SER E INDIVIDUALIDADE (GVEI)
Como a individualidade se revela para nós no instante negativo? Para responder a essa pergunta, primeiro teremos que determinar a natureza da experiência do nada que é oferecida à subjetividade negativa por ocasião de suas relações: 1° Com ela mesma, o que nos revelará, sobretudo, o aspecto de descontinuidade do nada; 2° Com o existente em geral, o que nos revelará seu aspecto de indeterminação da pobreza; 3° Com os outros, o que nos permitirá trazer à luz, ao lado de uma forma bastante “passiva” da experiência do nada (arrependimento, tédio), uma forma mais “ativa” . ). Teremos então que determinar os limites dessa experiência, colocando o problema da sinceridade e da lucidez da consciência negativa.
* O primeiro aspecto do nada na consciência negativa é constituído pela descontinuidade que separa ontologicamente a aparência abolida e rejeitada no passado da realidade atualmente visada como presente, e essa descontinuidade ontológica introduzida pelo nada funda o aspecto de indeterminação e pobreza que reveste o existente atualmente visado pela consciência.
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A negação incidindo sobre o próprio ser das aparências está na origem da negação que concerne à sua significação.
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A análise do estatuto ontológico do passado negativo permitirá determinar a estrutura descontínua da temporalidade negativa, que por sua vez condiciona o desvelamento da indeterminação do existente.
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Para compreender o estatuto da temporalidade negativa, é necessário apreender a natureza do querer ou do desejo inerente à intencionalidade negativa, que não traz uma modalidade nova de desvelamento do real, mas repousa simplesmente sobre a tomada de consciência das implicações da intencionalidade estética.
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As duas estruturas panteísticas revelaram a dupla modalidade, lógica ou objetivante de um lado e estética do outro, do conhecimento e do querer inerentes à consciência temporalista.
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A consciência negativa provém precisamente do surgimento do recuo reflexivo e da tomada de consciência, ao menos parcial, da natureza das existências visadas pelo desejo.
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A intencionalidade da consciência negativa guarda a mesma direção que as duas outras estruturas temporais: ela também só existe como ser-no-mundo e transdescendência, visando um mundo radicalmente separado da Transcendência.
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A orientação para o mundo reveste agora o aspecto negativo de um fracasso: a coisa singular visada em sua singularidade revelará um nada de significação que se manifestará, por exemplo, no tédio.
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Em vez de tornar-se disponível ao surgimento de novas aparências, como a consciência estética, a consciência negativa tenta seguir a aparência atual no movimento que a rejeita para o nada do passado.
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É a relação da consciência com o passado que comandará tanto o desvelamento da realidade atualmente visada no presente quanto a antecipação do futuro.
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A subjetividade, ao invés de negar a coisa singular por uma atividade que a integra numa totalidade que a suprime e a conserva ao mesmo tempo, deixa a própria coisa negar-se, pois a visa apenas sob a forma de uma aparência singular cuja natureza mesma é ser negada por seu rejeito no passado.
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A negatividade do passado negativo é relativa, no sentido de que a existência engolfada no passado só pode ser posta como ausente na medida em que é visada como tal, ao menos presente na lembrança, e o esquecimento total não é mais negatividade.
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O passado negativo distingue-se do passado objetivante: neste, a supressão da aparência é um momento no devir da essência e condição de seu desenvolvimento enriquecedor, enquanto no passado negativo a aparência singular não é integrável, recusando-se a formar um todo com a essência.
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A negação da aparência singular no passado negativo não pode revestir a forma positiva de um enriquecimento ontológico a uma estrutura objetiva ou a um saber, pois a existência desaparecida não está nem perdida nem salva à maneira das aparências objetivadas submetidas à alquimia da Aufhebung hegeliana.
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O passado negativo se aproxima do passado imaginário visado pela consciência estética, pois em ambos os casos há apreensão de uma realidade explicitamente visada como singular e passada, ao contrário da consciência objetivante que visa o atual e antecipa o futuro.
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A consciência negativa visa o passado em sua singularidade irredutível, mas sem cair na ilusão da consciência estética, visando-o precisamente em sua ausência, como evento singular e propriamente irrevogável.
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É sobre essa visada que se funda o sentimento do pesar, que é a verdade do desejo orientado para as existências desessencializadas.
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A separação da subjetividade de seu passado constitui a descontinuidade inerente à temporalidade negativa: a multiplicidade temporal é aqui vivida como potência de separação e dispersão, não de enriquecimento ontológico.
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O passado, embora não seja positivado nem vivido como algo que enriquece o ser da consciência negativa, afeta a subjetividade em sua intimidade ao pesar sobre ela por sua ausência, revelando uma espécie de dilaceramento interno de seu ser.
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A consciência está aqui separada de si mesma: um abismo intransponível a separa desse ter com o qual queria poder se identificar.
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A subjetividade é individuada pela negatividade destrutiva do tempo, sem que essa individuação esteja ligada à quantidade nem à qualidade das lembranças que constituem seu passado.
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A temporalidade negativa não constitui um verdadeiro devir, pois a consciência não está aqui tensionada positivamente para o futuro: enquanto o passado é objeto de pesar, o futuro é objeto de angústia, mas de uma angústia que não é fundamentalmente distinta do pesar, pois não incide sobre uma realidade que a consciência poderia esperar que venha preencher seu vazio.
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A direção do movimento de temporalização encontra-se aqui invertida em relação à da temporalidade panteística: não se trata do acréscimo qualitativo ou quantitativo de um devir orientado para um futuro enriquecedor, mas de um movimento para o passado, passagem destrutiva para a negatividade do passado.
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Os dois aspectos — descontinuidade e indeterminação — são rigorosamente correlativos: a separação ontológica da consciência de seu passado implica a apreensão correlativa da indeterminação de significação inerente à aparência abolida.
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A continuidade ativa do recuo reflexivo, em virtude do qual a subjetividade domina e desdobra a perspectiva temporal, funda essa espécie de identidade consigo mesma que faz da consciência um último reflexo da Essência metafísica ou do Si, permitindo considerá-la, ao menos por analogia, como um ser ou um indivíduo singular.
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A ausência do recuo reflexivo determinava o fracasso da individuação estética e a integração ilusória do indivíduo na Totalidade panteística, ao passo que na estrutura negativa a distinção e a descontinuidade surgem com o recuo reflexivo que se sobrepõe à intencionalidade estética dissipando sua ilusão.
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Para precisar as condições do que convém chamar de individuificação mais do que individuação da subjetividade negativa, é necessário determinar a natureza de sua encarnação e suas relações com o corpo, que condicionam a forma particular de sua transdescendência para o mundo.
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A consciência que se situa na estrutura temporal do instante negativo nunca esteve mais próxima de identificar-se puramente com o corpo enquanto condição ou manifestação mais aparente de sua individuificação, e ao mesmo tempo nunca esteve mais afastada de tal identificação, pois a subjetividade negativa não se identifica em rigor com nada.
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Na esfera estética, o corpo era, em certo sentido, a condição de uma individuificação aparente, em virtude da qual a consciência estética pretendia identificar-se com um conteúdo singular qualitativamente distinto de outros indivíduos análogos, mas esse tentativa fracassou por ser impossível justificar uma distinção positiva reposando sobre conteúdo qualitativo determinado.
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Na esfera negativa, o corpo aparece sempre como o instrumento pelo qual a subjetividade se transcende para o mundo, e não como o que individualiza uma subjetividade impessoal, mas como o sinal mesmo da individuificação de uma subjetividade rigorosamente singular.
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A subjetividade negativa tem consciência de ser seu corpo ou de manter com ele relações mais essenciais do que a subjetividade objetivante, mas ao contrário da consciência estética que vivia sua encarnação de forma instintiva, a consciência negativa, por ser consciente dessa encarnação, dela se desapega em certa medida como de um objeto.
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A tomada de consciência do prazer estético, ao suprimir sua imediatidade, faz dele um objeto de pesar, constituindo o paradoxo da individuificação inerente à esfera negativa: o prazer que era meu não me aparece como tal durante a imediatidade do instante em que o experimento, mas somente quando foi irrevogavelmente rejeitado no nada de um passado desessencializado.
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A maneira como a subjetividade toma consciência de seu corpo também só aparece no contexto de uma experiência afetiva de ordem negativa: a dor ou o sofrimento físico, que é apenas uma modalidade particular da relação que une a subjetividade negativa a qualquer conteúdo real.
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A consciência negativa não apreende seu corpo como seu senão à ocasião da experiência do vazio inerente ao sofrimento físico.
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O sofrimento constitui uma ocasião fundamental da passagem do otimismo das estruturas panteísticas ao pessimismo do instante negativo: a sofrimento revela à subjetividade que ela tem um corpo, enquanto na imediatidade do prazer estético ela se afundava nele ao mesmo tempo que transcendia seu conteúdo para a Totalidade estética.
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O pesar e o sofrimento físico fazem aparecer o aspecto propriamente individuificante do ter: só apreendo verdadeiramente como meu o que possuo na medida em que ao mesmo tempo me encontro dele separado.
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A consciência não se identifica rigorosamente com seu corpo no sofrimento, ela o apreende como seu e se sente unida a ele apenas na medida em que também dele se encontra separada.
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Se o sofrimento separa a consciência negativa das outras consciências, é igualmente verdade que primeiro a separa de si mesma, introduzindo entre ela e o que se quereria identificar com ela o nada que permite à subjetividade apreender-se em sua individualidade irredutível.
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O corpo não é posto como o que enriquece a consciência, condição de plenitude, mas ao contrário como o que a separa da plenitude que constitui o objeto natural de seu desejo, ou como o instrumento que lhe permite apreender a negatividade constitutiva de seu ser.
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As relações entre a consciência negativa e seu corpo têm rigorosamente a mesma estrutura que as relações entre a consciência e o passado, sendo o sofrimento físico apenas uma forma da consciência que a subjetividade negativa toma de sua individualidade singular.
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Sartre pôde dizer que o para-si, correspondente à consciência negativa, é o que não é e não é o que é: esse ser que a subjetividade se encontra ser — constituído pelo corpo, pelo passado, pelo saber, pelo caráter ou pelas tendências — ela só o apreende como do que está separada, como o que não é em certo sentido.
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O recuo reflexivo é o que permite à consciência apreender-se como singularidade pura, mas ao preço de uma descontinuidade ontológica em virtude da qual esse ser que ela põe como idêntico a si mesma lhe escapa.
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Tudo que a subjetividade se encontra ser é precisamente da ordem do ter: a subjetividade não tem ou não é uma pura intimidade espiritual, não se identifica com sua vida interior, e não se sente substantialmente enraizada em seu corpo nem em seu passado.
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A consciência de si não visa aqui um conteúdo real: tudo que a subjetividade se encontra ser, dela se encontra ao mesmo tempo separada, e ela só se apreende como individualidade singular porque simultaneamente não se identifica com o conteúdo de seu ser individual.
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A subjetividade é seu passado, seu corpo e seu saber, e não os tem, no sentido de que não se pode aqui validamente opor a ordem do ter à ordem do ser.
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A consciência negativa não se identifica com sua vida interior, a qual constituiria uma plenitude substancial: está inteiramente voltada para a ordem marcelliana do ter, mas sem que se possa dizer que verdadeiramente o tenha.
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Não sendo senão o que tem, e não o que é, ela tampouco pode dizer que o que tem lhe pertence verdadeiramente, pois dela se encontra irremediavelmente separada pelo recuo reflexivo que funda a descontinuidade e o nada que aqui se interpõem entre a consciência e seu ser.
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A consciência negativa é incapaz de se orientar para o futuro, e é por isso que não parece possível caracterizá-la como fez
Sartre pela angústia, pois a angústia pressupõe uma espera e, consequentemente, uma esperança implícita vinculada ao desejo.
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Em rigor, a consciência negativa não tem futuro, não projeta futuro, pois a temporalidade negativa não se mostra criadora mas apenas destrutiva de realidade ou de significação.
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O desespero constitui o sentimento mais característico da consciência negativa, de preferência à angústia.
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A presença ao mundo que condiciona a estrutura da dimensão temporal do presente é uma presença mediata e reflexiva à aparência desessencializada: o presente é imediatamente rejeitado no passado, e a dimensão do futuro encontra-se escamoteada.
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É na passagem destrutiva do presente ao passado que convém apreender a temporalização inerente à esfera negativa.
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A angústia diante da morte, que com o pesar do passado constitui uma experiência pela qual a subjetividade negativa descobre sua solidão radical, revela-se em sua forma mais profunda como o isolamento radical pelo qual a subjetividade morre no atual de uma morte não física mas propriamente espiritual, consistindo na visada e na experiência existencial do vazio inerente à totalidade do que parece constituir o próprio ser da subjetividade.
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Heidegger descreveu a angústia diante da morte como um dos sentimentos característicos da subjetividade negativa, mas ela não é o mais fundamental: a angústia é uma modalidade secundária da consciência negativa, implicando uma secreta referência à esperança.
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O desespero que está na raiz da consciência negativa se situa aquém do pesar e da angústia enquanto eles repousam sobre a valorização mais ou menos implícita de um conteúdo temporal não presente.
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A angústia diante da morte não é o que dá à morte seu caráter trágico: a morte só é relativamente trágica numa ótica em virtude da qual há essências, ou existências fundadas sobre elas.
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A angoisse devant la mort implica ao lado de um aspecto de certeza um aspecto de indeterminação, e a indeterminação inerente à morte pressupõe a espera de um futuro que trará alguma determinação nova, mesmo que seu conteúdo seja visado como negativo e destrutor.
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Aquele que se angustia diante da morte não vive, não realiza existencialmente e de forma atual o aniquilamento de seu ser: apenas o antecipa.
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A angústia pressupõe a consciência dupla e simultânea de um vazio a vir e de uma relativa plenitude presente.
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A angústia diante da morte aparece como o ponto de partida de um caminho espiritual que conduz da temporalidade híbrida e implicitamente polarizada pelo futuro, inerente a essa angústia, à pura temporalidade negativa que consiste na negatividade destrutiva em virtude da qual todo conteúdo possível do desejo é apreendido como atualmente rejeitado no abismo do passado.
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A subjetividade que ao termo da revolta antimetafísica chega a esse limite extremo da desessencialização realiza uma espécie de solidão inversamente análoga à da consciência metafísica ao termo do que o Vedânta chama de Libertação, e que se pode qualificar literalmente de infernal ou satânica.
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A subjetividade vive então antes no presente, que implica uma espécie de coincidência entre o tempo e a eternidade, e que constitui o aspecto mais profundo da temporalidade negativa.
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Aquém do pesar orientado para o passado e aquém da angústia orientada para um futuro cuja manifestação evanescente antecipa, o desespero que está na raiz mesma da consciência negativa vive no presente, não à maneira superficial da consciência estética nem à maneira da consciência metafísica que vive num presente intemporal transcendendo a multiplicidade do devir.
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A consciência negativa assume a condição paradoxal de viver ao mesmo tempo no tempo e fora do tempo: no tempo, pois só há para ela realidade que se manifesta no tempo, mas também fora do tempo, pois o tempo não morde em profundidade sobre esse ser.
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O tempo não traz nada: o futuro não trará determinações novas que enriquecerão a estrutura do real que se manifesta na experiência, e a aparência atual não é sequer uma realidade plena, sendo visada como ausência e como vazio.
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É em direção ao próprio vazio do passado que está orientada a intencionalidade da consciência negativa, não para o passado como tal visado em seu vazio ou em sua ausência como no pesar.
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O passado é visado no próprio presente, a partir da aparência presente que é apreendida na necessidade de sua queda ou passagem para o nada do passado.
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A consciência visa bem a totalidade do tempo, ao contrário da consciência estética, mas o estilo mesmo de sua presença ao mundo lhe proíbe, embora aberta ao futuro, de dar a este uma estrutura que orientasse positivamente o sentido do devir.
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A característica fundamental dessa temporalidade é a exclusão do possível, consecutiva à esterilização do futuro: o futuro é sentido e visado pela consciência desesperada como o que não lhe trará nada, nem mesmo a morte.
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A consciência desesperada não pode pôr a morte como o que porá fim a sua vida, pois esse fim já está realizado hic et nunc: seu drama está por assim dizer terminado antes de começar, pois sua vida social ou biológica é visada como se desenrolando literalmente fora dela mesma, como uma pura mecânica absurda com a qual ela não se identifica realmente.
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A subjetividade é como morta para si mesma, nessa atitude inversamente análoga à do santo que também não teme a segunda morte após o despojamento do renúncia total, mas aqui não se trata de renúncia.
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A subjetividade não tem destinée, mas antes um pur destin, consistindo nessa exposição do vazio de ser e de significação da totalidade das aparências que poderiam parecer concerni-la.
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A individuificação da subjetividade negativa é uma individuação radical que consiste no extremo limite da subjetividade independentemente de qualquer referência positiva a um conteúdo essencial: a subjetividade singular em estado de puro limite existencial, ou seja, como pura negatividade.
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Ela não é o que se quereria identificar com ela, não porque seja outra coisa, mas porque não é nada.
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A realização da limitação subjetiva em estado puro equivale ao rejeito da determinação pela essência para conservar apenas seu aspecto substancial ou existencial, ou seja, o vazio da indeterminação ou do indefinido.
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A subjetividade negativa escapa em certo sentido a todo limite e realiza uma espécie de infinitude, mas é uma infinitude às avessas, verdadeira caricatura da Infinitude de plenitude da consciência metafísica.
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Essa infinitude que se situa no coração da mais extrema limitação não coexiste com a limitação à maneira como o finito coexiste paradoxalmente com o infinito para a consciência religiosa segundo Kierkegaard: ela lhe é rigorosamente idêntica.
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A consciência negativa realiza de maneira paradoxal uma série de coexistências ou identidades de propriedades contraditórias, inversamente análogas à coincidência dos opostos que caracteriza a consciência metafísica.
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A coexistência de ilimitação e limitação já foi evidenciada; apresenta-se agora a de continuidade e descontinuidade, a descontinuidade sendo aspecto da limitação sob sua forma radical de pura separatividade que visa um conteúdo sem poder atingi-lo.
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Há descontinuidade de um lado entre a subjetividade e seu ser, de outro entre a subjetividade e o existente em geral.
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A descontinuidade entre a negatividade separadora e o existente visado equivale a uma pura continuidade, mas não a continuidade de uma essência fundada sobre a identidade consigo, e sim a continuidade de um puro movimento vazio que separa a subjetividade de tudo que pode parecer revestir a aparência de uma realidade.
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O movimento negativo é pura liberdade no sentido de que a subjetividade que não se identifica com sua natureza, seu corpo, etc., não pode aparecer como determinada por eles, e nesse sentido pode ser posta como radicalmente livre, como exemplificado na fórmula paradoxal de
Sartre em O ser e o nada: eu me escolho francês, operário, tuberculoso.
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Mas essa liberdade coincide com a pura necessidade, de maneira sempre inversamente análoga ao Si: enquanto a consciência metafísica possui a necessidade inerente à plenitude do Infinito, a subjetividade negativa possui a pura liberdade do vazio, a ilimitação ou indeterminação de pobreza.
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A consciência negativa não está desapegada do mundo como a consciência metafísica: seu aparente desapego é o da separação, separação dolorosa que é o inverso de seu movimento para o mundo, de seu apego ao real desessencializado.
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Essa indeterminação é determinação impotente para cumprir-se: essa liberdade é sede de determinismo, sede de um conteúdo que a faria verdadeiramente ser e passar ao ato.
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A separatividade visa tornar-se separação encadeante e determinação encadeante e pesante, não estando orientada num sentido contrário ao de tal determinação, mas sendo apenas uma outra forma, mais profunda e mais substancial, desta.
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A liberdade como puro movimento da vontade, embora indeterminada, aparece de fato como estando na própria fonte da determinação ou, mais precisamente, da determinação substancial.
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Essa liberdade não está além mas antes aquém do determinismo, do qual é em suma a raiz substancial.
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A última coexistência paradoxal evidenciada é a de interioridade e exterioridade: a subjetividade manifesta-se como pura interioridade, puro movimento espiritual não alvoroçado pelo dinamismo opaco de um conteúdo psicobiológico, mas essa interioridade é o inverso de uma verdadeira plenitude espiritual.
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Encontramos aqui a forma metafisicamente mais acabada e coerente do Solipsismo, no sentido de que a consciência atingiu um grau de isolamento ontológico verdadeiramente máximo.
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Paradoxalmente, é justamente então que ela realiza a exterioridade máxima, pois não encontra nada em seu interior: não é verdadeiramente Consciência de si, não tem mundo interior, não tem alma, não tem conteúdo substancial íntimo e carregado de lembranças que a distinguiriam das outras.
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Sartre pôde ter a impressão, justificada em certo sentido, de que sua concepção do para-si implica uma justificação rigorosa da realidade do mundo, escapando a toda ilusão de imanência.
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A subjetividade é pura multiplicidade, pura exterioridade a si sem intimidade verdadeira: o movimento negativo e radical da subjetividade aparece como a raiz de todo apego e de toda dependência, como o fundamento da exterioridade que projeta a consciência e os seres para fora de si mesmos.
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Essa pura individuificação resultante da separação da subjetividade de todo conteúdo substancial equivale a uma despersonalização: a consciência negativa que parece ter realizado o aprofundamento da subjetividade em direção a uma personalidade rigorosamente individual equivale de fato à impessoalidade mais radical.
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A subjetividade negativa só é individuificada pelo fato de sua identificação com o puro movimento de transdescendência para o mundo que lhe interdita todo retorno sobre sua intimidade singular.