Com essas considerações sobre a dissociação de elementos característicos do eu, delineia-se uma clivagem entre as concepções clássicas das tradições orientais e do judaísmo, de estrutura ternária corpo-alma-espírito, e as concepções católicas modernas alusivas à imortalidade da alma e à sobrevivência do eu como elemento característico da individualidade humana corporal.
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As concepções de estrutura ternária incluem o corpo-alma como carne vivente e mortal, o espírito como imortal e as almas superiores aderentes ao Divino.
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O cristianismo dos primeiros séculos foi muito marcado pela tricotomia paulina corpo-alma-espírito.
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A imortalidade da alma não está indicada no Símbolo dos Apóstolos nem nas fórmulas do Credo.
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Esse dualismo de fato não é exclusivamente católico, como demonstra um relatório de alerta contra uma igreja ortodoxa elaborado em maio de 1978 por uma comissão designada pelo Comitê interepiscopal ortodoxo na França.
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Entre as cargas e motivos de alerta do documento figura a antropologia trinitária, que se supunha característica do pensamento cristão oriental e paulino.
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O que é visado e reprovado é a crença de que o vocábulo carne engloba o corpo e a alma — doutrina do pensamento judaico de que Paulo é testemunho, como mostrou Claude Tresmontant em seu estudo sobre o pensamento hebraico — e a admissão do caráter imortal do espírito.
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O relatório estigmatiza essa definição como próxima dos aspectos duvidosos do origenismo, desautorizando toda uma patrologia e os sermões de Mestre Eckart.
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A constituição em camadas hierárquicas da alma é igualmente estigmatizada, sendo ela que permitiria distinguir, sob o vocábulo único de alma, elementos relativos à carne vivente mortal e elementos relativos à vida eterna.
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A questão é mais complexa do que aparece à primeira vista, e o destino póstumo do batizado, à luz do salvo oferecido na Ressurreição de Cristo e no mistério da assunção corporal da Virgem, permite conciliar a Boa Nova e suas consequências com o que Guénon evidenciou quanto ao destino dos elementos constitutivos do ser ao fim do estado individual humano segundo a antropologia tradicional.