Um dos abusos legados indiretamente pela Renascença é a confusão, num mesmo culto sentimental ou humanismo, entre religião e pátria, abuso tanto mais deplorável por ocorrer em homens supostamente representantes dos valores tradicionais.
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O crente não tem o dever de sempre pregar a verdade, mas nunca tem o direito de adulterá-la com razões puramente humanas que cessam de ser válidas a algumas léguas de distância.
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Querer justificar certas paixões pela religião acaba por torná-la ininteligível e por vezes odiosa.
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Para determinar os direitos das coisas terrestres é preciso partir da verdade axiomática de que o valor do homem e das coisas está em sua adequação ao Real integral e em sua capacidade de participar direta ou indiretamente dessa finalidade.
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O papel do contemplativo é olhar constantemente para esse Real e comunicar ipso facto à sociedade o perfume dessa visão — perfume ao mesmo tempo de vida e de morte.
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Só a espiritualidade, e com ela a religião que necessariamente a enquadra, constitui um bem absoluto; o espiritual, não o temporal, é o critério de todos os outros valores.
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Há pátria e pátria: a da terra e a do Céu; a segunda é o protótipo e a medida da primeira, dando-lhe sentido e legitimidade.
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No ensinamento evangélico, o amor de Deus prima e pode contradizer o amor dos parentes próximos, sem ofensa à caridade; a criatura deve ser amada em Deus, ou seja, o amor nunca lhe pertence inteiramente.
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O Cristo se preocupou apenas com a Pátria celeste, que não é deste mundo — o que não significa negar o fato natural de uma pátria terrestre, mas abster-se de todo culto abusivo a ela.
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O patriotismo normal é ao mesmo tempo determinado e limitado pelos valores eternos: não se infla, não perverte o espírito, e, permanecendo em seus limites, é capaz de suscitar as mais belas virtudes sem ser um parasita da religião.
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A obra de Joana d'Arc nada tem a ver com o nacionalismo moderno, pois a santa seguiu o impulso não de um patriotismo natural, mas de uma vontade celeste.
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A França foi durante séculos o pivot do Catolicismo; uma França inglesa teria significado, em última instância, uma Europa protestante e o fim da Igreja católica — e foi isso que as vozes quiseram prevenir.
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A ausência de toda paixão em Joana e suas palavras serenas a respeito dos ingleses corroboram plenamente esse entendimento e deveriam bastar para proteger a santa de toda impostura retrospectiva.
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Uma dupla e muito comum erronia marca a atitude dos modernos em relação ao passado: acreditar que se pode fazer na época atual tudo o que foi feito no Medievo e na Antiguidade, e ao mesmo tempo menosprezar como antiquado o que foi intemporal.
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Há coisas e atitudes que dizem respeito não ao homem de tal época, mas ao homem como tal.
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A religião é como uma árvore que cresce com raiz, tronco, galhos e folhas sem que se possam inverter às cegas as ordens do crescimento; esse crescimento não é uma evolução no sentido progressista, embora haja paralelamente à descida para a exteriorização um desdobramento no plano da formulação mental e das artes.
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O pretenso retorno à simplicidade original é o antípoda dessa simplicidade, pois já não se está na origem e o homem moderno é afetado de singular falta de senso das proporções.
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Concretamente, a pátria não é necessariamente um Estado, mas o país ou a paisagem onde se nasceu e o povo ou grupo étnico ou cultural ao qual se pertence.
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É natural que o homem ame sua ambiência de origem, assim como é natural que ame seus pais, que os esposos se amem e amem seus filhos.
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É igualmente natural que todo homem contribua, segundo sua função e seus meios, à defesa de seu país quando atacado; mas a levée en masse só é legítima em caso de penúria nacional.
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O patriotismo nacionalista não se contenta com as posições naturais: faz da pátria parte integrante da religião, mesmo quando a oprime.
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A pátria assume valor religioso na medida em que veicula concretamente e tradicionalmente a religião — como a Terra védica, o Israel da Antiguidade, o Império do Meio, o Japão xintoísta, o Dâr el-Islâm, a antiga Cristandade, o Sacro Império e em certa medida o Reino de França.
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O caráter sagrado de uma nação depende da integralidade tradicional de seu regime, não da santidade de seus cidadãos.
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O que torna impossível identificar um Estado laico a uma Terra Santa é precisamente o caráter confessionalmente neutro, heteróclito e profano, da civilização moderna.
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Há duas idolatrias incompatíveis com o caráter sagrado de uma nação: o civilizacionismo, de essência pagã e mundana, que data da Renascença, e o nacionalismo, de essência laica, racista e democrática, que data da Revolução Francesa.
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Esses dois quadros — civilização e pátria — são reivindicados por alguns em nome da tradição sem que percebam as contradições implicadas: a religião é coisa sagrada e não pode se conciliar com ideologias profanas; além disso, a civilização pretende ser objetiva e racionalista, enquanto a pátria nacionalista e racista é subjetiva por definição — mistura absurda e hipócrita de cientismo e romantismo.
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O patriotismo profano indevidamente misturado à religião é luxo inútil por se substituir ao patriotismo normal e pernicioso por arruinar o prestígio da religião.
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Segundo o patriotismo nacionalista e jacobino, a pátria nunca comete crime, ou nada é crime se feito em seu nome; ela é erigida em valor transcendente e o sentimento patriótico dos outros é pisoteado, ao mesmo tempo que se exige deles lealdade imaculada.
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O que se reprova aos patriotas chauvinistas não é ser conscientes dos valores reais de sua pátria, mas ser cegos para os de outros países e para os direitos elementares de outros povos, enquanto proclamam a universalidade desses mesmos direitos.
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O extremo desapego do Cristo em relação à sua pátria — que não salvou da dominação romana nem da destruição pelos romanos — deveria fazer refletir os partidários de um patriotismo incondicional.
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Toda pátria tem valor de força maior apenas na medida em que veicula um patrimônio espiritual não traído.
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Não há tradição sem traições parciais, mas há diferenças eminentes de grau, e a partir de certo grau de renegação a pátria deixa em todo caso de ser sagrada.
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A religião, não neutralizada por adulterações e concessões que a aviltam, contém em si a resposta a toda questão humana possível e a solução de todo problema real.
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É real um problema que toca a natureza integral do homem e seus interesses últimos; um impasse devido à recusa de aceitar a verdade não é um verdadeiro problema.
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Todas as misérias humanas são efeito do afastamento do Princípio divino, ou do Si como diriam os vedantinos; a religião se preocupa com essa causa mais do que com os efeitos.
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Não se podem eliminar as consequências do pecado sem eliminar o próprio pecado; se isso fosse conseguido por um instante, nada estaria resolvido e tudo recomeçaria.
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Reprova-se à religião ser incapaz de resolver os problemas do tempo presente, sem se perceber que ela tem em vista apenas os problemas de sempre, e que ninguém resolverá os problemas novos, pois cada solução gera novos problemas nesse mesmo plano.
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A chave do mundo e de seu destino se encontra no próprio homem — esse é o ponto de vista da religião e de toda empresa proporcionada à natureza total do homem.
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No século XIX, a máquina combinando ferro e fogo era supostamente capaz de resolver de uma vez por todas o problema do trabalho, e os soros deveriam abolir a doença — mas os resultados reais mostram que um fazedor de chuva não deve ser ineficaz nem provocar uma inundação.