Apresentação da Obra de Georges Vallin e seu Enquadramento
A consideração do vigoroso e belo Tratado de Jean Wahl como um marco que recenseia e renova os títulos e as oportunidades da disciplina filosófica.
A convicção de que o livro de Georges Vallin ocupará um lugar entre os trabalhos que oferecerão uma perspectiva sobre o movimento atual da filosofia.
O reconhecimento da qualidade do trabalho de Vallin, caracterizado como denso, sugestivo e isento de qualquer tentação de facilidade.
A constatação de que a metafísica, na abordagem de Vallin, não pleiteia distância ou inatualidade, indo diretamente ao encontro de problemas contemporâneos.
A manutenção, por parte da metafísica valliniana, da sua linguagem própria, sem se dissolver em abordagens acessórias como a epistemologia, a axiologia, a psicologia ou a sociologia.
A apresentação da metafísica em estado puro, podendo ser subtitulada “Do Um e do Múltiplo”, salvaguardando-se assim das modas passageiras.
A Fórmula Central: “O Um (ao múltiplo)”
A proposta de uma escrita mais próxima do pensamento do autor: “O Um (ao múltiplo)”.
A utilização da minúscula para evitar a substantivação excessiva de dois termos capitais à entrada de uma exposição do mais estrito monismo.
A elipse do “e” e o uso de parênteses para demonstrar que este monismo é pregnante, mas apenas de si mesmo.
O significado destes detalhes na fixação de uma convenção de sinalização com o leitor.
A introdução imediata da metafísica integral que Vallin reclama como pano de fundo para as suas perspectivas críticas e construtivas.
A Polêmica Inerente e o Posicionamento Filosófico
A asserção de que tal tomada de posição não poderia deixar de ser polêmica, sendo isso inerente ao posicionamento entre os filósofos.
A recomendação de reservar a apreciação deste aspecto polêmico até se compreender o contributo positivo da tese.
O destaque do rejeição do patrocínio aristotélico e da tentativa de recuo em direção à tradição oriental para melhor julgar a tradição ocidental.
A clarificação de que esta abordagem não constitui uma simples escolha alternativa ou uma rutura.
O foco principal da reflexão de Vallin na tradição ocidental e nas suas grandes articulações, sem a pretensão de substituir ou superar sistemas anteriores à maneira de Hegel.
A inovação de Vallin residir na composição de conjunto do problema e no itinerário entre os sistemas, afastando-se dos caminhos trilhados.
A Relação com a Ciência e a Tradição Ocidental
A negação de que se trate de virar as costas à ciência, como outrora se criticou em Bergson.
O reconhecimento da delicadeza deste ponto em qualquer comparação intercultural entre Oriente e Ocidente.
A aceitação da obra dos séculos, da qual a filosofia é apenas um aspecto, e a advertência contra a tentação de a refutar através de um sincretismo pueril ou de uma espiritualidade sentimental vaga.
A identificação da carga disruptiva da tese na condenação global e detalhada da filosofia ocidental, da qual apenas Platão, Plotino e Mestre Eckhart escapam.
A questão sobre se uma perspectiva pode causar tantos danos.
A localização do valor de choque no uso da palavra “metafísica” quando Aristóteles é denunciado como seu inimigo e instigador de uma revolta anti-metafísica contra Platão.
A rejeição, pela perspectiva de Vallin, da metafísica aristotélica ao nível de um sistema secundário ou contra-perspectiva.
A crítica à filosofia aristotélica por se encontrar pesada por uma cosmologia empírica e por ter falhado o Um supremo, procurando-o de baixo para cima.
O elogio à filosofia das Ideias de Platão por ter colocado naturalmente o “Ser para lá do Ente” como chave da sua perspectiva.
A questão sobre se se trata de uma “desvalorização do Ocidente” ou antes de um assunto interno ocidental, na linha de uma longa tradição de disputas.
A Perspectiva como “Vista” (Darshana) e a Tradição Platônica
A defesa de Vallin de não trazer um novo sistema, mas apenas sugerir uma perspectiva.
A comparação com a altura de pensamento habitual na Índia, onde se fala mais de “vista” (darshana) do que de sistema.
A citação de Jules Lagneau para caracterizar o espírito platônico, onde a filosofia é um movimento para lá, um esforço para compreender a partir de um ponto de vista superior.
A consideração de que, a partir deste ponto de vista superior, a perspectiva está feita.
O enraizamento histórico de Vallin na sua família espiritual ocidental, mesmo descobrindo uma parentesco com Shankara.
O Conservadorismo Razoável e a Crítica a Descartes
A ênfase no conservadorismo razoável de Vallin, que louva os controversistas medievais por terem mantido uma teologia tradicional.
A objeção a Descartes por retirar a sua filosofia do enraizamento teológico tradicional, fazendo da metafísica uma antecâmara da física.
A identificação do germe do humanismo anti-tradicional nesta atitude fundamental cartesiana.
A constatação de que Vallin não desertou para outra tradição, recorrendo com justeza e profundidade apenas a duas grandes escolas do pensamento indiano: o “nihilismo” devoto de Nagarjuna e o Vedanta monista de Shankara.
A Atualidade Externa e a “Geografia” da Metafísica
A relevância externa da tese de Vallin, adaptando-se ao movimento da história que abre ou renova domínios culturais imensos.
A constatação de que a história universal quebrou os termos que lhe havíamos imposto.
A proposta de Vallin de uma “geografia” da metafísica europeia, sugerindo a necessidade de refundir os nossos atlas filosóficos.
O reconhecimento da estatura de Shankara, equiparável a um São Tomás de Aquino.
O sinal dos tempos representado pelo interesse crescente pelos filósofos hindus, mesmo no Ocidente.
O Problema do Aporte Metafísico e a Comparação Filosófica
A questão sobre se o aporte metafísico das tradições orientais pode ser considerado uma adição específica e original à nossa filosofia primeira.
A citação do veredito do professor Arthur Berriedale Keith sobre as Upanishads, considerando-as sem interesse filosófico.
A análise da interpretação de Paul Deussen, que via em conceitos upanishádicos uma prefiguração de Kant.
A crítica a esta abordagem por assentar numa manipulação abusiva da ambiguidade de certas palavras e numa generalização ruinosa.
O mérito de Vallin em evitar manipulações abusivas de conceitos e comparações transversais precipitadas.
O Tato Metafísico e a Perspectiva como Algoritmo Ontológico
A definição do tato metafísico como um instinto justo do que permitem ou excluem as disciplinas paralelas.
A concepção da metafísica, reduzida à sua posição mais íntima e simples, como um algoritmo ontológico (do um ao múltiplo e reciprocamente).
A possibilidade de considerar a metafísica como a formalização de uma sociedade que a criou, tomando lugar como sinal da história.
A necessidade de Vallin, enquanto metafísico, de ultrapassar a história, mostrando-se ao mesmo tempo atento à situação histórica concreta.
A importância do enraizamento cultural profundo para que qualquer visão tenha sentido.
A Comparação Transversal e a Necessidade de um Ponto Fixo
A possibilidade de comparações transversais legítimas (de conteúdo a conteúdo) uma vez estabelecido um traço de história comum, um alinhamento necessário.
A analogia com a regra da bússola: a necessidade de encontrar um norte comum a todas as partes da paisagem filosófica.
A crítica às comparações baseadas na confusão conceptual e na assimilação semântica abusiva, fruto de uma desatenção cultural.
A necessidade de um ponto fixo, extraposicional, para escapar ao caos das comparações.
A questão sobre se esse ponto será o Um, e qual a relação que se lhe designará com seu “parêntese” cósmico.
O Advaita Shankariano e a Dissolução do Múltiplo
A identificação na perspectiva de Vallin do advaita shankariano, onde o conteúdo do parêntese cósmico se dissolve como um reflexo na irradiação da transcendência.
A consequente imanência desta transcendência a tudo, precisamente porque não faz mais nada e o faz não ser nada para ela.
A analogia com a caverna de Platão, numa versão indiana.
O emparelhamento significativo de palavras entre as tradições: “um” e eka, “não-dualidade” e advaita.
A consistência retomada pelas controvérsias antigas nesta nova quadratura, oferecendo uma espécie de proporção para iluminar o pensamento grego sobre si mesmo.
A Perspectiva Metafísica como Jogo Puro e sua Tradução Prática
A concepção das avaliações do Um e do Múltiplo como o jogo metafísico em estado puro.
A constatação das oposições interculturais, substratos históricos e incompatibilidades que este jogo conota no mundo real.
A rápida recarga prática destas avaliações com toda a violência global dos conflitos culturais quando a disputa se abre.
A proposta da palavra “perspectiva” como o termo menos custoso, doutrinalmente, na esperança de uma conciliação a longa distância.
A Necessidade de uma Mutação nas Maneiras de Ver e Raciocinar
A necessidade da época por mutações fracas em certas maneiras de ver e raciocinar — um pequeno toque — mas no sítio certo e no sentido correto.
A analogia com uma ligeira alteração numa fórmula matemática que pode abrir um novo domínio à física.
A existência de uma matemática, e não apenas estatística, nas ciências humanas.
A crítica à civilização quantificada de Descartes, que nos assegurou uma supremacia material, mas não nos recomenda moralmente às civilizações concorrentes.
A proposta de uma remontagem: voltar de Descartes, do número que enumera as figuras, para a figura mesma, ou para números qualitativos.
A importância de uma abordagem mais topológica do que estatística para as ciências humanas.
A Perspectiva Metafísica como Parente destas Preocupações
A afinidade da perspectiva metafísica de Vallin com as preocupações topológicas e qualitativas.
A junção, por parte de Vallin, de um vivo sentimento do enraizamento histórico das doutrinas com a empresa deliberada de as ultrapassar para uma unidade trans-histórica e trans-numeral.
A questão sobre se palavras como “trans-histórico” e “trans-numeral” não estão carregadas de exigências e são mais redutíveis do que novas.
O Sistema dos Sistemas e o Privilégio da Centralidade
A questão sobre a possibilidade de um Sistema dos sistemas, se cada um exige ser um ponto de vista sobre os outros.
A indivisibilidade do privilégio da centralidade entre todos os sistemas.
A dificuldade de formalizar este modo de pensar nos termos da lógica clássica.
A aproximação através da noção de permutação circular, onde a figura predomina significativamente sobre o número.
A insistência mais forte no centro, no enraizamento no centro, na relação entre o Um e o múltiplo.
A Exigência de um Montagem Topologística: o Silogismo Giratório
A necessidade de uma montagem topologística mais elaborada para cumprir a condição intelectual posta por Vallin: uma espécie de silogismo giratório.
A descrição deste silogismo: compreensão estabilizada e referida ao centro “principal”, varrendo circularmente a sua extensão por posições descontínuas.
A postulação de uma ontologia não aditiva do um, como todo, e do múltiplo: o Um (ao múltiplo) — e reciprocamente.
A concepção do Um não como um objeto privilegiado acima do resto, mas como uma perspectiva sobre todos, apta a reconduzi-los a si.
A fórmula condensada de Vallin: a “integração da experiência do múltiplo na experiência metaempírica do Um”.
O Advaita como Não-Dualidade e a Dialética Shankariana
A clarificação do termo sânscrito advaita (não-dualidade) como não sendo simplesmente sinónimo de monismo.
A definição de advaita como a dualidade ultrapassada, mas não de forma relativa, como na dialética hegeliana.
A caracterização dos pares da metafísica integral como se estabelecendo em equilíbrio liquidatório, à beira da sua integração, liquidando-se reciprocamente no absoluto.
A rejeição da interpretação do pensamento de Shankara como um idealismo à la Berkeley ou um ceticismo.
A concepção do mundo, na perspectiva de Shankara, como estando presente para aqueles que ele detém, com a necessidade de descobrir um caminho para se libertar dele.
As Vias (Margas) de Salvação no Hinduísmo
A distinção categórica estabelecida pela Índia entre as “vias” (marga) para ultrapassar a experiência comum.
A identificação das três vias fundamentais: a das obras ritualísticas e morais (karman), a da devoção mística (bhakti) e a do puro saber (jnana).
A origem comum destas vias na exigência da autenticidade de si: a convicção de que não se sabe autenticamente nada para lá daquilo que se é e se faz.
A doutrina do karman como ação que molda o ser: “torna-se naquilo que se faz”.
A doutrina da transmigração como uma posta em imagens cósmicas e moralizantes desta ontologia.
A Via do Saber (Jnana Marga) e a Experiência Metaempírica
A posição mestra da via do saber (jnana marga) como a razão última e a realização suprema do hinduísmo.
A definição do Vedanta como este Puro Saber, sob a sua dupla condição lógica e histórica.
O objetivo de dar conta da diversidade do mundo através de uma gênese não aditiva ao Absoluto.
A descrição da experiência liquidatória, lógica e psicológica, de toda a posição correlativa de exterior e interior.
A citação de um texto clássico que descreve esta experiência de união com o atman intelectual.
A ênfase na experiência intelectual do fim da experiência como sendo precisamente a experiência metaempírica de Vallin.
A “Tonality Intellectualista” e a Experiência do Si (Atman)
A citação de Olivier Lacombe sobre o “choque desenraizante” sofrido pela consciência empírica na passagem para a pura experiência espiritual.
A dominância da “tonalidade intelectualista” no jnana marga.
A proposta de Lacombe para traduzir jnana por “experiência espiritual” ou “experiência libertadora”.
A definição do Atman (o Si) como a identidade pessoal, a dimensão da interioridade espiritual, a profundidade ontológica.
A descrição do caráter sintético e progressivamente totalizador do discurso upanishádico, conduzindo ao limiar de uma experiência de plenitude sem limites do Um.
A Ambiguidade da Tradição Hindu e o Problema do Comparatismo
O discernimento da ambiguidade da tradição hindu quando se tenta avaliar um resíduo propriamente metafísico.
A constatação da presença de um cálculo ontológico elementar sobre o um absoluto, subjacente ao hinduísmo.
A observação de que este cálculo sustenta igualmente uma doutrina de salvação, uma participação em Deus e um quotidiano de deveres rituais.
A questão sobre se a ausência de uma redução a conceitos abstratos retira todo o fundamento a uma tentativa de comparatismo.
A referência à opinião de Lacombe de que uma análise comparativa dos filosofemas do Oriente e do Ocidente seria prematura.
A Solução Topológica e a Lógica Vetorial
A abertura para uma solução através da identificação de esquemas ou de uma topologia vetorial sob as determinações teóricas e práticas da Índia.
A orientação da arquitetônica da “perspectiva metafísica” de Vallin neste sentido.
A comparação entre a lógica linear do conceito e a lógica bifide da topologia, com os seus símbolos “regionais”.
A descrição do domínio das contraposições, mais geral do que na lógica clássica, e dos seus casais vetoriais topológicos (Céu e Terra, Yin e Yang).
A noção de alinhamento sobre estruturas acopladas, criando uma superfície lógica em vez de uma linha.
A caracterização dos raciocínios como “em lençol”, ainda com cordel, mas não sobre um cordel único.
O Despertar do Pensamento Ocidental para a Lógica Transconceitual
O despertar espontâneo do pensamento ocidental para esta ultrapassagem do conceito.
O exemplo clássico da equivalência entre as geometrias de Euclides, Riemann e Lobachevsky.
A constatação de que Sartre, com o seu Nada, e Heidegger, com a sua visão do Ser para lá do Ente, parecem reencontrar as formas lógicas simples que sustentaram a aventura cultural do nirvana.
A oportunidade da empresa de Vallin, caracterizada pelo rigor de todo o sistema, mesmo negativo.
A importância de evitar transversais abusivas e o sincretismo ingénuo.
A Prova pela Prática e o Critério Duplo
A admissão de Vallin de que a sua perspectiva metafísica não repousa sobre provas demonstrativas, sendo a dialética um simples veículo para a intuição de uma verdade evidente por si mesma.
A proposta da prova pela prática, pela posta em exercício da proposição.
A obrigação de Vallin de satisfazer um critério duplo, lógico e histórico.
A necessidade da sua perspectiva oferecer uma estrutura formal válida para outras disciplinas (lógica, psicologia, sociologia) e apreender um conteúdo histórico concreto.
A Universalidade Horizontal e Vertical da Perspectiva Metafísica
A definição da universalidade horizontal como a convergência de tradições espirituais aparentemente divergentes para um conjunto de verdades fundamentais.
A fundamentação desta universalidade horizontal numa universalidade vertical, que dá todo o seu sentido à primeira.
A descrição desta universalidade vertical como um meta-dogmatismo, uma integração rigorosa que permite compreender os diversos dogmatismos filosófico-teológicos.
A comparação desta estrutura com o “silogismo giratório”, cujo pivô é uma compreensão distribuindo à sua volta uma extensão orgânica não aditiva.
A Corroboração por Analogias Noutros Domínios
A busca de corroboração para a forma da proposição de Vallin através de analogias noutros domínios.
A identificação da ideia mãe da monumentalidade hindu: uma posição vertical central, provendo à sua volta em réplicas de si mesma.
A prova arqueológica, política, administrativa, mitológica e jurídica desta estrutura central não aditiva.
A prova metafísica última, encontrada nos textos, que ensinam que o “ter” do atman constitui um duplo do seu “ser”.
A conclusão de que o substrato filosófico da tradição hindu é manifestamente de natureza para sustentar uma comparação frutuosa com a metafísica europeia.
A satisfação, por parte de Vallin, das condições de forma e de conteúdo, estando fundado a chamar “metafísica” à sua perspectiva.