As “funções” representativas da Tradição sagrada de origem “não humana” são encarnadas pelo Legislador ou Manu, identificado ao Princípio reitor e “central” da Tradição primordial, ao chefe supremo de um centro mítico denominado Agarttha segundo Saint-Yves d'Alveydre, ao Pontífice-Rei detentor dos poderes profético, sacerdotal e real — o “Rei do Mundo”, cuja função é essencialmente ordenadora e reguladora, resumida na palavra “equilíbrio” ou “harmonia”, que o sânscrito traduz pelo termo Dharma.
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Ao Brahatma pertence a plenitude dos dois poderes sacerdotal e real em estado indiferenciado; ao se distinguirem, o Mahatma representa mais especialmente o poder sacerdotal e o Mahanga o poder real, correspondendo à distinção entre brâmanes e kshatriyas, embora tanto o Mahatma quanto o Mahanga estejam, como o Brahatma, “além das castas”.
Guénon identifica os três Reis Magos do Evangelho com os três chefes da Agarttha, personagens que uniam em si os dois poderes sacerdotal e real, e cujo gesto representa o reconhecimento da perfeita ortodoxia do Cristianismo em relação à Tradição primordial.
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O Mahanga oferece ao Cristo o ouro e o saúda como “Rei”; o Mahatma oferece o incenso e o saúda como “Sacerdote”; o Brahatma oferece a mirra — bálsamo de incorruptibilidade, imagem do Amrita — e o saúda como “Profeta” ou Mestre espiritual por excelência.
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Os intérpretes dos dogmas e da história religiosa nas Igrejas cristãs nunca quiseram atribuir aos Reis Magos a “função” que Guénon lhes defere na economia tradicional do monoteísmo, constituindo esse ponto novo motivo de desacordo entre o monoteísmo e a noção guénoniana de Tradição primordial.