No santuário íntimo da alma onde repousa a Presença infinita, o guerreiro se recolhe, ora, e confia seu destino àquele que o traçou, assistindo do fundo dessa cela à sua morte: vê a lâmina entrar nas articulações, pôr a nu os ossos de seus pés, joelhos, pulsos, cravar-se no peito, seu corpo tombado ser transportado pelas ondas borbulhantes.
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Negrura. O sangue coagula em coágulos negros, a palavra estrangula, a mão se quebra e se rasga, o joelho range, o pensamento afunda em nuvens de poeiras, memória e sentimentos aniquilados, músculos deslocados, a cabeça pesada e que tomba sobre o ventre torcido, o dorso dobrado, os rins furados de esforços, nada mais além do sofrimento branco e do estouro negro atrás da pele da fronte, a carne se liquefaz tremendo, os nervos se esticam e rangem num ruído de corda rompida.
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Masso informe do corpo decomposto pela zebra do tempo, o desgaste das chamas fétidas que o roeram, morto no charnel.
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Pouco a pouco, do fundo mesmo de sua dereliçção, insinua-se como uma paz que o levanta de sua prostração e o desperta do túmulo onde já jazia, e a morte se torna uma companheira fraternal, uma amiga para quem volta seu rosto sem medo nem desespero.
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Ela é vista como uma montaria nova que passará o que restou dele, mas desta vez com a cabeça para baixo, como o Enforcado do tarô, pois doravante deve marchar para o céu.
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No silêncio e na confiança em Deus, uma nova força eleva aquele que é como um navio sem mastro.
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Além de toda esperança humana aniquilada, a Esperança se mantém firme, apoiada nas duas colunas da memória de Si e da fidelidade à busca, e é com essa única energia, e para a única glória de Deus, que o guerreiro transpõe vitoriosamente a ponte da espada.
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Somente nesse momento ele se tornou ele mesmo o fio da lâmina que talha toda carne perecível.
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Quem pisa na outra margem é outro homem, que abandonou sua mortalha nas águas do torrente.
O GANSO DO TERCEIRO ANEL
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Pela terceira vez o viajante encontra o ganso, que o aguardava do outro lado da ponte, sendo que nesse mundo estranho da terceira espiral tudo foi encontro de aparências ilusórias que só cediam passagem por sua conversão e seu retorno.
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A hospedaria, lugar de repouso e de abrigo, não era senão uma armadilha: para não nela ficar, era preciso considerá-la como o convite à viagem permanente e o meio de se deixar perpetuamente sacudindo a poeira dos pés.
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A sereia era a forma que tomava a tentação de gozar o fruto de seus combates e de seus progressos, sendo preciso ver que sua nudez oferecida não era senão um véu encantador, um traje de ilusão.
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O objeto do desejo não era senão a objetivação das próprias cobiças, e desse encontro só podia nascer a perdição ou o renúncia aos frutos da ação, sendo que aquela que se oferece e que enlaça ensina na realidade o desapego: agir retamente sem preocupação com o resultado, fazei o que deveis, venha o que vier.
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Mas isso ainda é apenas um primeiro passo em direção à sabedoria, se não é completado pela clara consciência da inutilidade e da vaidade dos próprios esforços: não ter nada de próprio não basta, sendo também preciso não ser nada.
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A ponte da espada dava a impressão de romper toda a busca e afogar toda esperança, quando de fato é através do abandono absoluto do sofrimento que começa somente a via, e que nasce, pelo desespero, a verdadeira Esperança.
OS DADOS
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Pela primeira vez o jogador cai sobre uma casa onde estão figurados os dois dados do destino, tendo então o direito de rearrojar, o que significa ao mesmo tempo que recomeça a partida de outra maneira e que dobra seu passo na corrida.
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O encontro sucessivo de três gansos marca um cumprimento, uma grande passagem e uma renovação por vir.
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Três vezes três casas são necessárias para formar um homem novo.
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O longo trabalho de decantação interior e de aquisição do saber conduzido pelo buscante o levou até essa última volta da espiral onde o sofrimento imposto e aceito o despojou dessa antiga forma exterior que mascarava ainda a germinação oculta da vida nova.
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A casca do ovo do ganso foi enfim quebrada para permitir o advento à luz do embrião.
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É no cadinho da errância e por sua perseverança incessante que o guerreiro adquiriu a energia necessária para perfurar a parede opaca de seu antigo traje, envoltória protetora no começo tornada prisão sufocante.
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Três grandes etapas prepararam essa liberação: a da gruta, com sua prova de purificação e decantação, onde no silêncio e na passividade foram obtidas a receptividade à influência celeste e as bases de uma estabilidade construtiva; a do cavalo, que permitiu o aprendizado de novas faculdades e a aquisição dos saberes técnicos próprios à guerra santa, tornando o viajante ativo e móvel; enfim a da ponte da espada, além da passividade e da atividade, que permitiu a irrupção do princípio interior de toda transformação através da dissolução e da morte.
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Esse longo trabalho de mortificação que conclui a Obra ao Negro procura ao artista um novo estado: pode doravante ultrapassar a barreira da matéria grosseira e escapar às suas limitações pesadas.
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Essas três provas corresponderam às tendências que governam o mundo visível: descida e pesantez que os Hindus chamam tamas; dilatação e expansão, ou rajas; elevação e sublimação, ou sattwa.
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As esferas da Terra, da Lua e de Mercúrio, governadas pelos elementos de terra, água e ar, foram assim percorridas, antes que se abra o terceiro céu que somente consagra a Vitória.