É pelo ouvido que se comunica o novo nascimento, e que as palavras carregadas de verdade podem penetrar no silêncio estabelecido sobre os escombros do verbiage insensato, sendo o aprendizado do conhecimento, na escuta atenta, receber ensinamentos lapidares, palavras-germes que despertam na alma sua faculdade de conceber, ou seja, de compreender e ser fecunda.
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Nenhum conceito seria expresso em palavras pelo homem se na origem de sua linguagem não existisse a potência de nomear as coisas segundo seu ser.
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É esse verbo interior, raiz do conhecimento, que se deve permitir manifestar-se na receptividade virginal da alma, à imagem do Fiat proferido do seio da Imaculada Conceição.
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O ouvido é o primeiro sentido que recebe o influxo celeste, o primeiro a ser regenerado para permitir a audição interior do Verbo, sendo o mais sutil dos cinco sentidos, correspondente ao éter entre os elementos e diretamente ligado ao conhecimento espiritual.
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A luz visível é oriunda da propagação de uma onda primeiramente produzida por uma vibração sonora que é seu vetor.
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Quem passa pela porta estreita do ouvido, acordando fé à evidência interior, tem conhecimento direto e imediato atestado pelo Verbo interior, enquanto quem se resolve a aderir apenas a partir da experiência exterior só tem um conhecimento indireto e por reflexo.
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Aqui se traça a fronteira entre o saber profano e o conhecimento metafísico: o primeiro funda-se apenas na experiência dos sentidos grosseiros e na lógica da razão individual, procedendo por análise e síntese a partir dos elementos manifestados exteriormente, enquanto o conhecimento em espírito e em verdade provém do Intelecto supra-racional, raio do Verbo eterno presente no espírito e pelo qual descem as iluminações.
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É a intuição intelectual que se deve descobrir como o eixo luminoso vertical que perfura o plano do mental em seu centro.
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Esse plano é como um espelho: voltado ao mundo exterior absorve as sensações e lhes impõe uma combinação humana aleatória e falível; voltado ao raio do Intelecto Agente, é por ele iluminado e percebe diretamente a essência eterna das coisas em seu princípio criador.
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A concha de São Tiago acrescenta ainda uma direção, um sentido, o da peregrinação de Santiago de Compostela, sendo São Tiago patrono dos companheiros passantes e dos compères do Ganso em sua função de passadora.
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São Tiago é o mestre da via de peregrinação, da viagem iniciática, no sentido em que caminhar é absorver-se e engajar-se inteiramente na Via, deixando para trás todos os apegos terrestres.
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Trata-se de banhar, lavar e destilar a Matéria dos Sábios no silêncio do laboratório, ir até o termo ocidental de suas forças, esgotar as impurezas e as escórias antes que o retorno possa ocorrer.
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O retorno tem lugar no lugar do composto assim produzido, no Compost-El, o de Deus, ou em Compostela, no campo da estrela, sendo a estrela que então se ergue sobre o banho chamada em espanhol lucifero, a porta-luz.
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É a estrela da aurora, a de Vênus, ou da natureza fecunda libertada de suas cadeias, que nasce de novo da espuma, do seio da concha, como a representaram Botticelli e muitos pintores.
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O caminho de Compostela é a via láctea, o leite estelar, astral, que nutre o recém-nascido filosofal.
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Se a alquimia encontra em São Tiago um patrono, a cavalaria errante e o guerreiro em particular lhe devem também uma devoção especial, pois essa milícia de solitários cuja vocação é libertar a luz original das trevas que a aprisionam deve regozijar-se ao ver o oculto tornar-se manifesto.
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Acima dos pórticos das igrejas românicas que jaloeiam esse caminho na França encontra-se frequentemente uma estátua de cavaleiro, guardião da Via em seus múltiplos rostos, que barra a entrada aos malfeitores e verifica as senhas.
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O cavalo, animal psicopompo que se reencontrará, evoca aqui a cabala ou a viagem através da linguagem e dos signos, que faz passar do sentido óbvio ao sentido oculto.
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Essa cabala fonética, fundada no som primordial e seu uso nas cinco vogais, consiste em partir com a espada a casca da letra para liberar o espírito, que é sopro e som, e que sopra onde quer, sendo preciso abrir a casca da palavra para encontrar a pérola da coisa significada.
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Rabelais chamava esse método de romper o osso para sugar a substantífica medula.
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A significação iniciática dos jogos de palavras da cabala fonética é romper o encadeamento mecânico das imagens e dos conceitos ocos, invertendo as letras para subverter sua exterioridade e remeter à essência, relativizando as palavras estáticas e projetando-as na espiral do sentido.
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As sílabas assim desmembradas são recompostas pela assonância musical em um sentido superior que voa como a flecha ao coração inefável da realidade, sendo essa a língua dos pássaros que Siegfried compreendeu e ouviu após ter matado o dragão da matéria vil e ter-se banhado em seu sangue.
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A esse método aparenta-se também uma oração rápida e penetrante como o dardo que o Ocidente chama oração jaculatória e o Oriente mantra ou japa, repousando sobre a energia vibratória do som primordial.
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Lança e cavalo estão presentes, e o guerreiro começa a aprender seu uso.
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Outros conhecem essa arte de música, e são os cantores errantes que mesclam canções e encantações, rondós e virelais, os trovadores, cujo mensagem de Amor está encerrado no trobar clus, inteligível somente aos súditos da corte desse deus, sendo eles os trovadores de verdade.
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A poesia é a arte de exprimir o inefável e recriar o mundo em sua transparente virgindade original, indo beber na fonte viva da harmonia da manhã do mundo.
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O ritmo do verso cria a vibração do sopro, a rima impõe a repetição sonora incantatória, e a inspiração nascida da iluminação interior produz as palavras justas e as imagens que golpeiam e penetram além da percepção ordinária.
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Esses nobres viajantes se encontram portanto por trás da concha e do bordão de São Tiago, cajado que é a bengala do agrimensor e o eixo do caminho, zunindo algo que somente aqueles que têm ouvidos para ouvir podem compreender, como o que dizem os sinos na Páscoa.
A ESPADA E O FUSO
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A casa seguinte representa uma espada e um fuso entrecruzados, disposição que indica unir a atividade da arma guerreira à da ferramenta da fiandeira, apresentando ao guerreiro no caminho a chave operativa das realizações futuras.
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Dois eixos estão ligados em sautor e barram o caminho àqueles que não se apoderam deles simultaneamente.
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O masculino e o feminino aqui simbolizados devem ser reunidos para realizar a Obra, em sua função ativa e em seu processo dinâmico.
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Da mesma forma que são precisas duas pernas para caminhar, duas mãos para agir ou duas colunas para sustentar um arco de abóbada, o princípio do equilíbrio do jogador e de seu êxito, bem como o da dialética motora que o fará progredir, são dados aqui.
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Não há meio sem a direita e a esquerda, nem criação divina sem a Misericórdia e a Justiça, sem a Graça e o Rigor.
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O jogo existe ele mesmo somente pela interação da regra e da fantasia.
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Trata-se portanto ao mesmo tempo de cortar e tecer, de romper e disjungir, como de fiar e atar, sendo somente o paradoxo fecundo nessa via, conforme as metamorfoses do ganso mostram à vontade, do galinheiro ao firmamento boreal.
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O conhecimento simbólico, ou a abordagem anagógica da unidade do real, procede também dessa maneira dupla.
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O símbolo vela e revela ao mesmo tempo o que esconde e desvela, o que designa e o que protege, sendo a espada que rasga o véu que o fuso tece incessantemente.
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Para o filósofo, a máxima da Obra é: solve et coagula, dissolver e coagular, espiritualizar o corpo e corporificar o espírito, sendo também ora et labora: orar e contemplar como agir e concretizar, aliando o não-agir ao labor.
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O trabalho de laboratório pode ser considerado uma atividade inútil e passiva em relação à ação interior espiritual de colaboração com a obra do Artifex divino na oração.
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É preciso distinguir para unir, diz o adágio escolástico.
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A espada convida primeiro a distinguir, como a arma cortante dada à virtude para combater o vício, e mais ainda como aquela que separa a luz das trevas, luz por sua lâmina faiscante e verdade por sua dureza e seu fio cortante.
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Explica-se assim a estranha figura da espada afiada de duplo gume saindo da boca do Homem-Deus, mostrada no Apocalipse de São João.
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Ela é o atributo próprio do Verbo enquanto Agente da criação que separa a luz das trevas primordiais para fazer nascer a ordem do caos, e enquanto Juiz final que separa o puro do impuro.
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Um nome verdadeiro é portador da potência de ser daquele que enuncia, sendo uma arma de duplo gume cujo manejo deve ser aprendido, e a arma mais forte do guerreiro é o Nome da Potência divina, ou Seus diferentes Nomes revelados preservados em sua sacralidade da confusão das palavras oriundas de Babel.
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Há um espírito para cada coisa que porta um nome, mas uma coisa ou um ser não é somente portador de um nome, ela possui um nome, um verdadeiro nome, e ela é mais ou menos esse verdadeiro nome.
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O nome é uma manifestação do espírito no mundo dos sons, e o ato de pronunciar um nome coloca em vigília o espírito ao qual ele corresponde.
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Para quem se lembra de que esse jogo convida a um novo nascimento e portanto a uma recriação, os três primeiros dias da Gênese consistem em separar a luz das trevas, as águas superiores das inferiores, e as águas da terra firme para que o seco apareça do úmido, operações de discriminação que necessitam ao mesmo tempo o equilíbrio interior e o do mental.
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O gládio aparece então como o fiel vertical entre os dois pratos de uma balança e simboliza o Intelecto e a verdade dando o eixo espiritual para ordenar o pensamento.
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O pensamento é etimologicamente uma pesagem que mede o peso dos elementos em relação a um número harmônico.
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A via heroica pressupõe uma faculdade de julgamento segura, pois quanto mais se avança profundamente nesse caminho, mais as armadilhas e os falsos semblantes são numerosos e perigosos.
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É vital saber penetrar com a ponta da espada o que se encontra diante de si, e ainda mais distinguir o verdadeiro do falso.
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A regra do discernimento dos espíritos impõe-se aqui desde os primeiros passos, e somente a espada do Verbo interior pode iluminar a razão, facilmente enganada, e indicar a direção justa.
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A espada evoca também a força, e mais particularmente o endurecimento e a concentração das energias espirituais pela ascese da disciplina do pensamento e dos desejos, esses fluidos psíquicos cuja atividade é na maioria das vezes errática, dispersante e submetida às impulsões do exterior.
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Ordenados pelo eixo da retidão interior, da consciência luminosa, eles convergem em um poder criador quando a cidadela hermética está bem guardada das influências impuras.
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A espada significa aqui o guarda do coração: a empunhadura é a virtude, a lâmina a vigilância, a ponta a atenção, e o gume a coragem.
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Nessa guerra santa cada instante é o lugar de um combate e as forças demoníacas dissolventes rondham como um leão faminto, sendo que adormecer é arriscar ser devorado, ter medo é deixar-se submergir pela revolta interior, ceder às fraquezas é segurar a arma com mão frouxa, e apontar o estoque sem precisão é errar o alvo.
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O verdadeiro guerreiro se mantém inteiramente no instante, de pé, as duas mãos segurando a espada erguida, e invulnerável mata o tempo e conquista a vida eterna, hic et nunc.
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Todas as artes marciais fazem da rapidez e da precisão do golpe de sabre, ou do tiro da flecha, o selo do valor, signando a aptidão de estar reunido no instante.
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O corolário é a atitude permanente de observação do sentinela e do vigia: observar o que se desenrola no exterior, mas mais ainda os movimentos que se formam no interior, sem jamais identificar-se com o que se passa, nunca absorver-se nem ser ocupado, ou seja invadido.
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Quem vive o eterno presente não conhece nem passado nem passividade.
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A observação central, a do coração, consiste em considerar o que não passa, o fundamento imutável de toda realidade, e isso é a meditação ou retorno ao meio.
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Quem deteve assim a vagabundagem do espírito pela consciência constante do ser pode tornar-se um passador para aqueles que se aproximam, ancorado em Si mesmo e em conivência, pela raiz, com a vida de todos os seres, podendo fazê-los atravessar o rio do tempo.
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Quando o eixo vertical da lâmina está fincado no centro do plano da consciência como um feixe de luz que atravessa tudo, as energias mentais se concentram e a vontade toda inteira é polarizada.
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O guerreiro, graças a ela, corta então o nó górdio que lhe barra a passagem.
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A prudência manda lembrar que a espada está suspensa na fivela do talabarte, e o conto do Graal indica que o talabarte da espada de Galaaz era formado por uma trança dos cabelos de sua irmã entrelaçada de fios de ouro.
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A mãe terrestre do Verbo que disse ter vindo trazer o gládio, cortando os laços carnais ao colocar o homem contra seu pai e a filha contra sua mãe, ocupou sua juventude, segundo certos textos, a fiar e tecer o véu do Templo, o mesmo que a morte de seu filho rasgou.
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É preciso atar os laços antes de poder rompê-los, e a ruptura daqueles que se tornaram entraves conduz a estabelecer-se em outros portadores de vida.
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Atena, deusa da Sabedoria, da cidade e também da guerra, de elmo na cabeça e lança no punho, foi quem inventou a tecelagem, sendo sua tela de forma estrelada da Sabedoria, e a lança que porta assemelhando-se à roca que fia o destino, ao Axis Mundi ao qual está enrolada a cadeia preparada para a tecelagem.
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Nos contos de fadas, picar-se com a ponta de uma roca suspende o curso do destino, como em A Bela Adormecida no Bosque.
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A deusa que tem por atributo o fuso encarna a Sabedoria ordenadora enquanto suporte da manifestação divina, a potencialidade de sua expressão ad extra.
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O polo feminino da manifestação, a partir da matéria prima indiferenciada, encarna a presença divina sob o véu da natureza, sendo a beleza que dela emana tradução do irradiar dessa presença na forma substancial.
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Ela é a potência de vida que, ao receber a irradiação luminosa que manifesta o Verbo, engendra e porta todos os seres.
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Segundo a Escritura, a vida é a luz dos homens, o que implica que em nosso plano de realidade o acesso à luz é operado por sua incarnação na vida.
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O conhecimento se dissolve se não é fixado em palavras, e a importância das letras que bordam a renda do pensamento e dão forma e medida ao conceito torna-se clara: se a linguagem é o tecido da Sabedoria criadora que encerra a realidade em sua rede de signos, arranjar as letras e as palavras é um ato cosmogônico.
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Os hieróglifos assim traçados e caligrafiados têm um valor fundador.
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O bispo traça com a ponta de seu báculo as letras do alfabeto hebraico e grego entrecruzadas em sautor no solo de uma igreja a ser construída, para delimitar e consagrar o espaço do lugar sagrado.
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É seguindo as malhas espaciais e temporais desse tecido da Sabedoria que se pode seguir o fio do Pensamento divino que determina o destino dos dez mil seres, sendo possível compreender a ordem do universo somente se se segura as duas pontas da cadeia e se tem a visão clara do desígnio que se trama nesse entrecruzamento indefinido de relações solidárias.
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O iniciado se mantém no ponto de vacuidade entre as malhas da rede, ali onde domina o destino.
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O conhecimento verdadeiro realiza a união entre o sujeito e o objeto a partir de dois movimentos simultâneos: perceber a essência pela intuição intelectual e compreender a substância pela experiência vital que reúne e relaciona o conjunto corporalmente à totalidade do ser cognoscente.
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Esse ato de conhecimento unitivo repousa sobre a potência do amor, agente universal e elo entre todas as coisas, sendo o símbolo do lago de amor o derradeiro nó no qual se resolve a espiral dos fios enrolados em torno do fuso.
O CAVALO
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A casa seguinte representa um cavalo de pelagem cinza, sendo que após ter recebido as armas para combater e aprendido seu manejo, o guerreiro, na sexta casa do jogo, recebe sua montaria, por meio da qual avançará verdadeiramente, sendo as etapas precedentes apenas preparação indispensável.
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O cavalo é o veículo indispensável à longa rota: sua força, velocidade e resistência levarão o cavaleiro ao objetivo se ele souber bem montar.
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O cavalo é também um passador, um psicopompo, desde que entre o animal e seu cavaleiro nasça um entendimento perfeito.
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Antes de montá-lo é preciso adestrar e domar, sendo a docilidade do cavalo o preço dos esforços obtido ao dominar em si a alma animal, mantendo-a na mão, e assim é a si mesmo que o guerreiro primeiramente passa o freio e exercita com as rédeas dadas a dirigir a impetuosidade dos elãos instintivos.
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Nada seria pior do que aniquilar a selvagem impulsividade de uma besta de sangue, arriscando matá-la ou torná-la uma triste rossinante.
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Saber freá-la consiste ao contrário em utilizar suas energias tão preciosas e aumentar sua potência evitando o esgotamento dos galopes em todos os sentidos.
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O cavalo é o próprio corpo do guerreiro, ou antes seu corpo agora regenerado, rejuvenescido, pleno de nova seiva, com forças incomensuravelmente acrescidas ao quebrar o que as entravava ou as dispersava.
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Uma primeira mudança de estado vai se realizar no ser, cuja aparência exterior não é mais a de um bípede andando pesadamente mas a de um centauro saltitante, leve e rápido como a flecha.
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Aquele que outrora corria nos bosques ou se barrava de ferro encontra o assento ou a base justa ao descobrir seu centro de gravidade e nele apoiar-se.
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A convergência do centro de gravidade, tanto no sentido exterior quanto no interior, produz paradoxalmente uma nova leveza do corpo e da alma, esse alívio provindo da liberação de suas energias outrora aprisionadas nos laços da angústia, bloqueadas nos falsos pontos de apoio da individualidade.
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Ordinariamente o indivíduo, ansioso por sua própria segurança, conta apenas com suas próprias forças para vencer a adversidade e proteger a frágil construção do eu.
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Assim esteriliza todas as energias que provêm de além dos limites do que a individualidade humana apreende, correntes que só se tornam novamente fecundas quando o guerreiro, toda a medo vencido, abandona a falsa segurança dos suportes humanos.
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O jogador verdadeiro deixa-se portar pela montaria, que escuta e capta pelos ouvidos os fluidos naturais, pressente o obstáculo e se guia com clarividência segura na noite, sendo a intuição que assim ilumina a razão.
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O afrouxamento da atitude e dos gestos do corpo traduz a descrispação interior que consiste em confiar-se ao que, em Si, fora do alcance do eu, sabe o que é bom.
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É assim que as águas mortas se transmutam em águas vivas para obter a Água Pôntica: liquefazer o chumbo pela energia telúrica interior ao homem, uma das fórmulas do Mercúrio Universal.
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O cavalo encarna a energia de vida divina que irriga o cosmos como a água mercurial, e vencer a avareza do chumbo devolve a vitalidade e o equilíbrio da saúde ao permitir novamente aos fluidos circular livremente, dissolvendo os nós que interrompem os circuitos do que os Chineses chamam Khi, ou força vital universal.
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Essa dissolução recentra as atividades e a maneira de realizá-las.
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O corpo não é mais esse objeto exterior, esse obstáculo material, mas ao mesmo tempo o guia e o servidor, o sujeito e o instrumento da obra, o templo do Espírito Santo no qual e pelo qual tudo se realiza.
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A essa etapa do percurso trata-se apenas de libertar as energias ctonianas enterradas e recalcadas, que são o suporte e o fundamento, para procurar o assento inabalável, o equilíbrio e a potência que permitem prosseguir a viagem, sendo na medida em que são receosamente ignoradas e relegadas à sombra que elas são ameaçadoras.
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Elas têm o rosto de Medusa, de corpo de cavalo e cabelos de serpentes enroladas, nó de víboras dos fluidos vitais reprimidos, que enquanto mantidos ocultos no inconsciente pela angústia de ser vulnerável aí, não são dominados.
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A forma monstruosa da Górgona petrifica aqueles que a abordam de frente, tornando o corpo inerte, pesado, maciço, bloqueando e esterilizando a alma vital.
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Perseu, armado pelos deuses com uma ajuda sobrenatural, não afronta o olhar de Medusa mas o escudo liso da Sabedoria-Atena, arma divina que não faz senão devolver a forma tal qual é ao seu nada ilusório.
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Coroado do gorro de Plutão como vencedor dos infernos, e dotado do saco para enterrar o rosto do monstro, símbolo da capacidade de integrar as dimensões obscuras infra-humanas, Perseu lhe corta a cabeça, princípio de sua existência autônoma.
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Do pescoço jorram, imediatamente libertados, Pégaso e Crisaor, nascidos da união da Górgona com o deus das águas primordiais, Netuno.
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O mito indica claramente a maneira de converter e transmutar as energias em seu aspecto positivo, dinâmico e vivificante, sendo a leveza de Pégaso e a luminosidade da Espada de Ouro tiradas da espessura e da negrura caóticas.
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O chumbo flui em fusão, a água sai da rocha, como a fonte das Musas jorra da montanha sob o casco de Pégaso.
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As energias cósmicas dominadas pela força divina se convertem de destrutivas em fecundadoras, decuplicando os meios daquele que as capta: assim os limbos infernais dão à luz os instrumentos para a conquista do Céu.
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O cavalo alado e a espada de ouro são dados simultaneamente como forças indissociáveis e complementares, e certos guerreiros a esse estágio de sua transformação os recebem dos anjos, em sonho ou em visão, como o presente divino que substitui a alimária esquálida e o espeto enegrecido e lascado do eu humano.
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Libertar Andrômeda, ou a natureza cativa do abraço devorador do dragão das forças materiais informes, não é então mais que um jogo de criança.
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A esse estágio, o guerreiro não tem outra escolha, para suportar o encargo divino que lhe foi posto sobre os ombros pelo accolade, que não seja repousar sobre uma força que o ultrapassa.
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A primeira fase desse abandono começa pela liquefação do corpo que só pode evitar sucumbir abrindo-se a todos os fluidos que o sustentam, alegrando-se e religando-se a todos os seus prolongamentos cósmicos ao dissolver sua carapaça petrificada.
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Essa extensão da modalidade corporal ordinária ocorre tão logo, renunciando a se crisparem em um esforço absurdo, o viajante percebe em prática que o caminho e o bastão o carregam.
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Deus somente é sua força, tanto na graça celeste quanto na potência imanente terrestre da vida física que emana Dele.
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Após a mortificação e a decantação da espessa envoltória fossilizada, a primeira regeneração obtida se chama o soltar dos cavalos, ou seja a liberação dos centros de forças de baixo, o reconhecimento e a integração harmoniosa do psiquismo inferior animal, o retorno a uma sã animalidade.
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É a vitalidade de
Dionísio que permite o irradiar de Apolo, como o fogo, a luz.
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Antes de pretender, por essa via do ganso, acessar o jardim dos estados angélicos, é preciso ainda amar a besta que é o ganso que nos conduz e entrar em simpatia com todas as formas vivas do mundo sensível que animam o homem.
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A ruptura por Adão do estado paradisíaco de unidade com o Princípio teve por consequência a revolta dos animais contra o homem, que então se tornaram selvagens e ferozes, sendo o primeiro grau da redenção transmutar sua selvageria em docilidade, a coice em cabriola.
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Na história do mundo, a primeira aliança concluída entre o Criador e o gênero humano exilado do Éden foi a da natureza, simbolizada pelo arco-íris, que consistiu em dissolver pelas águas do dilúvio os corpos secos e as almas áridas para recolher na arca as espécies animais vivas.
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O Mestre do Mundo revelou-se primeiro aos pastores dos rebanhos e quis que seu jovem corpo fosse aquecido pelo boi e pelo asno, nascendo em um estábulo.
O GANSO DO SEGUNDO ANEL
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Aqui se encontra novamente o ganso, que parece recitar uma cantilena: Derramem grandes águas, Lâmina fora da bainha, Esvazieis o novelo, Soltem os cavalos, Batam com o casco, Espuma nos focinhos.
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Parece que o ganso começa a falar, pela primeira vez cantarolando em meia voz máximas, meio-caminhos.
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O cavalo Bayard falava aos quatro filhos Aimon, e o ganso diz suas quatro verdades ao viajante que não vai por quatro caminhos: discurso de galinheiro, ou melhor, base do curso da rota.
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Sobre as três marcas do pé de ganso se estabeleceu e conquistou o Fundamento: a fundação e a base do edifício, sendo esse o regime da lua, ou seja da Obra crescente.
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Na alma ainda noturna, a luz se concentra e se reflete pela virtude do astro mestre das águas e dos fluidos.
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É Diana a Virgem que deve suplantar Hécate a assassina: o jogador superou seu terror branco por sua retidão cândida.
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O guerreiro ainda está na infância nessa fase da espiral, banhado, lavado, esfregado e aprendendo a caminhar, sendo seu crescimento ao sabor da montada e da descida das águas.
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Ela amansa os movimentos dos fluidos vitais, da seiva e do sangue, e permite ao jogador compreender e utilizar a força universal que os anima.
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O homem é aqui passivo: recebe o influxo do espírito, suas armas e sua montaria, decantação, destilação, concentração, incubação.
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A concha simbolizava a pureza receptiva, a virtude do silêncio e da contemplação; a espada e o fuso indicavam o aprendizado das regras da ação e a virtude de justiça ou equilíbrio entre as duas polaridades do mundo; o cavalo mostrava como agir e avançar apoiando-se na base da estabilidade dinâmica.
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Assim se adquire a virtude de Temperança que permite cavalgar os tigres.
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Ao abrir a concha, dá-se entrada ao espírito que, pela irrupção de seu fogo, separa o sutil do espesso.
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O tratamento que tritura as escórias deixa escapar as energias materiais ao mesmo tempo grosseiras e sutis, que é preciso ora dissolver ora coagular para delas fazer uma montaria.
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Assim é ensinado à criança da Arte o justo comportamento e a regra do saber viver: espiritualizar o corpo desfazendo a massa compacta e informe do novelo, e corporificar o espírito fiando e tecendo na rotação do fuso.
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No orifício das trevas traspassadas, a vida nova começa a germinar corporalmente, pois não há, nessa via, compreensão que não seja substancial e tangível.
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O Vivente se encontra na força vital, e o Todo-Poderoso nas raízes dos poderes criadores e destruidores encerrados em toda a sua obra, sendo que o artista que bem conhece a arte e considera seus arcanos na lua terá conhecido por isso que deve imitar a natureza em seu movimento, em seu jogo cósmico.