A natureza “etérea” e virginal da Mãe do Verbo encarnado, a “Matéria Prima” cristalina e pura, é a “carne espiritual” da ressurreição que une todos os eleitos, sendo figurada na Cidade Santa e na Virgem, cuja Assunção, embora não explícita no Evangelho, é uma evidência metafísica e consagração pela inspiração dos crentes, enquanto os “invertidos” ou pecadores, conforme o Zohar, enfrentam a nudez e o fogo infernal.
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A “Matéria Prima” cristalina e pura, feita de substância espiritualizada e receptiva à voz do Eterno, é o corpo espiritual ou a “carne espiritual” da ressurreição.
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Essa carne espiritual une todos os eleitos, como o mar de cristal da Apocalipse e a “cidade adamantina” da Jerusalém Celeste, na qual a tradição vê uma figura da Virgem.
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A Assunção da Virgem Maria, embora não seja “palavra de Evangelho”, é uma evidência de ordem metafísica e uma consagração pela inspiração dos crentes, ressoando a “trans-figuração” da Forma em seu princípio divino.
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O Zohar descreve que os pecadores impenitentes, ao morrerem, têm suas almas despidas do corpo terrestre e do corpo paradisíaco, reduzidas ao elemento ígneo de natureza sutil, que se torna seu inferno ou purgatório.
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Algumas almas culpadas, que tiveram a intenção de fazer penitência, são salvas após um certo tempo de castigo.
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O “contra-veneno” para o estado de desespero e cegueira interior é a esperança ligada à invocação da Palavra ou Nome do Eterno e à guarda luminosa da substância virginal, a Sabedoria Primordial, cujo coração é definido como uma “fornalha ardente de caridade”, e cujas “entranhas de misericórdia” constituem o receptáculo da irradiação quintessencial e a matriz do Verbo revelador.
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O “contra-veneno” para o desespero e a cegueira interior é a esperança ligada à invocação da Palavra ou Nome do Eterno e à guarda luminosa da substância virginal, a Sabedoria Primordial.
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O coração de Jesus é definido nas ladainhas do Sagrado Coração como uma “fornalha ardente de caridade”.
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As “entranhas de misericórdia” são outra denominação do receptáculo da irradiação quintessencial, ligada à intercessão virginal.
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A Virgem, como “útero divino”, é o “Beth” hebraico do “Bereschit”, a casa-caverna-matriz, as entranhas ou o “Ventre” que alude ao conhecimento esotérico nas tradições semíticas.
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O “Ventre” (Bâtin no sufismo) designa o sentido oculto, em oposição às aparências (Zâhir), e detém a compreensão dos símbolos e o germe do corpo da Revelação ou Manifestação.
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O Verbo eterno, Cristo, está no interior do “Ventre gerador e sagrado” como o “bâtin al-bâtin” do esoterismo islâmico, e esse encerramento interno na matriz santa corresponde a um recentramento punctiforme, que supõe a cavidade vazia de toda presença senão a de Deus, o “fiat” de Maria, em analogia com as diferentes camadas da alma enroladas na mística judaica ou nos “castelos interiores” de Santa Teresa d'Ávila.
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O Verbo eterno, Cristo, está no interior do “Ventre gerador e sagrado” da Arca santa, como o “bâtin al-bâtin” do esoterismo islâmico, o “azeite da amêndoa”.
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Esse enrolamento interno na matriz santa corresponde a um recentramento punctiforme, que supõe a cavidade vazia de toda presença senão a de Deus, o “fiat” da Virgem Maria.
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Esse recentramento pode ser relacionado às diferentes camadas de alma enroladas na mística judaica, aos “castelos interiores” de Santa Teresa d'Ávila e aos sete enrolamentos sucessivos da noção de Bâtin no sufismo.
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As “entranhas” ou o “coração” nada têm de material nem de mental; é na caverna do coração que se efetua a “ruminação” ou meditação de Maria e onde arde o amor divino, em entranhas de “carne espiritual”.
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O feixe de reflexões sobre a prova do fogo e a necessária purificação do ser no processo ressurrecional permite entrever o papel da Virgem na espiritualização da carne, atuando como “refúgio dos pecadores” e protetora no estado de Purgatório, como ilustrado na Divina Comédia de Dante, onde a Virgem ilumina o peregrino e São Bernardo o guia nos últimos cantos do Paraíso.
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A “especificidade misericordiosa” da Virgem, honrada como “refúgio dos pecadores”, manifesta-se no estado de Purgatório.
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Na Divina Comédia, ao chegar ao nono estádio do Purgatório, Dante sofre uma purificação que se completa na glória do Céu Empíreo, onde a Virgem ilumina o peregrino e São Bernardo o guia nos últimos cantos do Paraíso.
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O tema do “manto” protetor, ligado ao fogo e à Virgem, é exemplificado pelo profeta Elias, que subiu aos céus num carro de fogo e cujo manto foi transmitido a Eliseu, e pela Assunção da Virgem, cujo corpo virginal não sofreu a “morte do tempo”, estabelecendo uma relação direta com os estados post-mortem e a função protetora de Maria na “prova do fogo” do purgatório, atestada pelos privilégios do escapulário de Nossa Senhora do Carmo.
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O manto protetor da Virgem está relacionado com a virtude do profeta Elias, que subiu aos céus num carro de fogo, sem conhecer a morte corporal, e é o santo da ordem do Carmo, considerada a ordem da Virgem.
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A Assunção da Virgem evidencia o traslado celestial do corpo virginal, que só sofreu a “morte do tempo”, ligando-se diretamente aos estados post-mortem.
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A função de protetora de Maria na “prova do fogo” ou prova do purgatório é atestada pela tradição do escapulário de Nossa Senhora do Carmo, que, segundo relato de 1465, garantiria a libertação das almas no purgatório no sábado após a morte.
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O “Purgatório de São Patrício” na Irlanda constitui um exemplo de local de peregrinação onde se praticava uma verdadeira “morte iniciática” e, ainda hoje, os peticionantes passam por um “purgatório do psiquismo” através do jejum, oração contínua e vigílias, visando purificar a mente e vivenciar a travessia do Mundo intermediário e dos estados post-mortem.
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Neste local de peregrinação, praticava-se até o fim da Idade Média uma verdadeira morte iniciática, com a recitação da missa dos mortos sobre os peregrinos e sua permanência em uma caverna.
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Atualmente, os peregrinos passam três dias e três noites em jejum, oração contínua e vigílias, incluindo a prática da oração contínua (Rosário) para purificar e esvaziar a mente de pensamentos mundanos.
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A configuração do local (deserto, travessia das águas, ilhota, caverna) é simbólica da porta do “outro mundo”.
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O “vazio mental” alcançado corresponde à dissipação das trevas da ilusão do psiquismo e à espiritualização do ser no processo ressurrecional.
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A análise da “prova do fogo” purificador conclui com a evocação da Virgem de Luz, o “sarça ardente” ou a “mulher vestida de sol” da visão apocalíptica, que nos convida a analisar o papel da Maria na “renascença” do defunto prolongado em “modo sutil”, lembrando que ela é a “Toda Poderosa suplicante”, cuja intercessão, como em Caná, antecede e prepara a ação divina.
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A Virgem de Luz, figurada no “sarça ardente” e na “mulher vestida de sol” da Apocalipse, tem seu papel analisado na “renascença” do defunto prolongado em modo sutil ou anímico.
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Maria é a “Toda Poderosa suplicante” em relação à absoluta e agente de Deus, cuja súplica “coincide” com a vontade livre de Deus, como no episódio de Caná, onde sua intercessão antecede a ação de Jesus.
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A função da Virgem no processo pneumo e psico-somático ressurrecional é a de parturição do cristão ressuscitado, não uma divinização ou idolatria de Maria, que é, antes de tudo, uma mulher e serva, cuja perfeição e santidade apontam para o que todos os seres humanos são chamados a se tornar, sendo ela a mãe de todos os homens e da Igreja.
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A tentação de fazer de Maria uma deusa ou ídolo é um escolho que os cristãos nem sempre evitaram.
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Maria é uma mulher, escolhida por Deus para vir habitar entre os homens, e seu “sim” é um ato de liberdade.
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Maria é a “serva inútil”, santa e sem pecado, como cada um é chamado a se tornar, e sua humildade é a razão de seus títulos.
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Os títulos suntuosos de Maria (Torre de Marfim, Casa de Ouro, Arca da Aliança) mostram o caminho e revelam o que os seres humanos se tornarão um dia.
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Maria, ao aceitar ser a mãe de Deus, torna-se a mãe de todos os homens e da Igreja, uma mulher vivente e ativa, com todas as suas experiências humanas totalmente voltadas para Deus.
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A perspectiva metafísica pressupõe a noção de “Perfeição passiva”, a sublimidade feminina inerente à consciência que o “não-divino” tem de Deus e à receptividade cósmica e metracósmica, na qual o “Fiat” de Maria une a matéria arquetípica dos mundos à carne do descendente de Jacob e, finalmente, à carne espiritual do corpo de ressurreição.
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A “Perfeição passiva” é a sublimidade feminina inerente à consciência que o “não-divino” tem de Deus e à revelação de Deus na criação.
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Essa receptividade é a das “trevas superiores” onde o Eterno quer habitar, a das “virgens negras” da estatuária tradicional, a da sabedoria virginal, a do espelho sem mancha e a da superfície das Águas superiores.
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O “Fiat” de Maria une a matéria arquetípica dos mundos ao tecido carnal do rebento de Jacob e Judá, Jesus, e, finalmente, à carne espiritual do corpo de ressurreição.
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Três etapas na “corporeidade” (início, meio e fim) correspondem a três “lugares de perfeição” da ação do Todo-Poderoso: a Sabedoria possuída pelo Eterno no início da manifestação, Maria na qual o Verbo se encarna para a “deificação” da natureza humana, e a carne espiritualizada do filho de Maria para a ressurreição final, todas caracterizadas por um “vazio matricial” que acolhe o ato divino.
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O “vazio matricial” que acolhe o ato divino revelador, mediador e redentor está presente no início (Sabedoria), no meio (Maria) e no fim (carne espiritualizada).
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Esse “vazio” é a “Toda Pura” possuída pelo Eterno no princípio de seus caminhos, e sua única realidade absoluta é o que o preenche: a Palavra de Deus.
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A parturição marial e o processo ressurrecional não empecem no monoteísmo e no salvamento em Cristo, que são “sem partilha”, sendo o único real o Eterno e o conhecimento que Ele dá de Si pelo Filho único no seio do Pai.
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A importância reside no Princípio, não em sua via de aparição, mas essa via, sendo santa e humilde, é a auxiliar da glória de Deus e canal privilegiado das graças ressurrecionais, como atesta a proclamação de Maria como bem-aventurada por todas as gerações, devido às “grandes coisas” que o Poderoso fez por ela.
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O que importa é o Princípio, não a sua via de aparecimento.
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A via de aparecimento é santa, coparticipante da história da Palavra, e suficientemente humilde para se apagar diante de Cristo.
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Maria é a auxiliar da glória de Deus e canal privilegiado das graças ressurrecionais, tendo o Eterno “lançado os olhos sobre ela” e feito “grandes coisas”, razão pela qual todas as gerações a proclamarão bem-aventurada.
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O título de “Rainha dos Corações” conferido a Maria justifica-se pela correspondência entre o “coração”, sede do Amor e do Conhecimento, e as “entranhas” de misericórdia, matriz do “Novo homem”, e uma curiosidade linguística aproxima as iniciais deste título (R. C.) das da Rosa-Cruz (R + C), assim como o termo alemão para o rosário (Rosenkranz) se aproxima do nome do lendário fundador da Rosa-Cruz (Rosenkreutz), ideias que não são estranhas ao destino póstumo do discípulo de Cristo.
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O título de “Rainha dos Corações” (R. C.) justifica-se pela correspondência entre o “coração” e as “entranhas” de misericórdia, matriz do “Novo homem”.
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As iniciais de “Rainha dos Corações” (R. C.) são as mesmas de “Rosa-Cruz” (R + C).
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Nas línguas germânicas, há uma aproximação entre Rosenkreutz (fundador lendário da Rosa-Cruz) e Rosenkranz (rosário).
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Na perspectiva católica, a “rosa deslumbrante” associada às “juízas” que atravessam os sete degraus da flor na Divina Comédia culmina na “Virgem Mãe, filha de teu filho”, marcando o percurso paradisíaco do eleito até a “luz eterna”, enquanto na perspectiva luterana, o coração do cristão repousa sobre rosas quando está ao pé da cruz.
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Na Divina Comédia, a “rosa deslumbrante” associada às “juízas” que atravessam os sete degraus da flor culmina na “Virgem Mãe, filha de teu filho”, marcando o percurso paradisíaco do eleito até a “luz eterna”, como a da transfiguração no monte Tabor.
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Na perspectiva luterana, o emblema de Martinho Lutero (um coração traspassado por uma cruz e inserido numa rosa aberta) e sua divisa indicam que o coração dos cristãos repousa sobre rosas quando está ao pé da cruz.
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O estado de Rosa-Cruz, contido num “grão de semente plantado no coração de Jesus” e ligado a divisas ternárias, remete à ressurreição do indivíduo na “Pessoa espiritual” pela morte no Verbo encarnado, morto e ressuscitado, com o penhor da eternidade gloriosa sendo a imagem da rosa desabrochada, assegurando a “pessoa imperecível” distinta para cada individualidade humana, como afirma Ruysbroeck.
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O estado de Rosa-Cruz está contido num “grão de semente plantado no coração de Jesus”.
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As divisas “Ex Deo Nascimur In Jesu Morimur Per Spiritum Sanctum reviviscimus” e “Per Crucem ad Rosam Per Rosam ad Crucem” relacionam-se com os estados post-mortem e a ressurreição.
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Todos esses símbolos remetem à ressurreição do indivíduo na “Pessoa espiritual” pela morte no Verbo feito carne, morto e ressuscitado.
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O penhor da eternidade gloriosa é a imagem da rosa desabrochada e deslumbrante, e a “pessoa imperecível”, distinta para cada individualidade, é confirmada por Ruysbroeck.
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O tema da ressurreição e o da rosa mística confluem em invocações como “Flor da Cruz, pura matriz” e “Rosa Sagrada, Maria”, que unem as noções de matriz pura, flor, fogo, coração espiritual, útero divino, matriz do corpo glorioso e Shekinah divina, num contexto de geração dos que nascem nesse corpo glorioso pela graça misericordiosa do Messias.
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Os termos “matriz pura”, “flor e fogo”, “Rosa Sagrada” e “Myriam” confundem-se e unem-se aos de “Coração espiritual”, “Útero divino”, “matriz do corpo glorioso”, “Virgem de Israel” e “Shekinah divina”.
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Maria é a genitora daqueles que nascem no corpo glorioso, pela graça misericordiosa do Messias, na onipotência do Schaddaï e pela “toda possibilidade” daquele que é eternamente o Eterno.