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CASAMENTO QUÍMICO

  • O casamento do enxofre e do mercúrio, do Sol e da Lua, do Rei e da Rainha, é o símbolo principal da alquimia, e por seu significado esta se diferencia adequadamente tanto da mística quanto da psicologia.
    • A mística afirma que a alma se afastou de Deus para entregar-se ao mundo e deve retornar à união com Ele descobrindo em si mesma Sua Presença imediata.
    • A alquimia funda-se na ideia de que, com a perda da graça original, o homem se encontra dividido interiormente e não recupera sua integridade até que se reconciliem as duas forças cuja discórdia o enfraqueceu.
    • A cisão interna do homem é consequência de seu afastamento de Deus, assim como Adão e Eva não perceberam suas diferenças até que pecaram; inversamente, a recuperação da natureza completa do homem, que a alquimia expressa com a imagem do andrógino, é condição prévia ou fruto da união com Deus.
  • A relação entre homem e Deus pode representar-se por uma linha vertical, e a relação entre as duas forças da alma por uma linha horizontal, obtendo-se a figura de um T invertido, em cujo centro a linha horizontal toca o eixo vertical do espírito que une a alma a Deus.
    • No polo masculino corresponde todo o conhecimento ativo, e no feminino todo o ser passivo; ao polo masculino pode atribuir-se a consciência dominada pelo pensamento, enquanto as forças e faculdades instintivas ligadas à vida expressam o polo feminino.
    • Essa distinção aproxima-se da que a psicologia moderna faz entre consciente e inconsciente, criando a tentação de interpretar o casamento químico, expressão de Valentín Andreae, como simples integração de forças psíquicas inconscientes na consciência individual.
  • O verdadeiro casamento das duas forças da alma só pode consumar-se no ponto em que o espírito transcendente incide em seu plano comum, o que significa que o eu que a psicologia moderna considera núcleo da personalidade é, segundo todas as tradições espirituais, precisamente o muro que separa a consciência da luz do espírito puro.
    • O casamento químico não é uma individuação no sentido de um processo pelo qual o eu imprime sua forma peculiar e limitada a uma série de impulsos coletivos.
    • A consciência humana só pode exercer verdadeiro poder sobre o tempestuoso mar do inconsciente se nela atua uma força criadora procedente de uma esfera superior à da consciência individual, esfera que em si é uma luz diáfana e perfeita, inacessível à observação psicológica.
    • A psicologia, como toda ciência empírica, está submetida ao pensamento racional e não pode sair de si mesma para penetrar em sua própria fonte de luz, do mesmo modo que não se pode iluminar o Sol com um espelho.
  • A consciência individual encontra-se entre dois campos do inconsciente: um inferior, potencial e amorfo; outro superior, que só visto de baixo aparece impenetrável, mas que na medida em que atua no campo psíquico doma e assimila a força natural do inconsciente inferior.
  • O processo alquímico tem significado duplo e ambivalente: o desenvolvimento das forças primordiais da alma, o enxofre masculino e o mercúrio feminino alcançado mediante a concentração espiritual, pode refletir o espírito inacessível ao pensamento na medida em que abarca campos instintivos e naturais.
    • A Natureza em seu aspecto inacessível ao pensamento é o reflexo inverso do espírito criador, conforme a lei da Tábua Esmeralda segundo a qual o que está abaixo corresponde ao que está acima.
    • A receptividade feminina alcança seu apogeu e enlaça diretamente com o ato masculino triunfante apenas no espírito, onde as forças primordiais realizam sua plenitude.
    • A presença imediata do espírito num homem atua sobre todo o ambiente espiritual e, por meio deste, sobre as circunstâncias materiais, o que pode explicar certos fatos miraculosos no âmbito dos santos.
  • Completando o esquema em forma de cruz, a parte superior do mastro vertical indica a origem da luz espiritual; o extremo inferior mergulha na escuridão da natureza inconsciente; os braços medem o desenvolvimento das duas forças psíquicas polares.
    • Mediante a reconciliação ou casamento dessas forças, desaparece também a oposição entre cima e baixo à medida que a escuridão é dissipada pela luz.
    • As duas serpentes que sobem ao mastro da cruz e se encontram no travessão para converter-se numa serpente única erguida na cruz simbolizam como a Natureza escura se converte em Natureza iluminada.
  • O casamento das duas forças psíquicas conduz finalmente às bodas do espírito e da alma, e como o espírito é Deus nos homens segundo o Corpus Hermeticum, essa última união é afim ao matrimônio místico.
    • Sol e Lua podem representar as duas forças psíquicas do enxofre e do mercúrio e ao mesmo tempo são imagens do espírito e da alma, de modo que os símbolos alquímicos têm significado múltiplo.
  • O símbolo do matrimônio está estreitamente unido ao da morte: o Rei e a Rainha morrem no momento das bodas e são enterrados juntos para ressuscitar rejuvenescidos, pois todo enlace pressupõe a extinção do estado anterior diferenciado.
    • Uma antiga tradição associa sonhar com casamento a presságio de morte e sonhar com enterro a augúrio de casamento.
    • No casamento entre homem e mulher, cada contraente renuncia a uma parte de sua individualidade; na morte, à separação inicial segue a união do corpo com a terra e da alma com sua essência original.
    • No casamento químico, o mercúrio incorpora-se ao enxofre e vice-versa: ambas as forças morrem como antagonistas, e a lua da alma, variável e refletora como espelho, une-se ao imutável sol do espírito, quedando ao mesmo tempo extinta e iluminada.
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