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CULTO DE SÃO MIGUEL

ALLEAU, René. Enigmes et symboles du Mont Saint-Michel. Paris: Julliard, 1970

Na época carolíngia, o culto de São Miguel era o mais importante do Império das Gálias. Carlos Magno havia proclamado o Arcanjo Patronus et Princeps Imperii Galliarum, “Protetor e Príncipe” de seus povos. Em 1066, Guilherme, o Conquistador, esperou o fim do mês de setembro, apesar dos perigos das marés de equinócio, para fazer coincidir sua expedição contra a Inglaterra com a data da festa sagrada de São Miguel. Em 1210, Filipe Augusto havia criado a Confraria de “Saint-Michel-de-la-Mer”, para os peregrinos. São Luís visitou o santuário duas vezes, em 1256 e 1264; moedas foram cunhadas com a efígie de São Miguel, cuja estátua coroa a agulha da Sainte-Chapelle. Filipe III, o Audaz, por volta de 1270, e Filipe, o Belo, em 1311, respeitaram essa tradição, seguida por muitos jovens “Pastoureaux”, depois pelos reis Carlos VI, em 1393, e Carlos VII, Luís XI, em 1462, e Carlos VIII, finalmente, em 1488. Mas o século XVI já marca o fim das peregrinações reais ao Monte Saint-Michel. Francisco I visitou o santuário em 1518. Carlos IX, em 1561, foi o último dos reis da França a cumprir essa peregrinação tradicional.

No século XVII, no entanto, esse costume ainda era respeitado pelo povo; ia-se ao Monte “em companhia, com bandeiras e tambor”. No século XVIII, encontravam-se lá principalmente, dizem os cronistas, “jovens de baixa extração que vão em bandos, no verão”; o “Dicionário de Trévoux” e Piganiol de la Force mencionam apenas esses humildes visitantes, alguns dos quais aproveitavam para “mendigar” durante a estação boa. Os costumes e as ideias da época não eram mais favoráveis a essas devoções. Ninguém se opôs seriamente, em 1791, ao saque e à dispersão das estátuas de ouro e prata, dos vasos sagrados, das preciosas relíquias, nem à destruição de documentos de valor histórico inestimável. A venerável abadia foi transformada em prisão e sofreu mutilações de todos os tipos até o decreto de 1863, que pôs fim à sua conversão em “casa central de força e correção”, que foi desde Luís XVIII até o Segundo Império. Como para acrescentar a esses desastres, durante a última guerra, os arquivos do Monte Saint-Michel foram incendiados em Saint-Lô, em 6 de junho de 1944.

Diante da extensão dessas ruínas, os progressos de nossos conhecimentos arqueológicos permitiram, certamente, reconstituir grande parte da história do Monte Saint-Michel, mas muitos aspectos dessa pirâmide cristã permanecem enigmáticos e mal explorados pelos pesquisadores, particularmente no domínio do hermetismo cristão e da simbólica monumental. É mais cômodo, sabe-se, negar que esses aspectos possam ser descobertos do que buscar seus vestígios e interpretá-los com exatidão. Nesse ponto de vista, é preciso desconfiar, com razão, tanto da imaginação excessiva dos “ocultistas”, que veem mistérios onde não existem, quanto da censura sistemática de um “cientificismo” histórico abusivo. Entre a credulidade e o ceticismo, uma atitude crítica justa deveria permitir compreender mais profundamente as relações que puderam se estabelecer, em lugares predestinados, ao longo de uma lenta evolução, entre tradições religiosas diversas que puderam se opor e combater sem jamais se destruir completamente nem definitivamente. À medida que o sentimento religioso se eleva e se aprofunda, ele se desprende pouco a pouco de suas estruturas primitivas, mas continua por muito tempo a encontrar nelas poderosas fundações e a repousar sobre suas criptas, qualquer que seja a sombra na qual a religião dominante as mantém doravante recobertas e escondidas.

Nenhum historiador contesta mais, atualmente, que o culto de São Miguel, na França, tenha encontrado suas raízes nos mitos cavaleirescos do gênio celta. Mas ainda é importante compreender que a cavalaria antiga e medieval, que não deve ser confundida com a feudalidade, era iluminada pela ciência e pela filosofia esotéricas da Gnose tanto quanto pela prática de virtudes morais como o heroísmo e o senso de honra. Nessas condições, como não admitir que o santuário do Monte Saint-Michel não foi apenas um lugar de peregrinações e orações, mas também um centro de “Alta Ciência”, numa época em que o hermetismo irradiava por toda a Europa e em que se edificou, em vinte e seis anos, a “Maravilha”?

Pouco tempo antes, quando o arco ogival começava a suceder ao arco de meio-ponto românico, o filho genial de um camponês de Jersey, Robert Wace, que, apesar dos anglicistas, se chamava a si mesmo Vaice, da Ilha de Gersui, compunha os primeiros monumentos literários da língua d'oïl, em Bayeux, entre 1160 e 1174. No Monte Saint-Michel, entre 1154 e 1186, o sábio iniciado que foi o abade Robert de Torigni cobriu as subestruturas românicas com trabalhos arquitetônicos tão notáveis quanto o extraordinário brilho cultural, político e religioso do Monte, nessa época. Não foi, sem dúvida, por acaso que Robert de Torigni, em latim Torignei, consagrou, já nos dois primeiros anos de seu governo abacial, um altar à Virgem na cripta do Aquilon, em 16 de junho de 1156, isto é, na cripta do Norte, e fez construir, segundo o testemunho de Dom Jean Huynes, “os edifícios abaixo e acima da capela Santo Estêvão, que é contígua à Capela Notre-Dame-sous-terre”. “E, o que é ainda mais lamentável”, acrescenta Huynes, depois de assinalar, em 1300, a queda de uma torre construída no tempo de Torigni, “é que ele havia feito sua biblioteca em um andar dela, onde havia colocado os livros que havia composto, os quais quase todos se perderam…”

Com o priorado de Torigni, cuja fama foi tão grande que o chamaram de “Robert do Monte”, e sob cuja administração os monges atingiram o número de sessenta, que nunca foi ultrapassado, São Miguel parece acrescentar a seus atributos sagrados anteriores a função de protetor das artes, das ciências e das letras. Os beneditinos estenderam então seus estudos escriturísticos e teológicos a todos os conhecimentos de seu tempo, assim como à cópia e iluminura de manuscritos antigos, pagãos e cristãos.

Uma das ideias fundamentais da Idade Média, de fato, foi a busca de uma revelação originária que, subsistindo no mundo antigo, teria feito dele uma prefiguração do universo cristão. Esse tema cultural e religioso não cessou de inspirar então grandes espíritos que se tornaram, em função mesmo de sua busca desse saber universal e de sua atividade de construtores, os depositários das tradições científicas e artísticas, pagãs e cristãs, que se esforçaram para conciliar em uma nova Gnose ocidental com as exigências do dogma e a defesa da fé.

Pelo menos era preciso que a influência de um Robert de Torigni fosse bastante poderosa para conseguir convocar o concílio de Avranches onde, em 1172, o rei Henrique II da Inglaterra, em expiação pelo assassinato de Thomas Becket, veio fazer amenda honrosa, ajoelhado sobre uma lápide, à entrada da catedral. O báculo do cajado de cornus do sábio abade do Monte não tinha então senão uma simples voluta de chumbo, mas, no disco do mesmo metal, encontrado no caixão de Robert de Torigni em 1875, pode-se ver, no reverso, um símbolo sobre o qual nenhum historiador deu explicação. Esses quatro segmentos de círculo entrelaçados dois a dois formam em seu centro uma quinta figura marcada por um ponto: símbolo tradicional do Peixe místico das catacumbas romanas, mas também da Quintessência solar, da qual o Adepto cristão tirava o poder de suas chaves e a alta autoridade espiritual que se acrescentava à sua dignidade sacerdotal.

Nessa perspectiva, que hermético não reconheceria, além das aparências materiais do Monte Saint-Michel, a imagem do arquétipo místico e experimental que ele evoca? Eis, a esse respeito, uma lenda extraída de uma obra intitulada O Livro de Seth e que um autor do século VI relata nestes termos:

“Ouvi algumas pessoas falando de uma Escritura que, embora pouco certa, não é contrária à fé. Lê-se nela que existia um povo no Extremo Oriente, às margens do Oceano, entre o qual havia um livro atribuído a Seth, que falava da aparição futura de uma estrela e dos presentes que se deviam levar à Criança, predição transmitida por gerações de Sábios, de pai para filho.

“Escolheram doze entre eles, os mais sábios e amantes dos 'mistérios dos céus', e os constituíram para a espera dessa estrela. Se alguém deles morresse, seu filho ou o parente próximo que estivesse na mesma expectativa era escolhido para substituí-lo. Chamavam-nos, em sua língua, Magos, porque glorificavam Deus em silêncio e em voz baixa.

“Todos os anos, esses homens, depois da colheita, subiam a um monte que, em sua língua, se chamava Monte da Vitória, o qual continha uma caverna escavada na rocha, agradável pelos riachos e árvores que a cercavam. Chegando a esse Monte, lavavam-se, oravam e louvavam Deus em silêncio durante três dias; isso praticavam em cada geração, sempre na espera de ver se, por acaso, essa estrela da felicidade não apareceria durante sua vida. Mas, no fim, ela apareceu nesse Monte da Vitória, sob a forma de uma pequena criança e apresentando a figura de uma cruz; falou-lhes, instruiu-os e ordenou-lhes que partissem para a Judeia. A estrela os precedeu durante dois anos; nem o pão nem a água lhes faltaram jamais em suas viagens. O que fizeram depois é relatado resumidamente no Evangelho.”

Poder-se-á encontrar relações úteis entre esse misterioso Monte da Vitória, o Monte-Joie, caro aos franceses, e o Monte Hermon, evocado durante a iniciação dos Templários, e sobre o qual aparecem o Orvalho celeste e o Bálsamo de Aarão. Não é bastante significativo constatar, por exemplo, que o célebre alquimista Nicolas Flamel, cuja famosa peregrinação a Santiago de Compostela pode ser considerada uma sábia alegoria, pertencia, na realidade, a uma confraria de Peregrinos de São Miguel do Monte do Mar, fundada em Paris nos primeiros anos do século XIII? O historiador Corrozet indica, aliás, que a capela de São Miguel, no Enclausurado do Palácio, em Paris, foi chamada anteriormente Capela de São Nicolau. A pertença de Nicolas Flamel à confraria de São Miguel foi assinalada pelo historiador S. J. Morand, em sua História da Sainte-Chapelle Real do Palácio, publicada em Paris no século XVIII. Na Idade Média, duas peregrinações foram simultaneamente frequentadas: a de Notre-Dame-la-Gisante, em Tombelaine, e a de São Miguel, no Monte. Num ensaio do século XIV, pode-se notar o traje da “Virgem de Tombelaine”, uma cota ousada ou sobretudo, muito justa no peito, e deixando ver lateralmente o cinto ferrado, na parte inferior do corpete.

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