Deus; a tradição nunca admitiu essa espécie de chantagem econômica em relação a Deus.
Três questões decidem o problema humano, a despeito das sentimentalidades humanitaristas e progressistas.
Se todos os homens fossem isentos de preocupações materiais, o mundo seria salvo? Não, pois o mal está antes de tudo no próprio homem.
Se todos os homens se aplicassem a suprir as necessidades dos outros visando ao bem-estar físico e fora de qualquer religião, o mundo seria salvo? Não, pois o fundo do problema permaneceria negligenciado.
Se todos os homens pensassem em Deus ao ponto de esquecer seu bem-estar, o mundo seria salvo? Sim: a reforma do homem acarretaria ipso facto uma reforma do mundo e uma reação benéfica de toda a ambiência cósmica.
O progressismo quer eliminar os efeitos sem eliminar as causas; as calamidades são apenas o que o homem é e resultam necessariamente de sua ignorância metafísica ou falta de amor a Deus.
Deus não pode ter interesse primário no bem-estar das criaturas, pois quer as almas e seu bem imperecível, não as coisas passageiras do mundo material.
Se Deus quer também o nosso bem-estar terrestre, é porque certa felicidade é condição normal do homem essencialmente criado para os valores eternos.
Junto com o pão, é preciso dar a verdade, pois o homem não vive só de pão; a fome com a verdade vale mais do que o bem-estar com o erro.
Acusar de egoísmo os contemplativos preocupados com sua salvação é simultaneamente hipócrita e absurdo: é impossível salvar os outros senão em virtude da própria salvação.
O social só pode ser definido em função da verdade, mas a verdade não pode ser definida em função do social.
O reproche de sentimentalidade dirigido a quem protesta contra uma baixeza — e não contra um mal necessário — é injustificado, pois pretende reduzir reações da inteligência a suas concomitâncias emotivas.
Que os fortes ataquem os fracos é um mal às vezes inevitável e em certos aspectos uma lei natural, desde que os meios não violem as normas da natureza — como ocorre nas guerras mecanizadas — e a força não sirva a ideias intrinsecamente falsas.
Que os fortes esmaguem os fracos por meio de hipocrisia interessada não é natural nem inevitável; o realismo político pode justificar as violências, nunca as vilezas.
Há ainda fatos que não são males necessários nem torpezas, mas negligências penosas e absurdas, abusos feitos de preconceitos e hábito inconsciente; indignar-se contra a existência mesma de tais fenômenos e querer destruir a civilização para aboli-los seria sentimentalidade reprovável.
A Antiguidade e a época moderna representam dois extremos: de um lado, a dureza marmórea e abstrata dos antigos, fundada na lei de seleção natural e nas virtudes aristocráticas; de outro, os excessos da democracia atual.
Os excessos democráticos incluem o reinado dos inferiores, o culto da mediocridade e da vulgaridade, a proteção sentimentalista não dos fracos mas das fraquezas e das taras, e o menosprezo da sabedoria.
O Medievo era mau porque os abusos que desfiguravam os princípios atingiam o máximo relativo às possibilidades da época — sem o que a reação moderna não teria ocorrido —, mas comparado à época atual era contudo melhor por ainda ser dominado pelos princípios.
Nada justifica a exigência de ser do próprio tempo: a natureza das coisas decide em definitivo o que é e o que não é o tempo presente, e não cabe aos homens decidir o que tem direito de ser verdadeiro.
O vitalismo filosófico dissimula sob aparência de lógica impecável um pensamento falacioso e propriamente infra-humano.
Os adoradores da vida esquecem que a inteligência humana é capaz de objetivar a vida e a ela se opor de certa forma, o que não pode ser desprovido de sentido.
É por capacidade de objetivação e de oposição ao subjetivo que o homem é homem, pois a vida e o prazer são comuns a todas as criaturas infra-humanas.
Seguindo plenamente sua natureza, o homem é levado a transcender as aparências e a uni-las a uma realidade estável e universal; a inteligência humana implica absoluidade e transcendência.
De todas as criaturas terrestres, o homem é o único que sabe que o prazer é contingente e efêmero, e que não é partilhado por todos os egos simultaneamente, o que prova que o prazer não é tudo, nem tampouco a vida.
Uma doutrina verdadeira pode ser qualificada de sentimental quando o sentimento se introduz na substância mesma da doutrina, limitando a verdade por seu caráter subjetivo e afetivo.
Guénon falou da presença de um elemento sentimental nos exoterismos semíticos, elemento que causa as incompatibilidades entre dogmas de proveniência diferente.
Nesse caso, a epíteto de sentimental não significa que a doutrina parte de uma reação sentimental puramente humana: o casamento entre verdade e sentimento é aqui uma concessão providencial e salutar a certas predisposições psicológicas.
O Intelecto — espécie de revelação estática, permanente em princípio e sobrenaturalmente natural — não se opõe a nenhuma expressão possível do Real.
Situa-se além do sentimento, da imaginação, da memória e da razão, mas pode ao mesmo tempo iluminá-los e determiná-los, pois eles são como suas ramificações individualizadas.
A quintessência positiva do sentimento é o amor; e o amor, na medida em que se supera em direção a sua fonte sobrenatural, é o amor do homem por Deus e de Deus pelo homem, e por fim a Beatitude sem origem e sem fim.