A realização de uma demonstração espiritual sobre as relações entre o Vedanta e o Cristianismo, como a empreendida por um “monge do Ocidente” de filiação cisterciense, exige um conhecimento profundo dos princípios metafísicos, das doutrinas orientais e da tradição patrística e tomista, diferenciando-se de outros estudos que se limitam a Mestre Eckhart e, por vezes, carecem de uma perspectiva eclesial autêntica.
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A obra requer perfeito conhecimento dos princípios metafísicos, das doutrinas orientais e do ensino patrístico e tomista.
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Muitas teses comparativas apelam aos sermões de Mestre Eckhart, mas este não é padre ou doutor da Igreja.
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O autor, um monge cisterciense plenamente integrado na Igreja, apela a São Bernardo, à Patrologia e a Santo Tomás de Aquino.
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O estudo recorre a exegetas contemporâneos e a textos recentes do papado, evitando uma mera “curiosidade arqueológica”.
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O monge insiste na importância do “discernimento dos espíritos”, caro aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, para evitar equivalências falazes e superficiais que conduzam ao sincretismo, mas, sem abandonar a fé trinitária, tem a audácia de reconhecer “afinidades indubitáveis” entre a doutrina hindu da identidade e a revelação trinitária cristã.
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O discernimento dos espíritos é necessário para prevenir o sincretismo e a confusão.
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O autor mantém-se ancorado na fé trinitária cristã mais firme.
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Ele possui a audácia de pensamento, imbuída de humildade, para descobrir afinidades entre o Vedanta e o Cristianismo.
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A trajetória monástica é tradicional, mas desprovida de um “triunfalismo” que rejeite outras perspectivas.
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O autor evoca o testemunho do papa João Paulo II na encíclica Redemptor Hominis (1979), que homenageia as tradições não cristãs ao afirmar que a firmeza da crença de seus membros, efeito do Espírito de Verdade além das fronteiras visíveis da Igreja, deveria envergonhar os cristãos inclinados a duvidar das verdades reveladas.
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João Paulo II reconhece a ação do Espírito de Verdade nas religiões não cristãs.
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A firmeza da crença dos não cristãos é apresentada como um exemplo que envergonha os cristãos duvidosos.
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O homenagem do papa às tradições não cristãs é reproduzida pelo autor.
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A análise do autor concentra-se na relação entre o Absoluto e o Infinito, os graus do relativo, e a Realidade divina em contraste com o relativo, partindo da afirmação de que o ego é a própria ilusão e de que a natureza ilusória do mundo consiste em apresentar-se como realidade absoluta, postulando-se que só Deus é identidade perfeita (“Aquele que é”).
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O tema central é a relação Deus-homem, ou infinito-ser e criação.
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Afirma-se que o ego é a ilusão, não podendo dela libertar-se.
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O mundo é ilusório por apresentar-se como realidade absoluta.
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Só Deus é perfeitamente idêntico a Si mesmo, só Ele é “Aquele que é”.
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Os seres são “relativos a Deus”.
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O autor distingue a ilusão, incluindo a confusão entre psíquico e espiritual na teoria da reencarnação, do fenômeno da Imagem ou reflexo, que permite discernir o Real do efêmero, apoiando-se na advertência paulina de que “passa a figura deste mundo” (1 Cor 7,31) para aprofundar o sentido da Escritura e da doutrina trinitária.
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O autor delimita o fenômeno da ilusão e o fenômeno da Imagem ou reflexão.
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A advertência do apóstolo sobre a “figura deste mundo que passa” fundamenta a distinção.
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A análise da “imagem” busca corroborar, a partir das Escrituras, a perspectiva de Shankara.
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A noção de “imagem” aplica-se ao homem criado “à imagem” de Deus (Gênesis 1, 26-29), uma imagem que é também “negativo” e “sombra”, não extraindo sua realidade senão daquele que a projeta, como nos exemplos clássicos da corda e a serpente, da fonte luminosa e a superfície refletora.
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O homem é criado à imagem de Deus, mas essa imagem é também “negativo” e “sombra”.
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Fabre d'Olivet traduz a palavra hebraica para “imagem” (Tselem) como “sombra” ou “negativo”.
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Os exemplos da corda e a serpente e da fonte luminosa e a superfície refletora ilustram a relação entre o Real e a realidade ilusória ou dependente.
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Uma releitura dos textos bíblicos em suas línguas originais, conforme recomendado pela encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII e exemplificado por João Paulo II, poderia revelar aproximações ao conceito de Real, como a palavra hebraica “olam”, que confunde “universo” e “séculos”, sugerindo a perspectiva oriental dos “estados múltiplos do ser”.
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A palavra hebraica “olam” significa tanto “universo” quanto “séculos”.
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A bênção hebraica “olam olamim” pode ser lida como “Universo dos universos”.
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Essa ambiguidade linguística alude à perspectiva oriental dos estados múltiplos do ser.
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A encíclica Divino Afflante Spiritu recomenda recorrer aos textos originais para melhor explicar o sentido exato das Escrituras.
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O autor aborda o “não-dualismo cristão” a partir da não identidade entre o “presente” e “o que passa”, ideia capital tanto para a perspectiva oriental da “realização” quanto para o cristianismo, onde o momento presente é o único “lugar” da liberação por ser o lugar do Eterno, sem sucessão e, portanto, sem aniquilamento.
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O mundo é o conjunto das coisas que passam, e o presente não é parte do tempo.
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Boécio e Santo Tomás distinguem o “agora que flui” (tempo) do “agora que permanece” (eternidade).
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O momento presente é o único “lugar” da liberação, pois é o lugar do Eterno, instantâneo e sem sucessão.
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A “espiritualidade do momento presente” é a ocasião da salvação, a “Páscoa do Senhor”.
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O autor recorre à “lógica tradicional” ocidental, como a distinção entre “sentido composto” e “sentido dividido” de uma proposição e a “analogia da proporcionalidade” de Santo Tomás, para traduzir conceitos orientais como o lakshana (significado implícito) da lógica hindu, construindo uma ponte intelectiva entre as duas tradições.
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A lógica tradicional, esquecida no Ocidente, é utilizada para traduzir conceitos orientais.
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A distinção entre “sentido composto” e “sentido dividido” elimina contradições aparentes.
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A “analogia da proporcionalidade” de Santo Tomás é empregada na tradução conceitual.
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O recurso a essas noções visa traduzir o lakshana, ou “significado implícito”, da lógica hindu.
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Apesar da aparente dificuldade do tomismo para a mentalidade contemporânea, a clareza e simplicidade do estilo do autor, aliadas aos exemplos fornecidos, tornam a obra acessível ao homem espiritual, mesmo àquele pouco familiarizado com a escolástica ou o Vedanta, oferecendo uma mina quase inesgotável de reflexões.
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A clareza e simplicidade do estilo reduzem as dificuldades de compreensão.
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Os exemplos que apoiam as demonstrações facilitam o entendimento.
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O autor visa apresentar ao pensador ocidental ideias novas que se tornem uma mina de reflexões.
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O acesso ao pensamento tomista pode ser mais difícil que à metafísica oriental, mas a obra busca superar essa barreira.
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A interpretação ocidental do Hinduísmo é frequentemente afetada por correntes mentais pós-medievais e cartesianas, que impedem a compreensão do não-dualismo, onde o “eu” experimental é superado e absorvido, ao contrário da perspectiva de autores como René Guénon, Sri Ramana Maharshi e Ananda K. Coomaraswamy, que o monge cisterciense toma como apoio.
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A interpretação ocidental do Hinduísmo é dicotômica, herdada de correntes pós-medievais.
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O “eu” experimental não permite alcançar o que supera e absorve o “eu” nas doutrinas orientais.
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O autor apoia-se em René Guénon, Sri Ramana Maharshi e Ananda K. Coomaraswamy.
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A obra oferece um resumo cristalino do Advaita no capítulo “Eu sou Brahma”.
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O tratado, dividido em sete capítulos cujos títulos revelam a presença dominante de Cristo (“Antes que Abraão fosse, Eu sou”), demonstra que a meditação do monge cisterciense sobre o não-dualismo jamais abandona o Mestre, antes o “reconhece” em cada etapa do caminho e no mistério da Trindade, culminando na afirmação de que o Conhecimento total é o Ser total, perfeição da Essência divina.
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Os títulos dos capítulos mostram a presença de Cristo a dominar a meditação do monge.
* Monismo filosófico e não dualidade
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O autor cita a Escritura: “Nem sejais chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, o Cristo”.
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A obra conclui que o Conhecimento total é o Ser total, perfeição da Essência divina.