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ENXOFRE – MERCÚRIO – SAL
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A identificação de enxofre e mercúrio como símbolos de duas forças criadoras primárias apoia-se em sua função metalúrgica, pois atuam sobre os metais e, ao mesmo tempo, são “espíritos” voláteis.
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O mercúrio transita entre corpo e espírito por poder ser sólido, líquido e volátil.
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O enxofre mostra caráter “masculino” pela fogosidade e pela capacidade de fixar e colorir o mercúrio.
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A “coloração” simboliza a formação, exemplificada pelo cinábrio obtido na amalgama.
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O comportamento artesanal do mercúrio, ansioso por assimilar-se a metais afins, ilustra operações clássicas de dissolução, purificação e douramento, esclarecendo solve et coagula e a centralidade do fogo.
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O mercúrio fluidifica ouro e prata e permite douração por evaporação ao fogo.
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O lavado mercurial limpa o ouro ao remover minerais estranhos.
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O fogo aparece como princípio decisivo de transmutação.
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O mercúrio é associado ao “gérmen do Sol” e ao mar primordial da matéria prima, análogo a Prakriti e ao Hiranyagarbha, sendo no plano psíquico correlato ao anima mundi.
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O mercúrio vivifica e dissolve o “metal” interior como ondulação do mar primordial.
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A “mãe” das coisas permanece intangível enquanto o fluxo atua nas formas.
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A designação de menstruo indica nutrição do germe no atanor quando não se dispersa exteriormente.
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A aparente inversão terminológica em autores alquímicos, que chamam mercúrio de spiritus e às vezes equiparam enxofre ao anima, resolve-se pela diferença entre alma imortal e “espírito vital”.
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Anima pode significar a forma essencial e imutável do homem, não o psiquismo mutável.
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Spiritus pode significar força vital que liga alma individual e corpo, portanto plástica e instável.
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A ambiguidade é reforçada pela associação de espírito, rûh e ruah ao sopro e ao movimento do ar.
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A força vital designada como prâna, orenda ou, em certos contextos, shakti, é concebida como energia conjurável por arte sagrada e relacionada ao simbolismo do alento.
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A respiração figura absorção de uma substância sutil cósmica.
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Os seres extraem continuamente desse “espaço” seu corpo sutil.
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O sopro pode simbolizar tanto o hálito criador universal quanto a mobilidade do espírito vital.
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A alquimia aborda o psíquico por apoio material e o universal por indícios concretos, o que torna instável qualquer tentativa de localizar o mercúrio exclusivamente no corporal ou no subjetivo.
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A leitura alquímica parte do concreto para o cósmico.
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O símbolo não se reduz a uma psicologia privada.
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O mercúrio oscila entre níveis e funções sem se fixar num único plano.
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O mercúrio é situado em vários níveis no homem, da substância corporal à mediação psicofísica e ao suporte do psiquismo, culminando como portador de uma realidade espiritual.
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No plano corporal, está no sangue e no sêmen.
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Num plano intermediário, está no coração e na respiração.
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O ritmo respiratório representa condensação na consciência individual e dissolução repetida no Todo.
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Ko Ch’ang-Kéng oferece três leituras do mercúrio na alquimia interior, variando os pares mercúrio-chumbo, mas mantendo sua função dissolvente e vivificadora.
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Mercúrio como coração liquificado pela meditação e inflamado pela centelha do espírito, com chumbo como corpo.
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Mercúrio como alma, com chumbo como hálito.
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Mercúrio como sangue, com chumbo como sêmen.
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Em todos os casos, o mercúrio é a substância que flui nas formas psíquicas e do pensamento.
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O critério para distinguir realidade e imaginação na alquimia interior é a realização, entendida como revelação da substância prévia da consciência, um “descobrimento do ser” que ultrapassa subjetivo e objetivo.
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A realização não acrescenta conteúdos, desvela o que já é.
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O ser abrange e supera sujeito e objeto.
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O conhecimento do ser coincide com o conhecimento da unidade, conforme unum et esse converguntur.
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O mercúrio é manifestação da matéria prima e, em sentido último, identifica-se com ela, podendo ser descrito como espírito vivo e ubíquo que desce continuamente para impregnar e depois solidificar-se como humiditas radicalis.
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A imagem indica influxo espiritual contínuo.
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A volatilidade torna-se solidez no interior das matérias corporais.
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O processo descreve passagem de vapor a fundamento vital.
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O enxofre possui dupla face: primeiro fixa e endurece a cristalização do corpo e parece obstáculo à purificação, mas, depois de dissolvida essa cristalização, torna-se causa da nova forma nobre.
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A dissolução é provocada pelo mercúrio, inicialmente contra o enxofre.
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O mercúrio subtrai a matéria endurecida e oferece matéria nova dúctil.
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Psicologicamente, a atração feminina descongela a rigidez masculina e desperta força ativa.
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A narrativa simbólica do unicórnio e do leão em O casamento químico interpreta o mercúrio como pureza lunar e o enxofre como forma essencial rigidificada, com dissolução do entendimento e infusão do conhecimento divino.
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O leão rompe a espada do entendimento e a dissolve na fonte.
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O rugido figura potência criadora que desperta vida.
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A pomba com o ramo de oliveira simboliza o conhecimento divino que pacifica e cumpre a obra.
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O enxofre “congelado” pode ser entendido como entendimento que contém o ouro espiritual em potência e deve dissolver-se no mercúrio para tornar-se fermento diretamente ativo, além do pensamento discursivo.
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O ouro está contido como potência no intelecto fixado.
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A dissolução liberta da limitação do pensamento.
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A atividade passa a ser direta e transformadora.
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O mercúrio tem aspecto terrível como força dissolvente e mortífera, mas também é aqua vitae e fonte de rejuvenescimento, reunindo nomes e funções da própria matéria prima.
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É dragão venenoso, água que dá calafrios e pressentimento da morte.
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A putrefação do Sol na água viva produz negrura antes da brancura.
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É vinagre forte que espiritualiza o ouro e realiza branquear, dissolver e congelar.
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Por ser meio e ponto de partida da obra, o mercúrio pode ser descrito como duplo ou andrógino quando a natureza do enxofre se desenvolve nele, tornando-se “água de fogo” e “fogo que não queima”.
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A união faz surgir mercúrio transformado.
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O símbolo altera a marca lunar para signos ígneos.
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A substância reúne contrários sem se destruir.
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A perfeição da união entre enxofre e mercúrio produz o ouro vivo, mas cada metal é também tríade de enxofre, mercúrio e sal, correlata a alma, espírito e corpo.
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A tríade define a natureza do metal e do homem.
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A sal funciona como elemento estático e relativamente neutro.
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A sal limita e, simultaneamente, simboliza pela forma psíquica do corpo.
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A função da sal como cinza que retém o espírito volátil e como fixativum de estados superiores reaparece em métodos contemplativos, onde a consciência corporal purificada sustenta o que o pensamento não pode apreender.
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O corpo estável suporta a corrente dos fenômenos psíquicos.
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É interseção objetiva entre microcosmo e macrocosmo.
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O “mais baixo” serve de contraponto ao “mais alto”, segundo a lei da Tábua Esmeraldina.
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