User Tools

Site Tools


burckhardt:alquimia:planetas-metais

PLANETAS E METAIS

  • Os alquimistas designam os diferentes metais com os mesmos símbolos e nomes dos planetas, expressando analogias que estabelecem relação entre alquimia e astrologia fundadas na lei da Tábua Esmeralda: o que está abaixo é igual ao que está acima.
    • A astrologia e a alquimia derivam do mesmo legado hermético e relacionam-se entre si como Céu e Terra: a astrologia indica o significado do Zodíaco e dos planetas; a alquimia, o dos elementos e dos metais.
    • Os doze signos do Zodíaco são imagem simplificada dos arquétipos imutáveis contidos no espírito; os quatro elementos mostram materialmente as diferenças fundamentais da matéria-prima (hyle).
    • Enquanto os planetas realizam temporalmente as possibilidades contidas no Zodíaco, representando os modos de agir do espírito que desce do Céu à Terra, os metais são os primeiros frutos da matéria elemental madurados pelo espírito.
  • A alquimia ensina que os metais são produzidos no escuro seio da Terra pela ação dos sete planetas, indicando não uma explicação física mas o modo pelo qual as aparências corporais derivam, em sua essência, dos dois polos originários da existência.
    • No contraponto de astros e metais dispõe-se uma escala ontológica com a qual podem relacionar-se todos os aspectos da Natureza, tanto no macrocosmo quanto no microcosmo humano.
    • Para a alquimia existem metais interiores do mesmo modo que para a astrologia há planetas interiores.
  • A dualidade dos polos ativo e passivo da existência reflete-se, dentro de cada grupo, na dualidade Sol e Lua, ouro e prata: o Sol ou ouro representa o polo ativo; a Lua ou prata representa o polo passivo, a matéria-prima; os demais metais e planetas participam em proporção variável de um ou outro polo.
    • O ouro é Sol; Sol é espírito; prata ou Lua é alma.
  • Os sete signos planetários são formados por três figuras básicas: o círculo, o semicírculo e a cruz, que representam respectivamente a órbita solar completa, a meia órbita e os quatro pontos cardinais ou os quatro elementos, expressando juntos toda a hierarquia cósmica.
    • O Sol permanece constante em sua forma enquanto a forma da Lua muda, correspondendo a mutação à parte passiva e a ação constante ao polo ativo.
    • As três figuras básicas superpostas geram a roda celeste.
  • Cada um dos sete signos revela, pela posição relativa do círculo, do semicírculo e da cruz, certa perturbação do equilíbrio original dos elementos: Saturno ou chumbo apresenta a meia lua abaixo da cruz, indicando imersão caótica na matéria; Júpiter ou estanho mostra a meia lua tangenciando a linha horizontal, indicando posição intermediária; Vênus ou cobre apresenta o Sol acima da cruz, indicando excesso de força solar ainda não consolidada; Marte ou ferro apresenta o Sol abaixo da cruz, sumido na escuridão.
    • Segundo Basílio Valentino, o cobre contém excesso de força solar não consolidada, como uma árvore com seiva demais.
    • Marte e Vênus ocupam os lugares mais próximos ao Sol no esquema geocêntrico e são também os amantes mitológicos.
    • Apenas o signo de Mercúrio contém as três figuras básicas, sendo a clave da obra alquímica: simboliza a matéria-prima como portadora de todas as formas, pois o mercúrio é a matriz de todos os metais, enquanto a prata representa o estado virginal da matéria-prima pura.
    • O mercúrio corresponde à força geradora e ao aspecto dinâmico da matéria, ao passo que o enxofre, seu oponente, é a força ativa da essência solar ou masculina.
  • Somente no signo do ouro se indica o ponto central do círculo, o que significa que apenas no ouro se manifesta a união do arquétipo com sua representação material, do mesmo modo que apenas no homem perfeito frutifica espiritualmente a semelhança entre a criatura e Deus.
    • A conquista do centro da existência terrena é o verdadeiro objetivo da alquimia e o mais profundo significado do ouro: o ouro é luz feita corpo, e os alquimistas descrevem o objeto de sua obra como a volatilização do sólido e a solidificação do volátil, ou a espiritualização do corpo e a corporificação do espírito.
  • Em cada campo cósmico existe um centro ou cume qualitativo onde o arquétipo se manifesta do modo mais imediato: o ouro é o centro dos metais; a gema, o das pedras; a rosa ou o lótus, o das flores; o leão, o dos quadrúpedes; a águia, o das aves; o homem, o de todos os seres vivos da Terra.
    • O animal permanece sempre fiel à forma essencial de sua espécie, participando passivamente do raio do espírito que nele se manifesta.
    • O homem foi criado para participar ativamente do espírito divino, e apenas então é realmente o centro do mundo terreno e, na medida em que se identifica com o espírito, de todo o cosmos.
  • A ordenação dos metais segundo sua maior ou menor semelhança com o ouro é diametralmente oposta à dos planetas, cuja categoria é maior quanto mais distante a órbita do centro Terra, ilustrando a lei da Tábua Esmeralda que insinua uma inversão entre o superior e o inferior.
    • O Sol constitui uma exceção, pois corresponde ao ouro e sua órbita encontra-se no quarto lugar, com três planetas de cada lado, ocupando posição central também no esquema geocêntrico.
  • Saturno, cuja órbita é a mais afastada da Terra, representa o entendimento ou intelecto; a Lua, a mais próxima, equivale ao espírito de vida que une a alma ao corpo; esses são os dois polos das faculdades da alma, entre os quais se escalonam as demais.
    • O Sol representa a faculdade que comunica e unifica os dois polos extremos: segundo Macróbio, é a faculdade que anima os sentidos e resume suas impressões; segundo Abd al-Karim al-Yili em al-Insan al-Kamil, representa o coração (al-qalb), órgão do conhecimento intuitivo e harmonizador que supera fundamentalmente todas as demais faculdades.
    • A Júpiter atribui-se a resolução (al-himma), forma espiritual da vontade; a Marte, a ousadia e a imaginação ativa (al-wahm); a Vênus, a força imaginativa passiva (al-jiyal); a Mercúrio, o pensamento analítico (al-fikr); à Lua, o espírito vital (al-ruh), que al-Yili identifica com o motus corporal descrito por Alberto Magno.
  • O metal, por sua qualidade de matéria inerte, não pode ser símbolo de faculdade de conhecimento ou vontade, mas por sua natureza estática e inorgânica é expressão de um estado de conhecimento igualmente estático, desligado de formas racionais.
    • O conhecimento do corpo, caótico e opaco, empanado pelas paixões e hábitos, é o metal ordinário; o conhecimento corporal clarificado, o metal nobre, é em si um modo de existência espiritual.
    • Os alquimistas ensinam que do metal ordinário se deve extrair primeiro a alma; depois o corpo deve ser purificado e passado pelo fogo até reduzir-se a cinzas, para então reunir-se novamente com a alma.
    • Quando o corpo se funde com a alma e ambos formam uma matéria pura, o espírito age sobre ela e lhe dá forma perene, revertendo o conhecimento psíquico-corporal à sua possibilidade puramente espiritual; Basílio Valentino compara esse estado ao corpo glorioso dos ressuscitados.
  • Enquanto a astrologia parte sempre do mais alto, ou seja, dos arquétipos, projetando-os e entrelaçando-os em sentido descendente a partir das posições planetárias, a alquimia parte da matéria ainda sem forma, ou seja, do mais baixo, fundando-se na matéria-prima que, conforme sua natureza passiva, encontra-se abaixo.
  • A classificação dos planetas por mansões no Zodíaco, quando posicionada no eixo do Zodíaco primitivo estabelecido cerca de dois mil anos antes de Cristo, revela uma ordenação simétrica que coincide com o sentido alquímico dos signos planetários, sugerindo que a alquimia em sua forma conservada até o limiar da Idade Moderna nasceu nesse mesmo momento cósmico.
    • Cada planeta possui duas mansões simétricas, feminina e masculina, exceto a Lua e o Sol, que têm apenas uma cada um e dominam respectivamente as duas metades do Zodíaco.
    • No lugar mais baixo do esquema, à volta do solstício de inverno na região das trevas e da morte, reside Saturno, cujo oponente metálico é o chumbo; acima sucedem-se Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio, cujo signo é o único que inclui tanto o emblema do Sol quanto o da Lua, sendo a mãe do ouro e o primum agens da obra alquímica.
    • O Sol e a Lua partilham o cimo do Zodíaco: a Lua representa a alma em perfeita receptividade, e o Sol o espírito ou a alma purificada e transformada pelo espírito.
    • O mito alquímico do rei-Sol que morre, é enterrado e renasce passando por sete dominações é versão narrativa desse simbolismo astrológico, o qual é por sua vez a imagem cósmica de uma lei interior: o Sol é no homem a centelha divina que aparentemente morre quando a alma penetra na mansão de Saturno, mas em seguida renasce e, após ascender pelas sete etapas do conhecimento, torna-se o leão vermelho, o elixir que tudo transmuta.
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/burckhardt/alquimia/planetas-metais.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki