O Amen aparece em numerosas passagens da Escritura — Jeremias 11/5 e 28/6, I Reis 1,36, Deuteronômio 15/6, Neemias 5/13 e 8/6, Gênesis 15/6, Salmos 42, 72, 89, I Crônicas 16-36 —, funcionando como resposta doxológica e prefigurando a liturgia apocalíptica.
O Amen veterotestamentário reforça afirmações e frequentemente se repete duas vezes seguidas, como na imprecação de Números 5/22 e na doxologia de Neemias 8/16, onde Esdras abençoa o Eterno e o povo responde “Amen Amen”.
Identificado à Verdade, o Amen torna-se, em Isaías 65/16, o nome do Deus fiel — Elohey-Amen —, o Deus que se lembra de sua aliança.
O Alfabeto de Rabi Akiba (Beth ha midrasch III) atribui ao nome Amen um poder redentor universal, sem distinção entre judeus e não judeus, exercendo virtude de libertação mesmo por uma espécie de descida aos infernos.
-
No relato, Zerubabel filho de Sealtiel recita o Kaddisch no paraíso, todos os habitantes da terra respondem Amen, inclusive pecadores e pagãos dos infernos, e Deus, comovido, entrega as chaves do inferno a Miguel e Gabriel para libertar os condenados.
-
O Amen designa ali o Libertador ou Salvador, suscitando a questão de uma relação hermenêutica entre o Amen, o Nome do Eterno e a incorporação do Nome na carne do Messias.
A Siphra di Tzeniutha (o Livro Secreto), capítulo III, comentado por Paul Vulliaud, explica que o vocábulo Amen contém dois nomes divinos — YHWH e Adonai —, cujos valores numéricos somados equivalem a 91, igual ao valor numérico de Amen.
-
Vulliaud explica que o Tetragrama se oculta no “hécal” (palácio), pois só deve ser pronunciado no templo, sendo Hécal de mesmo valor numérico que Adonai.
-
Nessa passagem, o Amen relaciona-se à sefirá Yesod, órgão da conjunção de Tiphereth e Malcouth (o Esposo e a Esposa).
-
A combinação Yahadonai expressa o amor divino como rio que flui superabundantemente de dois afluentes — misericórdia e poder —, e ao mesmo tempo o desejo de união do homem piedoso com Deus e a profissão da Unidade divina.
-
As quatro letras de Adonai admitem 24 transposições e formam o substantivo Dina (julgamento), figurando os 24 tribunais para as 24 horas do dia e da noite.
O franciscano Francisco Giorgi de Veneza escreveu em 1536 que o Amen conjuga os dois princípios YHWH e Adonai, cujos valores numéricos somados dão 91, igual ao valor de Amen, e que quem soubesse conjungar esses dois nomes poderia produzir efeitos admiráveis.
O silêncio (Has) tem o mesmo valor numérico que Hécal ou Adonai (65), e o par Adonai-Jehovah equivale a 91 como Amen; esse número 91 corresponde também a Maleak (anjo) e a ha Elohim, e o par Maleak ha Elohim pode ser traduzido como “o Anjo de Deus”, portador do nome divino (Êxodo XXIII/21).
-
Miguel vale em hebraico 101, mas na grafia defectiva da Bíblia pode reduzir-se a 91 como Amen.
-
Vulliaud afirma que a doutrina de Miguel como glória da Shekinah é reservada aos que seguem o caminho do Pardès, remetendo ao que René Guénon escreveu sobre o assunto em Le Roi du Monde.
O Zohar (III 28/a), na versão de Jean de Pauly, coloca em evidência o aspecto redentor do Amen: a resposta “Amen” atrai as bênçãos da “Fonte” do Rei dos Reis à Matrona, e o Amen assistirá o homem no dia em que sua alma deixar o mundo.
-
Rabi Shimon explica que o Aleph designa o “poço profundo” de onde jorram todas as bênçãos, o Mem aberto designa o “rio” que flui continuamente, e o Nun designa o princípio masculino e feminino.
-
A tradição judaica, baseada na exegese de Berakot 53b, deduz que a enunciação correta do Amen condiciona, num nível superior a Hokma, o impulso inicial do fluxo sefirótico.
As bênçãos descem de En Sof em direção às Sefirot supremas, depois por Biná a Tiphereth, síntese das seis sefirot inferiores, e daí alcançam Malcouth, que as distribui a Israel.
Existe portanto uma relação entre o nome do Amen e o do Eterno, e entre a invocação do Amen e a da Shekinah no Judaísmo, correspondendo no Cristianismo aos nomes de Jesus e Maria — o primeiro como Verbo feito carne fonte de graças, o segundo como “aqueduto das graças” segundo São Bernardo.
A perspectiva paulina de 2 Coríntios 1,20 sugere que o Amen possa ser uma designação “funcional” do Cristo, e que, sendo também o nome genérico das Espécies Eucarísticas, os fiéis respondem “Amen” ao receberem o Corpo de Cristo na liturgia moderna.
-
A Igreja da Etiópia denomina correntemente “Amen” as Espécies Eucarísticas, de modo que “tomar o Amen” corresponde a “comungar” na Igreja latina.
-
Nessas comunidades existe uma relação entre o Amen, nome do Cristo para as Espécies Eucarísticas, e Emmanuel, nome do Cristo para as invocações, como atesta a oração copita e etíope a “Emmanuel nosso Rei nosso Deus médico do mundo”, em ge'ez: “Madhene Alem”.
No Apocalipse — texto joanita por excelência que fecha o Novo Testamento — o Amen é o nome que o próprio Senhor se atribui, declarando à igreja de Laodiceia (Apocalipse 3,14): “Eis o que diz o Amen, a Testemunha fiel e verdadeira, o Princípio da criação de Deus.”
-
Em Apocalipse 1,16, o Filho do Homem tem o rosto brilhando como o sol e da boca sai uma espada de dois gumes.
-
Em Apocalipse 5, 7 e 19,4, os 24 anciãos e os 4 viventes prostram-se e adoram o Eterno proclamando “Amen-Aleluia” enquanto a criação inteira aclama o Cordeiro Triunfante.
O Aleluia era nas antigas liturgias ocidentais uma espécie de nome substituto do Cristo, sendo enterrado simbolicamente antes da ressurreição pascal, e esses dois nomes hebraicos — Amen e Aleluia — valem numericamente 91 + 86 = 177, ou seja, três vezes o valor do rosário latino de 59 grãos.
O número 91 de Amen corresponde às representações simbólicas do sol pela justaposição do algarismo cíclico 9 e da unidade central 1, sendo também desenhado sob a forma de círculo com ponto no centro — símbolo do Ouro dos alquimistas —, em consonância com a doutrina exposta por René Guénon em Symboles fondamentaux de la science sacrée.
-
O Amen é a Palavra de realização, projeção do mundo e retorno ao Eterno, correspondendo ao sentido do “fiat” — “que assim seja” — dos dois modelos: a Virgem e o Cristo.
-
Mikaël vale em hebraico 101, mas a grafia defectiva pode reduzir esse valor a 91 como Amen; Mikaël é um dos sete “anjos da presença” com papel litúrgico no memorial eucarístico e o anjo do Apocalipse na interpretação da Igreja.
Reduzido ao denário ou à tétraktys pitagórica pela adição dos algarismos 9 e 1, o Amen tem o mesmo valor que o AUM hindu e que o nome divino hebraico “El Yah” (1+30+10+5), presente em certos rituais maçônicos.
-
Paul Vulliaud, em seu estudo sobre a Siphra di Tzeniutha, registra as duas vocalizações: Amen ou Omen.
-
Kabbalistas de Provença da escola de Isaac o Cego, agrupados em torno do Sefer ha-Iyyun, exploravam os derivados do radical 'aman como representações das sefirot, da mais elevada 'omen (Isaías 25,1) até 'Amon, 'Amen, 'Emun e 'Emuna.
-
Spinoza, em seu compêndio de gramática hebraica, observou que “as vogais são a alma das letras, e as letras sem vogais são corpos sem alma”, razão pela qual as vogais não foram grafadas até a época massorética.
Considerando o Amen no valor desenvolvido de suas três letras, o Aleph vale 111 — número do “Polo” tanto no Islã quanto no Judaísmo —, e as letras Mem e Nun valem juntas 196; somando-se a unidade central do Aleph a esse valor, obtém-se 197, número de El Elyon (Deus Altíssimo) e de Emmanuel, nome do Messias.
-
A associação Emmanuel-Amen, com o primeiro contido no desenvolvimento guemátrico numérico do segundo, sugere reflexões para os interessados na cavalaria maçônico-cristã oriunda do Rito Escocês Retificado e sua “Ceia Mística”.
A ronda novenária em torno do pivô polar da Unidade evocada pelo círculo e pelo ponto central do número 91 do Amen remete ao Dhikr muçulmano e a relatos de ritos dos primeiros cristãos, como nos Actes de Jean, apócrifo do fim do século IV atribuído por Fócio de Constantinopla a Lúcio Carino, discípulo de João.
-
Nos Actes de Jean, o Cristo ensina aos discípulos uma ronda em círculo ao redor dele, situado no centro — no lugar do Aleph, “in medio ecclesiae” —, recitando estrofes de um hino que os discípulos pontuam com a palavra “Amen”.
-
O hino contém a frase: “O Altíssimo participa da ronda — Resposta: Amen”, e o conselho: “Responde agora à minha ronda: olha-te em mim que falo, e, vendo o que faço, guarda silêncio sobre meus mistérios.”
O Amen retorna frequentemente no final das doxologias neotestamentárias — Romanos 1,20; Hebreus 13,21 — e nas palavras do Cristo com o característico reduplicamente já atestado no Antigo Testamento e nas orações de passagem da aliança de Qumrã, conferindo às afirmações um cunho de autoridade divina.
-
São Jerônimo registra que os fiéis romanos clamavam o Amen em voz alta com tal força que se ouvia como um “trovão”.
-
O Amen percorre as epístolas de Paulo: Romanos 1,25; Gálatas 1,5; Filipenses 3,18; Hebreus 13,21; 1 Coríntios 14,16; Colossenses 1,19-20 e 7,12, entre outros.
O Manual de Disciplina dos manuscritos do mar Morto atribui, no salmo final, sentido sagrado a cada uma das três letras hebraicas do Amen, associando o Nun ao número 50 e à soma dos quadrados do triângulo retângulo de lados 3-4-5.
-
Dupont-Sommer sugeriu a relação entre o valor 50 do Nun e a definição de Fílon, para quem o número 50 era símbolo do “supremo princípio que produziu o mundo”, equivalente em linguagem maçônica ao “Grande Arquiteto do Universo”.
-
O salmo final qualifica o Nun de “chave do Amor eterno e inabalável”.
-
Dupont-Sommer observou que a passagem que menciona as três letras do Amen trata da observância temporal das festas judaicas, e que o número 91 de Amen intervém nas medidas mensais e trimestrais desse calendário ritual, possivelmente encarnando o caráter sagrado do triângulo retângulo.
O número 50 é também o do triângulo retângulo 3-4-5 desenvolvido, cuja representação geométrica orna o insígnia dos “Passados Mestres” da Maçonnerie, ligado ao “segredo da cadeira” do Venerável Mestre que governa pelo esquadro, suscitando a questão de um vínculo misterioso entre o Amen, o Jubileu, o Amon nome do mestre maçom medieval e o triângulo 3-4-5, alusivo ao nome divino de El Schaddai — Deus Todo-Poderoso e Grande Arquiteto do Universo.