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O ANJO DA FACE

ALLARD L'OLIVIER, André. L'illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977

O sânkhya-darshana — um dos “seis pontos de vista” da tradição hindu — afirma, entre o ser individual e o ser divino (Ishwara), um princípio supraindividual do qual dependem todos os indivíduos humanos, mas “produzido” por Prakriti, o poder operacional do Ser divino. Não ignoro as distinções que convém estabelecer, e que René Guénon expôs magistralmente em O Homem e seu destino segundo o Vedanta, entre Ishwara, Purusha e Brahma; e sei também que Prakriti, poder operacional de Purusha, é igualmente, na ótica hinduísta, o princípio “plástico” (como diz Guénon), a Natureza primordial que produz todos os seres manifestados.

Mas minha intenção, ao escrever estas linhas, não é resumir, apoiando-me em Guénon, a doutrina do sânkhya, e sim tentar lançar alguma luz, se possível, sobre o princípio supraindividual chamado Buddhi, produzido pelo poder operacional do Ser divino. Será, portanto, permitido deixar de lado todos os aspectos secundários desta questão, por mais importantes que sejam. Em relação ao projeto que formulei, o essencial é saber: 1) que Buddhi é produzida (diríamos: criada) e que é mesmo a primeira produção de Prakriti; 2) que este princípio é o “Intelecto superior” (a expressão é de Guénon), comum a todos os indivíduos humanos.

Dois problemas, estreitamente ligados entre si, se colocam aqui: de um lado, o do Intelecto agente “separado”, pois Buddhi é intelecto; de outro, o do Anjo da Face, intermediário entre o indivíduo humano e Deus. Se é verdade que, pelo lado interno de seu espírito voltado para Deus, o homem — a pessoa humana — está “ligado à unidade divina”, como diz Ruysbroeck, como explicar que uma doutrina tradicional exponha que um princípio intelectual (e angélico), comum a todos os homens, esteja situado entre estes e Deus?

Não seria que a doutrina em questão, ao referir-se a Buddhi, descreve uma função entre o homem individual e Deus — função exercida originalmente por um anjo, e depois pelo próprio Verbo encarnado, que, após sua ressurreição, está sentado no Céu à direita do Pai? Mas que anjo é esse, e como foi destituído?

No princípio, Deus, tendo criado os anjos, colocou “o mais belo e o maior dentre eles” entre o homem e Ele mesmo; e, nessas condições, no princípio, a luz existencificadora divina só atingia a criatura humana por intermédio do Anjo regente do universo. O que equivale a dizer que, ainda que dotado de espírito, tendo sido criado à imagem de Deus, o homem, no princípio, não dispunha daquele Olho do Coração que significa a unidade humano-divina de que fala Ruysbroeck, e estava ligado a Deus apenas por meio de um intelecto angélico.

Esse anjo — o Anjo da Face divina — é chamado Lúcifer, isto é, etimologicamente, o Portador da Luz; e é de fé que esse Anjo, tendo sido reprovado, foi destituído e se tornou Satanás, o que significa o Adversário. A queda dos anjos — pois Lúcifer arrastou em sua queda parte das criaturas angélicas — precede a queda do homem, e esta foi tanto mais possível quanto, Lúcifer tendo decaído, o homem se encontrou imediatamente diante de Deus e virtualmente em posse do Olho de seu coração.

Lúcifer-Satanás, portanto, incitou o homem à desobediência para que esse Olho se abrisse (“Comei deste fruto, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.” — Gênesis 3,5). Quando a desobediência foi consumada, o Olho do Coração de Adão de fato se abriu, pois, o Anjo regente tendo sido destituído, já não havia intermediário entre Deus e o homem; e Adão tornou-se como Deus, no sentido de que suportou, sob o regime da Severidade, a identidade existencial.

Mas imediatamente Deus interveio e desenvolveu o plano que, em sua presciência, havia determinado: o Verbo, para a salvação dos homens, tornar-se-á carne. O Homem-Deus, que exonera o homem da insuportável Severidade da identidade convidando-o à severidade suportável da Cruz, será o intermediário, a Ponte, entre a Realidade divina e a irrealidade humana.

Se Lúcifer não tivesse pecado, e se Adão e sua descendência tivessem permanecido na obediência, o homem teria sido conduzido a Deus pelo próprio Lúcifer. Desde a queda do Anjo, é pelo Homem-Deus, o Cristo Jesus, que no Céu ocupa o lugar de Lúcifer, que o homem é conduzido ao Pai; é ele, o Cristo Jesus, que é a Ponte — o Pontífice, o Sumo Sacerdote — e que justifica a existência humana. Isso, é verdade, não se deu num instante: toda a história humana é significada por esse mistério.

Há, pois, entre o homem e Deus, um mediador, ao qual o hinduísmo dá o nome de Buddhi, e que é ora um anjo, ora o Homem-Deus, isto é, a Shekinah inferior e superior. A queda de Lúcifer operou, primeiro virtualmente, depois realmente, a unidade humano-divina de que fala Ruysbroeck e com ele todos os espirituais cristãos.

Convém, então, de modo admirável, que o Mediador seja — não mais um anjo — mas Alguém que seja Deus e, ao mesmo tempo, um homem. Compreende-se, desde então, o caráter ambíguo de Buddhi e, na tradição judaica posterior à Encarnação (onde o Cristo é desconhecido), o de Metatron.

Na Cabala, Metatron apresenta-se com os atributos próprios do Anjo da Face e, ao mesmo tempo, com os da Shekinah. “A Cabala — escreve Vulliaud — dá à Shekinah um par que traz nomes idênticos aos seus e, por conseguinte, possui as mesmas características.” Esse par é Metatron.

Mas esse desdobramento é, no fundo, apenas aparente, e o modo de escrever o nome Metatron em hebraico o indica suficientemente: “Escrito com um iod, designa a Shekinah; sem iod, designa o anjo servidor de Deus.”

Quem é esse Anjo servidor de Deus? Lúcifer, antes da queda. É importante não esquecer jamais que há, na Cabala, uma confusão constante entre o Anjo da Face e o Verbo ou Logos. Segundo a Cabala, o nome de Lúcifer, antes da queda, era Ha-Kathriel, o que significa “o Anjo da Coroa” (isto é, de Kether, a mais elevada das sephiroth). Ora — curiosidade cabalística, diria o autor da Cabala Judaica —, o valor numérico do termo Ha-Kathriel, calculado segundo o método da guematria, é também o de Samael, o aspecto obscuro e demoníaco de Metatron, isto é, 666, o número mesmo da Besta no Apocalipse.

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