ZOLLA, E. Le meraviglie della natura: introduzione all'alchimia. Roma: Bompiani, 1975
Eu tinha um encontro com quem havia prometido me levar até o alquimista. A hora marcada era na esquina do bazar, o vento descia das montanhas que coroam Isfahan em rajadas rápidas, misturando o cheiro de especiarias e de beterrabas cozidas. Faltavam ainda alguns minutos para o horário e entrei na serpentina do bazar, apinhada, barulhenta – mas com suas ondulações calculadas pelos arquitetos de Shah Abbas sobre uma frase musical, ela adoça a alma. Parei na barraca de um vendedor de ervas e lhe perguntei o que ele tinha de excepcional.
“Excepcional? Agora não tenho mais nada, apenas hena, o que tu vês. Quantos anos tens?”
Eu lhe disse e ele respondeu: “Eu tenho noventa e cinco, quando tiveres a mesma idade, nem terás mais vontade de procurar ervas na montanha”. Dava-se a ele, no máximo, uns cinquenta anos. Ele me olhava com olhos astutos, perguntou: “O que fazes com as ervas?”
“Quero começar a estudar alquimia.”
“Mas, então, experimenta modificar teu corpo, para começar. Renuncia à carne. Alimenta-te apenas dos laticínios da tua vaca ou da tua cabra. Deves cuidar dela tu mesmo e assim a tua essência te será devolvida como quintessência.”
“Então, nem uma erva me dás?”
“Mas por que queres ervas, quando podes ter a quintessência delas? As tuas abelhas te darão isso.”
Mais adiante, afastei uma cortina e me encontrei em uma escola corânica. Eu olhava as caudas vermelhas dos gatos entre a grama do pequeno jardim, pensava em Molla Sadra, o filósofo do século XVII, e em como expor a sua teoria da imaginação, quando saiu de uma pequena cela um velho professor e, depois de algumas cortesias, perguntou-me:
“Molla Sadra é conhecido aí?”
Era agora a hora do encontro, voltei à esquina e pouco depois o intermediário apareceu. Caminhamos por mais de meia hora pelas amplas e barulhentas ruas, depois viramos em uma viela que ladeava um riacho, alargando-se de vez em quando ao redor de uma antiga árvore nutrida pela água corrente. Viramos para uma passagem entre pequenos muros, depois entramos em uma passarela coberta e atravessamos alguns pátios. Uma portinha dá para outra passagem entre muros. Quando entro em uma nova passarela coberta, o intermediário me faz um sinal para abaixar a cabeça, sorrindo. Tudo é silêncio, apenas alguns grasnidos de corvos no ar, certamente eu não saberia encontrar o caminho de volta sozinho. Mais adiante, batemos em uma porta e o ajudante do alquimista aparece. Agora entramos nas casas de propriedade do alquimista, concentradas em um raio ao redor de um pequeno pátio. A primeira sala em que entramos é um depósito de garrafões e de sacos, de onde uma escada íngreme sobe em direção a um alçapão. Dele saímos em um salão mais amplo, ocupado por destiladores e pela superfície negra da água de uma cisterna. “Ele tinha uma píton, que agora está na outra casa”, sussurra o ajudante, escancarando a porta que dá para um terraço. O laboratório se abre para este terraço; o velho envolto em um manto sai para nos receber, com os olhos risonhos no rosto queimado pelo sol. O laboratório é ocupado pelo balão, pelos alambiques, por grandes sacos de juta e por estantes de vasos e garrafas. Uma garrafa logo prende meu olhar, com seu amarelo macio, como que emanando uma luz própria. A sala também é equipada com uma lâmpada azulada para as operações mais delicadas, que a luz impediria.
“Por cinquenta anos eu não fiz nada além de praticar a medicina de Avicena”, começa o velho. “Depois entendi, para modificar um ditado de Ali, que dezenas de milhares de células de vida estão na ponta de um alfinete, e cada uma precisa de seu alimento. Então me dediquei à alquimia. As medicinas alquímicas vão diretamente a essas células de vida, sem que o estômago as digira.”
Eu lhe ofereço um pouco de óleo de enxofre. Ele agradece com a mão no coração e diz:
“Pode-se dizer que se está no caminho quando se sabe fabricar os óleos de enxofre, de mercúrio, de sal, de ouro. Eu trabalho principalmente triturando e dissolvendo as joias.” Com um gesto, seu ajudante se afasta da chaleira para nos mostrar potes cheios de um triturado marrom-celeste: “ágata, rubi”, ele nos indica um por um. Ele desfaz o nó de alguns sacos grandes de juta e aparecem no primeiro os rubis, no outro as ágatas, no outro as pérolas ainda intactas.
“Das cinzas se extraem os óleos”, retoma o velho. “Como faço para dissolver as joias? Eu as coloco em água régia por um certo período, depois as martelo até ficarem incandescentes, e para resfriá-las, derramo sobre elas um cozimento de ervas do deserto. Depois da décima oitava vez, elas começam a amolecer. Outras soluções as amolecem ainda mais e chega-se a liquefeitá-las.” Os anais do mundo antigo falam de Cleópatra e de Nero que bebem pérolas e outras joias. O velho mostra um garrafão cheio de um líquido espesso e esmeralda: “É óleo de rubi, o mais quente. Para administrá-lo, é preciso corrigi-lo sem diminuir o efeito – eu o misturo com destilado de flores de natureza fria, como as de cerejeira ou de pessegueiro. Com uma mistura de óleos, curo o câncer de mama, eles atraem e extraem todas as raízes. Com outro composto, alivio a ferida.”
O ajudante serve o chá. O velho me convida a adoçar. “Mais, mais”, ele ordena, quando eu chego à décima pedra de açúcar. Ele vai pegar a garrafa que continuou a atrair meus olhos desde que entrei e derrama com um conta-gotas duas gotinhas amareladas na minha xícara. “Ouro líquido.”
O sabor? Ácido e ao mesmo tempo suave, amargo e requintado, persistente por um tempo com uma variedade de modificações e de repente se apaga. Algo semelhante à mistura que Ali Akbar Sakkoboshi recomenda em seu Guia para a libertação da morte artificial (uma edição foi publicada em 1970 em Teerã), ao lado de botões de rosa e sementes de cominho, como terceira panaceia: o suco de uva verde, o mais impregnado de sol e ainda sem açúcar, misturado com destilado de hortelã, medicina eletiva para fortalecer o sangue e interromper os fluxos das mulheres.
O velho faz o óleo de ferro, enegrecido, com uma potência quente, imensurável, ser cheirado. “O centro do ferro é ouro. Por fora é como prata.” Ele de fato enferruja como a prata escurece.
“E o estanho?” Eu pergunto.
“Está pronto para se tornar prata.”
Um lama tibetano, Lobsang Lhalungpa, me ensinou que para compreender um caminho há uma chave, a pergunta: “O que fazes com os teus sonhos?”
“Os sonhos muitas vezes me indicam os processos a seguir. Eu leio o Alcorão à noite e me proponho a fazer as doze mil invocações ao Profeta por doze noites. Em uma das noites, sonho, vejo pessoas que realizam as operações. Senão, vejo em sonho símbolos. Vou a um doutor da lei que interpreta sonhos, sem lhe dizer que sou um alquimista e ele me dá espontaneamente indicações alquímicas. Não conheci alquimistas que não procurassem refúgio no Décimo Segundo Imã, o Imã oculto, o Imã do último dia. Os três mestres que conheci pediam conselho ao Imã para cada problema alquímico, retirando-se por quarenta dias para fazer invocações e por todo esse tempo, mantendo-se a uma dieta exclusivamente de zibibo, tâmaras, algumas qualidades de nozes, arroz e água.”
“O retiro de quarenta dias do sufismo!” exclama minha guia. Ele está completamente transformado pela descoberta e pela afinidade de seu caminho com este outro, alquímico.
“Quarenta anos atrás”, diz o velho, “subtraíram de mim dois milhões de toman que eu havia destinado à construção de um hospital. Eu estava desesperado. Fui ao cemitério e rezei para o Décimo Segundo Imã. Um dia, um homem de turbante preto apareceu na minha porta e me disse: 'Eu vim para te guiar'. E apontou sete das medicinas dispostas ao redor nas estantes. Ele me ordenou que as pulverizasse e as derramasse em um cadinho. Prescreveu o mesmo regime de fogo que se precisa para dissolver a prata. De repente, ele ordenou que a operação fosse parada. Quando o cadinho esfriou, ele ordenou que fosse mergulhado na água e quebrado com marteladas. De lá saiu uma noz muito preta. Ele ordenou que fosse quebrada com marteladas. De lá saiu uma bolinha vermelha de ouro. 'É para os pobres', ele disse. Eu o supliquei para que eu pudesse transcrever o que eu havia feito e ele respondeu que apenas os santos têm o segredo e quando Deus quer que seja transmitido, o Décimo Segundo Imã vem para ensiná-lo. Ele voltou cinco dias depois e a mesma cena se repetiu. Quando quebrei a noz muito preta, de lá saiu uma bolinha de platina. Ele a colocou no bolso e me perguntou: 'Entendes agora o poder de Deus? Acaso toquei em algo? Eu permaneci sentado na cadeira. Tu deves servir as pessoas como médico'. Ele me ensinou seis coisas que me eram caras, mas o processo de fabricação do ouro e do platina eu nunca pude me lembrar. Na verdade, quando era jovem, eu não fiz nada além de prescrever medicinas segundo a doutrina de Avicena. Eu estava sempre imerso nos exercícios espirituais, não pecava, não comia carne, nunca deixava meus olhos vagarem, e cheguei ao ponto de que quando batiam na porta, mesmo antes de abrir, eu sabia quem era. Depois me casei e o mundo me atraiu: perdi todas as inspirações. Depois, peguei o caminho alquímico. Os mestres eram todos santos e todos inspirados pelo Imã. Quero, antes que te vás, contar-te a história do grande Mir Damad e do sapateiro.
Mir Damad viu um dia um sapateiro muito, muito miserável e teve pena dele, pôs a mão no martelo do pobrezinho, convertendo-o em ouro.
'E agora podes vendê-lo', disse Mir Damad. 'Por que eu deveria?' perguntou o sapateiro, 'tu faze-o voltar a ser ferro, em vez disso. Por que o mudaste para ouro, já que não sabes fazê-lo voltar ao estado natural?'
Mir Damad ficou mortificado. Então o sapateiro lhe disse para pulverizar um grumo de soro de leite seco. Enquanto Mir Damad o fazia, sua alma saiu do corpo, vagou pela Europa e foi parar onde um homem estava dando ordens contrárias ao Islã; então ele gritou: 'Pára com isso!'. O sapateiro, por sua vez, gritou para ele: 'Mói o teu grumo de soro!'. E acrescentou: 'Eu te disse para moer o soro, não para vagares pela Europa. Se queres chegar ao ponto de poder vagar pela Europa e ao mesmo tempo moer o grumo de soro, deverás exercitar-te e estudar por muito tempo!'. Então Mir Damad pediu para se tornar o discípulo do sapateiro e este reconverteu o martelo em ferro. Bastou-lhe lançar o olhar.
Ou seja, significa que seu próprio corpo havia se tornado alquímico. E que ele havia alcançado o estado em que operava as transmutações com o olho.”