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INTERPRETAÇÃO GUENONIANA DO CRISTIANISMO É LEGÍTIMA?

BORELLA, Jean. Ésotérisme guénonien et mystère chrétien. Lausanne: L’Age d’Homme, 1997.

  • A obra de Guénon consolida-se no século vinte como a expressão máxima do esoterismo tradicional, sendo atestada por historiadores como Antoine Faivre e admirada por leitores cristãos por reavaliar a nobreza da religião frente ao racionalismo moderno.
    • A ciência e a filosofia modernas são classificadas como um saber ignorante em comparação com o verdadeiro conhecimento religioso.
    • A abrangência de seu gênio intelectual ultrapassa as correntes de pensamento ilustradas desde o início do século dezenove.
  • A recepção da doutrina guenoniana por parte considerável dos cristãos ultrapassa o mero aproveitamento de seus ensinamentos sobre simbolismo, elevando-a a uma grade de interpretação definitiva que neutraliza e desqualifica a compreensão da Igreja Católica sobre si mesma.
    • A Igreja é reduzida a um puro exoterismo ignorante de seus próprios tesouros metafísicos e da natureza profunda de seus ritos.
    • A aplicação da distinção real entre esoterismo e exoterismo força uma reinterpretação geral do cristianismo segundo os critérios dessa doutrina iniciática.
  • O fenômeno comportamental dos chamados cristãos guenonianos suscita o problema fundamental acerca da legitimidade de se adotar tal postura interpretativa para condicionar a fé.
    • A formulação da questão exige que se encare a guenonização do cristianismo como um processo que não é autoevidente nem incontestável.
    • A necessidade de questionamento atua como o objeto central e prejudicial da referida investigação.
  • O problema inicial a ser enfrentado recai sobre a relação entre a hermenêutica e a revelação, questionando a validade de se utilizar um pensador muçulmano para compreender o cristianismo nos mesmos moldes em que Tomás de Aquino utilizou o pagão Aristóteles.
    • A doutrina de Guénon é erigida à condição de hermenêutica suprema da revelação cristã.
    • A premissa argumentativa baseia-se na ideia de que toda revelação exige inevitavelmente uma interpretação externa para ser inteligível.
  • O impasse levantado configura o problema mais elementar enfrentado pelo crente filósofo ao buscar conciliar a universalidade natural da inteligência hermenêutica com a singularidade sobrenatural da revelação.
    • O aspecto abordado restringe-se à interação direta entre o ato de crer e o ato de pensar frente às propostas formuladas por Guénon.
    • A questão representa um desafio imenso e essencial para a integridade da compreensão religiosa.
  • A linguagem religiosa exige intrinsecamente uma hermenêutica especulativa ou uma metalinguagem de natureza intelectual para que a revelação objetiva ganhe sentido e seja ativamente assimilada pelos seres pensantes.
    • A vida religiosa ordena-se dinamicamente entre o polo da revelação que mostra fatos e o polo da hermenêutica que compreende significados.
    • A ausência da hermenêutica esvazia a revelação de sentido existencial, assim como a ausência da revelação deixa a hermenêutica sem um objeto concreto de análise.
  • O discurso especulativo funciona em princípio como sua própria metalinguagem e prescinde de linguagens explicativas secundárias mesmo quando se altera o sistema metafísico de base, a exemplo das transições entre os pensamentos de Platão, Aristóteles e Shankara.
    • A interpretação comporta um caráter indefinido tanto em sua extensão abordada quanto em sua intensidade explicativa exaurível.
    • As explicações de segunda ordem utilizam invariavelmente os mesmos recursos sintáticos e vocabulares da linguagem metafísica primeira estabelecida.
  • A essência da intelecção caracteriza-se pela inteligibilidade de si mesma e pela transparência semântica total, dispensando um ciclo infinito de explicações formais exógenas no exato momento em que a inteligência assimila o seu objeto.
    • O ato intelectual fala sua própria língua e conhece a si mesmo de modo simultâneo ao processo de conhecimento do alvo focado.
    • A impossibilidade de produzir uma explicitação absoluta culmina no enfrentamento solitário e direto da inteligência perante o objeto captado.
  • A transparência da inteligência não resulta em autossuficiência, necessitando invariavelmente do confronto com a alteridade de um objeto recebido através de uma revelação sobrenatural ou natural para atestar sua própria identidade e operação.
    • O conhecimento de si operado pela inteligência subordina-se de maneira estrita à ação desencadeada pelo objeto a ser conhecido exteriormente.
    • A metafísica atua como língua natural da inteligência pura, mas carece de substância sem a revelação oriunda dos ditames da religião ou da observação da criação.
  • A transição da inteligência pura para os discursos metafísicos elaborados pelas culturas humanas introduz uma pluralidade incontornável que impede terminantemente qualquer doutrina de se arvorar como o super-discurso normativo e definitivo aplicável a todos os demais.
    • A equivalência rigorosa entre os discursos inexiste em virtude da inseparabilidade fundante entre a forma expressiva adotada e o conteúdo intencionado.
    • A capacidade relativa de tradução conceitual atesta a busca por uma mesma Verdade orientadora e essencialmente inatingível no plano estritamente doutrinal e formulado.
  • A recusa em estabelecer um discurso normativo final assenta-se em uma humildade especulativa ontológica demonstrada por pensadores como Platão, Damáscio, Nagârjuna e Mestre Eckhart, segundo os quais a palavra só tangencia o inefável ao denunciar ativamente as limitações de seu próprio enunciado.
    • A atitude de apagamento não deriva de mera cautela psicológica transitória, mas da sombra imutável imposta pela transcendência absoluta sobre os limites da palavra.
    • A ausência de uma doutrina suprema explícita sujeita invariavelmente os discursos de viés negativo ou niilista a riscos de contrassensos teológicos inescapáveis.
  • A transcendência do inefável abre o campo inexorável para a pluralidade de fato das tradições metafísicas, revelando que a tradutibilidade universal possui limitações inerentes e que as linguagens intelectuais abrigam capacidades hermenêuticas diversificadas e singulares para expressar a revelação.
    • A multiplicidade doutrinal não atua como um mero acidente extrínseco desprovido de finalidade e destinado apenas a atestar a unanimidade tradicional das raízes.
    • A perda ou a alteração de sentido durante o processo de tradução exige frequentemente a preservação rigorosa e a utilização dos termos textuais originais.
  • A inexistência de uma doutrina universal e absoluta impõe ao crente o dever de cultivar uma virgindade intelectiva que permita à Palavra divina ressoar soberanamente em sua própria modalidade hermenêutica intrínseca e original.
    • Toda revelação traz em si uma compreensão de si mesma desejada pela vontade de Deus e enraizada perfeitamente na inteligência do receptor.
    • O aprendizado de linguagens metafísicas deve servir para preparar o terreno do intelecto sem jamais substituir o grão impoluto da Palavra divina pelas construções do discurso humano.
  • O exame crítico das teses de Guénon sobre o esoterismo cristão esbarra na postura de leitores que exigem a tradução prévia dos dados do cristianismo para as categorias guenonianas, negando simultaneamente a revelação transmitida por Cristo e a validade de sua respectiva Igreja.
    • A suposição de que a instituição eclesiástica ignora o sentido daquilo que professa anula inteiramente a garantia divina da transmissão conciliar e da autoridade escriturística.
    • O comportamento sistemático de subordinação da linguagem revelada a uma grade de leitura elitista e externa causa um profundo espanto teológico e metodológico.
  • A admissão de que o referencial hermenêutico de Guénon possa fornecer chaves compreensivas úteis sobre o simbolismo e o mundo moderno, nos moldes antigos de Platão e Aristóteles, condiciona-se obrigatoriamente à preservação inalienável da doutrina da fé formulada textualmente pela Escritura e pela autoridade divina.
    • A redução explícita dos mistérios cristãos dogmáticos, como a Trindade e a encarnação, a meras manifestações exotéricas de verdades esotéricas cria embaraços teológicos de grande escala.
    • A necessidade imperativa de perscrutar o pensamento de Guénon repousa na constatação de sua extensa dedicação reflexiva ao tema do esoterismo cristão e à natureza dos sacramentos.
  • A análise apurada do esoterismo cristão requer o delineamento prévio do próprio conceito de esoterismo a fim de evidenciar suas funções históricas e extrair as consequências de seus desvios principais rumo à absolutização desencarnada ou ao enrijecimento institucional secreto.
    • A absolutização distorcida manifesta-se em movimentos religiosos sectários que reivindicam o usufruto exclusivo das realidades do puro espírito.
    • O enrijecimento institucional revela-se materialmente na atração sedutora por hierarquias clericais paralelas e na submissão a organizações operantes de forma clandestina.
  • O confronto objetivo das teses de Guénon com a realidade do Novo Testamento, da literatura eclesiástica primeva e da teologia católica culmina no reconhecimento da necessidade absoluta de um espírito esotérico autêntico e plenamente abrigado no mistério central de Cristo.
    • O rechaço conceitual restringe-se estritamente ao que se mostra flagrantemente incompatível com a verdade cristã essencial sem resvalar de modo algum para um anti-guenonismo cego e sistemático.
    • A perspectiva esotérica legítima confunde-se inseparavelmente com a busca primordial pela interioridade espiritual e pela autêntica via do coração salvaguardada ininterruptamente pela tradição viva.
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