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ESPÍRITO E MATÉRIA

  • A concepção de matéria para os homens de épocas passadas difere fundamentalmente da concepção moderna, pois eles consideravam, por meio das experiências sensoriais e para além delas, realidades de outra ordem, sem que isso implicasse uma falta de lógica em seu pensamento.
    • A dureza das pedras e o calor do fogo eram objetivamente os mesmos que na modernidade, e as leis físicas igualmente inflexíveis.
    • O pensamento dos chamados primitivos não era alógico ou pré-lógico, mas sempre pautado pela lógica, inerente à condição humana.
    • A dissolução do pensamento lógico em ideias sentimentais é um fenômeno observado na decadência de civilizações puramente urbanas, não entre os primitivos.
  • A separação completa entre matéria e espírito, consolidada no mundo moderno, não é um dado natural, mas o resultado de um desenvolvimento espiritual que encontrou em Descartes sua formulação filosófica inaugural.
    • Descartes definiu espírito e matéria como duas realidades absolutamente distintas, que convergiriam apenas no cérebro humano por desígnio divino.
    • Esse pensamento equipara o espírito ao mero pensamento racional, negando-lhe qualquer alcance supra-racional ou presença cósmica.
    • Como consequência, a matéria é despojada de todo conteúdo espiritual, e o espírito é reduzido a um reflexo abstrato da realidade meramente material.
  • Para as civilizações arcaicas, a matéria era concebida como uma visão de Deus, imediatamente ligada à vida dos sentidos por meio do símbolo da Terra.
    • A Terra representava o princípio passivo e a origem de todas as coisas visíveis, em contraposição ao Céu, princípio ativo e criador.
    • Céu e Terra, como pai e mãe, são inseparáveis: o Céu está presente como força criadora em tudo que a Terra produz, e a Terra dá corpo às leis celestiais.
    • Essa visão era simultaneamente material e espiritual, fundada em uma verdade metafísica que independe do esquema cosmológico simples.
  • Para a philosophia perennis, anterior ao racionalismo, a matéria é uma manifestação ou modo de obrar de Deus, complemento indispensável do espírito e não algo separado.
    • Os dois polos primários da existência, ativo e passivo, regem todas as coisas, sendo a matéria o polo passivo, uma mera faculdade de tomar forma.
    • Tudo o que é percebido da matéria já foi criado pelo Espírito, seu polo ativo oposto.
  • Somente para o homem moderno a matéria se tornou uma realidade consistente e autônoma, uma massa inerte e externa que se opõe ao espírito e exige para si a extensão espacial.
    • A matéria moderna é um mero fato, que não se deixa penetrar pelo espírito e pretende preencher toda a realidade.
    • Para os homens de épocas anteriores, embora a matéria tivesse esse aspecto físico, ele não era considerado algo que pudesse ser estudado independentemente do espírito.
  • A definição cartesiana da matéria como massa e extensão levou à tentativa de compreender todas as formas e propriedades sensíveis apenas por sua quantidade, o que é possível para uma ciência voltada à manipulação externa das coisas.
    • No entanto, nem a extensão no espaço nem qualquer outra propriedade física podem ser exauridas quantitativamente, como demonstra René Guénon ao apontar o aspecto qualitativo de figuras como o círculo e o quadrado.
    • É impossível reduzir o mundo sensível a categorias quantitativas sem desintegrá-lo, pois mesmo os esquemas da ciência empírica possuem atributos qualitativos.
    • Um cego jamais reconheceria a qualidade do vermelho em valores numéricos, assim como um surdo e daltônico não apreenderia a qualidade de sons e cores por explicações quantitativas.
    • A essência qualitativa de uma coisa, sua unidade viva, não é apreendida por um detalhamento paulatino, mas apenas por intuição imediata, um princípio válido na arte e nos demais campos.
  • O conteúdo qualitativo das coisas não pertence à matéria, mas apenas se reflete nela, sendo ignorado por uma ciência fundada na análise quantitativa e na atuação, em lugar da contemplação.
    • Essa ciência desconsidera o que os antigos chamavam de forma, ou seja, o conteúdo qualitativo de uma coisa.
    • Tal perspectiva explica a separação moderna entre Ciência e Arte, que antes do racionalismo eram termos equivalentes, e a irrelevância da beleza para o reconhecimento científico.
  • A diferenciação tradicional entre eidos e hyle, ou forma e matéria, reflete a natureza diversa das coisas, simultaneamente quantitativa e qualitativa, apresentando ambas as partes como mutuamente complementares.
    • Aristóteles deu expressão dialética a essa diferenciação, que não foi por ele inventada, mas que se encontra na natureza das coisas como visão espiritual primária.
  • No sentido peripatético, a forma é o conceito das propriedades que constituem a essência de uma coisa, seu conteúdo para o conhecimento e para o espírito, independentemente de sua presença material.
    • A forma não deve ser confundida com o perfil espacial de uma figura, nem a matéria propriamente dita, que recebe a forma, com o moderno conceito de matéria.
    • A matéria pura e amorfa é apenas a faculdade de tomar um aspecto, sem sinais distintivos, sendo indescritível e inimaginável em si mesma.
  • A comparação com o artesão que dá forma a uma matéria é útil, mas imperfeita, pois a matéria do artesão já possui propriedades que a distinguem de outras, ao contrário da matéria puramente amorfa.
    • A forma não pode ser apreciada separada da matéria, pois toda forma que se manifesta já participa de alguma matéria, ainda que seja a matéria imaginativa.
    • A mesma palavra forma pode ter significados opostos: como figura externa, opõe-se ao espírito, aliando-se à matéria; como causa informadora, alia-se ao espírito ou essência.
  • A ideia cartesiana de extensão no espaço sem forma qualitativa é inimaginável, pois a própria direção tem natureza qualitativa, e a matéria em si é suscetível a toda forma.
    • O que resta é a quantidade pura, que não pode ser determinada numericamente, correspondendo à materia signata quantitate dos escolásticos, uma matéria relativa e secundária, não à materia prima universal.
    • Da materia prima, puramente receptora e raiz da diversidade, nada pode ser designado, correspondendo, na linguagem bíblica, às águas sobre as quais pairava o Espírito de Deus.
  • Para compreender o conceito de matéria, que escapa à apreciação racionalista, é necessário reduzi-la ao polo passivo de toda existência, assim como a forma essencial pode ser reduzida ao polo ativo.
    • Aristóteles não chegou ao limiar onde a divergência entre forma e matéria se funde numa unidade superior, pois sua ontologia é logicamente explicável.
    • A causa informadora (ato puro) e a matéria receptora (totalmente passiva) se complementam mutuamente como possibilidades fundamentais e intemporais, inseparáveis.
    • O polo ativo pode ser denominado ser ou essência, correspondendo ao espírito que contém as formas como arquétipos; o polo passivo, matéria ou substância.
  • A objeção de que o conceito de forma não pode ser estendido indefinidamente sem apagar a diferença entre o formal e o supraformal é respondida pela distinção entre a forma como limitação material e a forma como feixe de propriedades não materiais.
    • Neste último sentido, a forma pode ser projetada até os aspectos universais do ser.
    • Os teólogos medievais empregavam a expressão forma de Deus para designar o conjunto dos atributos divinos, cuja essência está acima de todo atributo.
  • Robert Boyle, em 1661, atacou a tese alquímica dos quatro elementos, acreditando ter destruído a alquimia ao demonstrar que terra, água e ar são compostos de vários elementos químicos.
    • A objeção de Boyle, no entanto, só alcançava interpretações errôneas da doutrina dos elementos, pois a verdadeira alquimia nunca os considerou como matérias químicas no sentido moderno.
    • Os quatro elementos são as propriedades primárias e mais gerais pelas quais a matéria homogênea de todos os corpos se manifesta, independentemente de sua indivisibilidade material.
    • A decomposição química da água ou do ar não altera a percepção dos quatro estados básicos da matéria (terra, água, ar e fogo), cujos componentes químicos também se enquadram nessas categorias.
    • Os quatro elementos, como primeira diferenciação qualitativa da matéria, desempenham o papel de matéria passiva em relação aos corpos, podendo ser comparados a estados mais ou menos densos ou modos de vibração, embora estejam acima ou abaixo da manifestação material grosseira.
  • A alquimia, consciente de seus fundamentos cosmológicos, não podia crer na conversão dos quatro elementos entre si ou em sua redução à matéria prima no plano empírico, pois essa exigência conduz a um plano ontológico distinto.
    • Os elementos nunca se apresentam puros nos corpos; toda matéria corpórea contém os quatro elementos em proporções diferentes, com um deles imprimindo seu caráter à manifestação.
    • A água potável não é idêntica ao elemento água, embora seja sua representação imediata, formando um todo com ele e com o aspecto passivo da matéria prima.
    • A persistência de enlaces verticais com as causas primitivas através dos diferentes estratos da existência confere significado múltiplo à contemplação cosmológica da Natureza.
  • O fundamento comum dos quatro elementos é a matéria prima do mundo, mas, mais precisamente, eles dimanam do éter, sua derivação mais próxima, designado nos escritos alquimistas como matéria ou quinta-essência.
  • A cosmologia hindu de Sankhya oferece a explicação mais completa dos quatro elementos, distinguindo os elementos corpóreos (bhutas) das medidas essenciais subjetivas (tanmatras).
    • Ambos os grupos, tanmatras e bhutas, procedem de Prakriti (matéria prima) e, pelo princípio de individuação, desdobram-se nos polos objetivo e subjetivo do mundo fenomênico corporal.
    • Essa explicação, que corresponde ao conceito hermético, indica que os fenômenos sensíveis podem ser transferidos ao mundo interior, pois as tanmatras também medem os fenômenos psíquicos.
  • Os candelabros do sepulcro de São Bernardo, em Hildesheim, apresentam uma iconografia que simboliza forças elementares e a vida.
    • As três parelhas de dragões entrelaçados no pé de cada candelabro representam as duas forças psíquicas elementares em estado caótico.
    • Os sarmentos que brotam de goelas de leão e sobem pelo talo são uma antiga imagem da vida e, para o cristianismo, da palavra de Deus.
    • O cálice é sustentado por salamandras, animais associados ao elemento fogo.
  • A ordenação dos quatro elementos pode se dar por sua consistência, com a terra no lugar mais baixo e o ar no mais alto, ou pela direção de seu movimento, com o fogo na posição mais elevada.
    • A terra caracteriza-se pelo peso e tendência descendente; a água é pesada mas se estende horizontalmente; o ar sobe e se expande; o fogo ascende verticalmente.
  • A flor da sabedoria, representada em um manuscrito alquímico de 1550, nasce do dragão Uroboro, símbolo da natureza encadeada ou da matéria sem forma, e é ladeada pelas flores do ouro e da prata.
  • Segundo a tradição hermética, o ordenamento natural dos elementos é representado por uma cruz cujo centro é a quinta-essência, por círculos concêntricos (terra no centro, fogo no limite exterior), ou pelas partes do selo de Salomão.
    • O triângulo para cima representa o fogo; para baixo, a água; a base do triângulo do fogo com o triângulo oposto significa o ar; o mesmo signo invertido, a terra.
    • O selo de Salomão completo simboliza a síntese de todos os elementos e a unificação dos antagonismos.
  • O conceito alquímico da matéria como causa passiva e receptora de toda multiplicidade permite sua aplicação para além do campo físico, como no caso de uma matéria psíquica.
    • O mundo psíquico, projeção múltipla de formas essenciais, também exibe um polo ativo (essencial) e um polo passivo (material).
    • A matéria da alma manifesta-se em sua capacidade receptora ilimitada de formas, seu lado feminino, que no caráter da mulher domina e se manifesta corporalmente.
  • As formas que a matéria psíquica adota vêm do exterior pelos sentidos ou do interior, mas só são formas essenciais na medida em que correspondem aos arquétipos do espírito.
    • O espírito é o polo essencial da alma, sua forma, mas isso não significa que tenha uma forma concreta, e sim que, ao projetar-se sobre a matéria psíquica, imprime a forma pessoal da alma.
    • A relação entre espírito e alma é análoga à de uma luz que, ao ser captada por uma superfície refletora, aparece como um raio individualizado sem alterar sua essência.
  • A inter-relação entre espírito e alma é complexa, e imagens a esse respeito são mais elucidativas que circunlóquios psicológicos que reduzem tudo ao plano psíquico.
    • A diferenciação psicológica entre animus e anima tem parentesco distante com a de espírito e alma, sendo o animus apenas um reflexo psíquico e passivo do espírito.
  • Ruysbroek, em sua obra, descreve uma tríplice unidade natural no homem: a primeira e mais alta unidade do homem está em Deus, base e apoio de todo ser e vida, presente em todos independentemente de sua bondade.
    • A segunda unidade é a das faculdades superiores da alma, que brotam naturalmente da unidade do próprio espírito, donde procedem a memória, o entendimento e a vontade; aqui a alma se chama espírito.
    • A terceira unidade refere-se às faculdades inferiores que têm sede no coração, fonte da vida animal, donde brotam as ações do corpo e dos sentidos; aqui a alma tem seu verdadeiro nome, pois é a forma que dá vida ao corpo.
    • Essas três unidades formam uma só vida e um só reino, com a alma presente de modo físico na inferior, intelectual na média, e em sua essência na superior.
  • Ruysbroek distingue a alma pela sua orientação às faculdades dos sentidos, indicando a condição da alma individual empírica em relação ao espírito, mas a relação alma-espírito pode ser considerada de outro modo.
    • Ao falar da alma como matéria do espírito, refere-se à capacidade passiva e receptora subjacente, oculta sob a vinculação habitual da alma aos sentidos.
    • A confusão da alma com o corpo a torna incompleta e malograda, impedindo-a de refletir o espírito limpidamente.
  • O místico islâmico Ibn Arabi compara a alma caótica ao metal impuro, como o chumbo, cuja opacidade se assemelha à massa bruta.
    • O ouro representa a alma em seu estado original e são, capaz de refletir o espírito divino; o chumbo, seu estado enfermo e morto, que já não pode refleti-lo.
    • A verdadeira essência do chumbo é o ouro, e todo metal ordinário é uma fração do equilíbrio que se manifesta apenas no ouro.
  • Para libertar a alma de seus entraves, seus dois princípios (forma essencial e matéria) devem desprender-se de suas vinculações superficiais, como se o espírito e a alma se separassem para depois se unirem novamente.
    • A matéria amorfa da alma é submetida a um processo de purificação, como um metal posto ao fogo, para finalmente concretizar-se na imagem de um cristal perfeito.
  • A forma refundida da alma, embora ainda pertença à existência limitada, deixa-se penetrar pela luz do espírito e se encontra em comunicação viva com a matéria prima de todas as almas.
    • O fundo material ou passivo da alma tem natureza universal, assim como seu fundo essencial.
    • A universalidade da matéria da alma é evidenciada pela semelhança das emoções anímicas de todos os seres vivos, comparáveis a ondas de um mesmo mar.
  • A doutrina alquímica não visa à total extinção do indivíduo, ao contrário de conceitos como o nirvana ou a unio mystica, por se fundar numa contemplação puramente cosmológica.
    • A realização alquímica pode, no entanto, representar uma etapa no caminho para o objetivo supremo, sendo incorporada à mística cristã e islâmica.
    • A transformação alquímica coloca o meio do conhecimento humano em contato com o raio de luz divino que antecipa o reino dos céus.
  • A aplicação dos conceitos de forma e matéria ao campo da alma permite compreender como entes físicos, como os quatro elementos, podem ser transpostos para o plano psíquico.
    • A matéria da alma revela tendências opostas em seu desenvolvimento: uma inclinação descendente (terra), uma tendência ascendente ao espírito (fogo), e extensões passivas (água) ou ativas (ar).
    • A terra da alma é o aspecto que se adere ao corpo; o fogo tem caráter purificador; a água adapta-se a todas as formas; o ar, livre e móvel, abrange as formas do conhecimento.
  • A aplicação dos signos dos quatro elementos do selo de Salomão ao alma é particularmente reveladora, mostrando que a pluralidade dos elementos se reduz à oposição fogo/água, correspondente à dualidade forma-matéria.
    • Mediante a união dos elementos contrários, a alma torna-se fogo fluido e água ígnea, adquirindo as propriedades positivas dos outros elementos.
    • O fogo da alma dá solidez à água, e a água dá ao fogo a suavidade e ubiquidade do ar.
  • Os elementos interiores podem ser concebidos como qualidades do espírito e, finalmente, como aspectos imutáveis do ser, cuja reunião consiste em reconhecer em cada propriedade elementar as demais.
    • O supremo significado da alquimia é o reconhecimento de que tudo está contido em tudo.
    • O magistério alquímico é a realização dessa verdade no plano da alma pela elaboração do elixir, que reúne em si todas as forças elementares e atua como fermento de transmutação no mundo psíquico e, indiretamente, no exterior.
  • Devido à conexão entre toda matéria corporal e a essência superior do ser, é possível transmitir forças psíquicas a uma matéria corporal, impregnando-a delas.
    • Em certos casos, o elixir interno dos alquimistas encontra um correspondente externo.
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