1.5. A Proximidade Iônica da Transcendência
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No ponto mais baixo da revolta (Esfera Negativa), a Transcendência está paradoxalmente mais próxima.
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A lucidez satânica desmistifica as ilusões das totalidades panteístas e é obsediada pela ideia de Transcendência, que nega explicitamente.
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No entanto, esta proximidade é anulada pela identificação da consciência com um “Nada hipostasiado”, um reflexo invertido e infinitamente resistente do Infinito metafísico, formando um ecrã que a separa da verdadeira Transcendência.
II. O Problema da Passagem da Imanência à Transcendência
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2.1. A Discontinuidade Radical e a Ilusão do Círculo
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Do ponto de vista da imanência, há uma descontinuidade radical e intransponível entre o finito e o Infinito.
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Não há passagem natural ou necessária. A noção de “graça” nas tradições espirituais expressa esta impossibilidade de auto-superação.
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No entanto, do ponto de vista metafísico último, este “círculo da imanência” é uma ilusão (Maya), pois o finito nunca existiu verdadeiramente separado do Infinito.
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2.2. O Homem Traditional vs. O Homem Moderno
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Homem Traditional: Vive numa mentalidade onde o finito é espontaneamente transparente ao Infinito. O mundo é um reflexo do Absoluto, e a razão é um reflexo do Intelecto divino. A “prova” de Deus parte de uma consciência já impregnada pela Transcendência.
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Homem Moderno (Temporalista): Acredita na autonomia do eu e do mundo. O finito é opaco e auto-suficiente. As estruturas panteístas erigem o homem e o mundo em Absolutos imanentes, tornando impossível qualquer passagem a partir do seu conteúdo positivo.
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2.3. O Ponto de Partida Possível: A Esfera Negativa
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A única possibilidade de passagem para o homem moderno está na Esfera Negativa.
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Ao experienciar o vazio e o absurdo dos absolutos imanentes (panteístas), a consciência negativa destrói as ilusões que obscureciam a Transcendência.
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O “écran” do Nada hipostasiado, embora ainda resistente, é menos opaco que o das totalidades panteístas.
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2.4. O Satanismo Explícito e o Reconhecimento Implícito
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A revolta explícita da consciência negativa (satanismo) baseia-se num reconhecimento implícito da Transcendência.
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Ela precisa de Deus para se afirmar contra Ele. Ao negar explicitamente a Transcendência, reconhece-a implicitamente como a única realidade absoluta, num mundo que descobriu ser vazio.
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2.5. A Conversão: Contemplação do Nada e “Graça”
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A conversão requer que a subjetividade, em vez de se crispar no seu nada (afirmação satânica), o contemple.
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Este acto de contemplação desfaz a hipostasia e reintegra o Nada na plenitude do Ser.
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Contudo, este retorno não é uma necessidade lógica ou dialética. É um “mistério” ou uma “graça”.
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Existe uma correlação circular: a experiência real* do desespero (que leva ao desejo do Infinito) já pressupõe um desejo latente do Infinito (que permite a experiência real do desespero).
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A ruptura do círculo resulta de um retornoamento abrupto da vontade, onde o desejo do Infinito, até então latente, surge ao contacto com a experiência do nada, possibilitado por essa mesma experiência. Este processo é facilitado pelo sofrimento e pela consciência da morte, que podem abater o orgulho do ego.