Muitos contemporâneos questionam sinceramente em que consistiu a contribuição de René
Guénon, cujo caráter fundamental é frequentemente mencionado, o que gera dificuldade em avaliar corretamente a importância de sua obra e de seu papel, ou mesmo sua “função” perante a Tradição.
Esse papel ou “função” é exclusivo de
Guénon, cuja obra e vida fornecem constante lembrança e confirmação exemplar dessa qualificação.
Nada na aparência da vida de
Guénon, nascido em 1886 em Blois em meio católico e formado em matemática, podia indicar que realizaria uma missão tão original.
Ao frequentar todas as escolas de pretensão esotérica em Paris,
Guénon adquiriu amplo conhecimento desse meio, que continha tanto o melhor quanto o pior do ponto de vista espiritual.
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Nesse período,
Guénon beneficiou-se evidentemente do ensino de mestres orientais qualificados.
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A dedicatória de O Simbolismo da Cruz, que menciona Esh-Sheik Abder-Rahman Elish el-Kebir e a data de 1329 H. (1912), ano de sua iniciação no Islã como Abdel Wahed Yahia, atesta essa influência.
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As grandes orientações de sua vida foram tomadas muito cedo, e seu estabelecimento definitivo no Cairo a partir de 1930 não representou uma modificação brusca, mas a continuidade natural de uma vida consagrada ao aprofundamento do “único necessário”.
René
Guénon foi habitado ao longo de toda a sua existência por sua missão doutrinal, estando inteiramente imbuído dessa “função” fundamental para a restituição da metafísica autêntica e da ciência sagrada.
A função de
Guénon, em seu caráter de reafirmação doutrinal, expressa-se com clareza desde seu primeiro livro, Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus (1921), que apresenta as teses basilares de toda a sua obra posterior.
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Essa primeira obra constitui uma profissão de fé e um expositor das bases teóricas fundamentais.
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Guénon recorda a verdade maior, então esquecida até pelos melhores espíritos, da existência de uma “Tradição Primordial” de origem “não-humana” na fonte de todas as tradições da humanidade.
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Os princípios dessa Tradição exprimem-se plenamente no que se denomina “Metafísica universal”, um conhecimento por excelência que ultrapassa todos os sistemas e formas religiosas particulares.
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A metafísica é imutável e universal, constituindo uma unidade essencial, exclusiva da multiplicidade dos sistemas filosóficos e dos dogmas religiosos.