A liberdade de que se trata é a que designa o Evangelho ao dizer que a verdade vos libertará, correspondendo ao despertar da pessoa espiritual no indivíduo, ao sacrifício do ego e ao engajamento ao serviço das realidades superiores simbolizadas pelo Suserano, as Damas, o Rei, a Igreja, a Viúva e o Órfão.
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É por isso que o brasão é o atributo normal da nobreza: a qualidade nobre consiste no fato de que a pessoa se respeita como tal, sentido de dignidade espiritual chamado Honra, e a partir desse princípio de honra adquiriu a maestria de si mesma, que é a liberdade.
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O homem nobre não é movido pelo destino ou pelas forças ambientes, executando os desígnios da Providência e criando a História por seus altos feitos, que são o contrário dos atos mecânicos comuns e condicionados.
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Não é um executor passivo, mas obedece apenas à sua consciência e à sua vontade livre, reconhecendo por única lei a fidelidade à palavra dada.
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Essa fidelidade à palavra dada, que funda o contrato feudal e, por meio dele, toda a ordem social, decorre diretamente da Fé no Verbo, Palavra de Deus.
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A pessoa nobre deve ser verídica e abominar sobretudo a mentira, outro nome das falsas aparências, da divisão de si mesmo e da ruptura de harmonia entre a realidade e a palavra proferida.
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O cavaleiro, sobre sua montaria, domina e cavalga as forças cegas do mundo, e sua consciência domina o tempo e o espaço, encarnando ao longo das gerações o serviço da justiça e da ordem ontológica.
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O Rei possui por excelência a possibilidade de outorgar armas porque representa a realeza interior, a maestria e a identificação à regra e à Ordem, a Auctoritas derivada do Todo-Poderoso.
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Os bispos portam um brasão porque o episcopado é o exercício de uma dominação sobre as almas e, na Idade Média, a insígnia de suas senhorias temporais.
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Entre os doze pares do sagramento do rei de França, três arcebispos e três bispos são associados a três duques e a três condes, encarnando juntos todas as senhorias e potências do reino.
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Os abades das ordens religiosas portam igualmente armas como sinal de sua jurisdição sobre os membros da ordem e das terras nobres sitas em sua dependência.
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Fora deles, têm somente direito ao porte das armas os plebeus livres e batizados que participam da potência real, que possuem uma terra ou feudo nobre ou que detêm uma maestria interior.
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Esse último caso justifica que certos mestres artesãos, desde a Idade Média, sejam reconhecidos como legítimos portadores de brasão, enquanto os emblemas específicos de sua profissão são antes as marcas artesanais de forma geométrica.
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As ordens monásticas ou cavalheirescas, as corporações, guildas e outras confrarias, assim como as cidades, têm direito ao brasão na medida em que são pessoas morais livres, exercendo uma senhoria sobre seus membros e encarnando uma qualidade espiritual.
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Desde a Idade Média, contrariamente às opiniões falsas correntemente admitidas, o porte das armoriais não era reservado à nobreza, mas sua extensão a outras pessoas derivava diretamente de uma participação dessas pessoas na potência nobre.
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No seio mesmo da nobreza, o brasão pertence mais particularmente à cavalaria, que é sua alma e seu atributo essencial.
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Nos brasões encontra-se a língua sagrada dos cavaleiros que traduziam pelas figuras heráldicas sua concepção dos valores humanos mais criadores, conforme resumem Christian Jacq e Patrice Delaperrière.
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Nos tratados, sermões, cartas e textos simbólicos, descobre-se a língua dos místicos e religiosos medievais que transmitiam sua experiência espiritual.
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Na arquitetura e na escultura, encontra-se a língua dos construtores que encarnavam na pedra e na madeira as verdades do espírito e da mão.