burckhardt:ciencia-sabedoria:dante
DIVINA COMÉDIA DE DANTE
-
A Divina Comédia de Dante não é mera fantasia poética nem construção conceitual disfarçada, mas uma obra em que a visão espiritual do poeta condiciona tanto o sentido quanto a forma, segundo a natureza da arte sacra, que é simultaneamente verdadeira e bela, incidindo em todos os planos da alma e infundindo o pressentimento da Unidade divina.
-
O artista não é tanto o inventor quanto aquele que conhece e percebe, separando as qualidades essenciais do que é acidental e fortuito.
-
Dante pôde descrever os mundos psíquicos e espirituais invisíveis referindo-se à estrutura do universo visível tal como os sentidos a captam do ponto de vista terrenal, cuja validade está ancorada na natureza do próprio homem.
-
As condições de ser ou de consciência correspondentes aos sete céus planetários pertencem ao mundo da matéria sutil ou psíquica, sendo ao mesmo tempo psíquicas e espirituais, como uma extensão do Espírito divino ao campo da psique ou uma ascensão da psique ao campo do Espírito.
-
O espírito de cada eleito tem seu próprio “sítio” no último céu sem forma, mas comparece também numa esfera correspondente ao seu tipo de beatitude, segundo explica Beatriz.
-
A natureza luminosa dos planetas e a regularidade de suas revoluções expressam que os estados psíquicos correspondentes já participam do caráter imutável do Espírito puro, como uma alma que se torna um cristal que não opõe resistência à luz divina.
-
Dante traduz a diversa extensão das esferas celestes ao plano qualitativo, relacionando o tamanho dos círculos corpóreos com a maior ou menor virtude (força invisível) que por suas partes se estende.
-
A esfera mais alta e mais ampla é o Empíreo invisível, cujo movimento constante (não medido por outro) é a raiz do tempo, que corresponde à duração unitária e não mensurável.
-
O Empíreo representa o umbral do mundo puramente espiritual e informal, cujas partes são tão uniformes que Dante não pode dizer por onde Beatriz o introduziu.
-
Dante contempla a inversa concordância entre os coros de anjos (que giram em torno do centro divino) e as esferas celestes (que se contêm mutuamente), explicando que, em correspondência com a natureza corpórea, o que possui maior força e inteligência deve ocupar maior espaço.
-
Não existe imagem espacial que possa refletir diretamente a hierarquia dos graus de existência, pois Deus é simultaneamente o centro mais profundo do mundo e a realidade onicompreensiva.
-
O funil infernal, com suas simas mais estreitas quanto mais profundas, é o correspondente negativo da hierarquia teocêntrica: o inferno é determinado pela ignorância e pelo ódio, enquanto os anjos o são pelo conhecimento e amor de Deus.
-
Dante provavelmente cria na ordem geocêntrico dos céus estrelados em sentido alegórico, pois afirma que se deve falar assim para que o entendimento humano, que aprende mediante os sentidos, possa se fazer digno do intelecto, do mesmo modo que a Escritura atribui pés e mãos a Deus com outro entendimento.
-
No Convite, Dante fala dos sentidos literal, alegórico, moral e anagógico das Escrituras, aplicáveis também ao seu poema.
-
O exemplo clássico das quatro interpretações é Jerusalém: literal (cidade), alegórica (Igreja), moral (alma crente), anagógica (Jerusalém celestial, arquétipo contido no Espírito divino).
-
As metáforas de Dante para descrever o inferno concretizam imediatamente uma verdade espiritual em imagem, como a selva de sarças onde estão as almas dos suicidas, imagem de uma condição privada de liberdade e satisfação, resultado da contradição de uma vontade que nega a existência que é sua própria premissa.
-
O “eu” que não pode se precipitar no nada cai no nada aparente (as ervas daninhas desertas) e permanece um “eu” em sofrimento impotente concentrado sobre si mesmo.
-
Cada detalhe das descrições infernais é de uma pavorosa e precisa agudeza de expressão.
-
Na descrição do purgatório, a realidade psíquica alcança amplitude cósmica, compreendendo o céu estrelado, os dias e as noites, e o perfume de todas as coisas, com o paraíso terrestre como imagem da condição original e íntegra do alma humana.
-
Para representar as condições puramente espirituais das esferas celestes, Dante serve-se de metáforas, como a do “transhumanar” que não se pode expressar em palavras, mas cujo exemplo basta a quem a graça beneficiar.
-
Quanto mais simples a imagem, mais amplo seu conteúdo, pois a simbologia expressa, com seu caráter concreto e aberto, verdades que transcendem o conceito mental, procedendo do espírito e abrindo-se ao intelecto.
-
O intelecto é a capacidade cognoscitiva suprema e mais interior, que chega à essência eterna das coisas, mas a memória não pode seguir o intelecto quando ele aprofunda no desejo.
-
Dante sabia que o conhecimento do alma humana é essencialmente autoconhecimento, e que ao conhecer sua própria alma, o homem conhece os bastidores psíquicos do mundo humano e capta as possibilidades celestiais mais diretamente, pois quanto mais altas e reais são, mais entram num campo do ser onde sujeito e objeto são pouco distinguíveis.
-
Dante percorre o inferno como espectador, sem sofrer penas, e os anjos borram as marcas do pecado de sua fronte no purgatório, o que significa que ele procede pela graça particular do Conhecimento, não pela via do mérito ativo.
-
A via para Beatriz (a Sabedoria divina) passa pelo inferno, ou seja, o conhecimento de Deus alcança-se pelo autoconhecimento, que exige considerar todos os abismos da natureza humana e eliminar as ilusões radicadas na alma passional.
-
Beatriz reprova a Dante ter-se aferrado por muito tempo à sua imagem terrena, seguindo-a ao reino do invisível, em lugar de se concentrar no que é eterno e real.
-
A severidade de Dante ao julgar seus contemporâneos não é intolerância que esqueça a graça divina, pois ele coloca almas no paraíso que ninguém esperava, ao contrário da tolerância moderna baseada na dúvida sobre o destino último do homem.
-
A dignidade primordial do homem consiste no dom do “intelecto”, raio de luz interior que une a alma à fonte divina de todo conhecimento, bem que as almas condenadas perderam para sempre, pois neles a visão do coração (onde se unem amor e conhecimento) está sepultada.
-
No homem incorrupto, todas as capacidades psíquicas se referem ao centro essencial, e a paixão impede o alma de se abrir espiritualmente ao eterno (“a paixão, o intelecto liga”).
-
As almas condenadas perderam o bem do intelecto porque sua vontade se desviou definitivamente do centro essencial, e o impulso volitivo que nega a Deus se tornou nelas instinto central; elas querem o inferno.
-
As almas do purgatório não negaram o elemento divino, mas o buscaram em lugares errôneos; com a morte, desaparece o objeto da paixão e a ilusão de sua bondade divina, e elas experimentam sua ânsia como um consumir-se por aparências que só traz dores, e este conhecimento é seu arrependimento.
-
O conhecimento das verdades eternas está potencialmente presente no intelecto, mas seu desenvolvimento é condicionado pela vontade: negativamente, pelo pecado do desejo; positivamente, por sua superação.
-
As penas do purgatório podem ser interpretadas como estados sucessivos após a morte ou como degraus do acesso à condição original em que conhecimento e querer já não são divergentes.
-
No paraíso terrenal, Virgílio coroa e mitra Dante, declarando seu livre arbítrio são e reto.
-
Nos eleitos, a vontade surge da consciência da ordem divino, é expressão espontânea de sua visão de Deus, e sua hierarquia no céu não é ditada por coação alguma.
-
Piccarda explica que a vontade dos bem-aventurados se aquieta pela caridade, querendo só o que têm, pois conformar-se à vontade divina é a bem-aventurança e nela está a paz, o mar onde tudo conflui.
-
A verdadeira liberdade da vontade depende de sua relação com a Verdade, conteúdo do conhecimento essencial; a mais alta visão de Deus está em harmonia com o cumprimento espontâneo da vontade divina.
-
O conhecimento coincide com a Verdade divina e a vontade coincide com o Amor divino, aspectos do Ser divino, um imóvel e outro em movimento, como conclui a Divina Comédia.
-
Beatriz não é uma alegoria inventada, mas a imagem e o nome da Sabedoria divina encarnada numa mulher nobre e bela, pois o aspecto feminino é inerente à Sabedoria divina como objeto de conhecimento, e a presença da divina Sophia se revelou a Dante através da mulher amada.
-
Se o amor capta toda vontade levando-a a confluir ao centro do ser, esse amor tem a possibilidade de se converter em conhecimento de Deus, e o meio que conduz do amor ao conhecimento é a beleza.
-
Dante deve atravessar o fogo do purgatório antes de alcançar Beatriz, e ela o conduz pelas esferas celestes revelando sua beleza, que sua mirada resiste a duras penas.
-
Dante ainda não pode mirar diretamente a luz divina, e a contempla no espelho dos olhos de Beatriz; no final, Beatriz se subtrai de sua vista e sua mirada permanece fixa na fonte de luz divina.
-
As palavras na porta do inferno (“A justiça moveu meu supremo autor…”) expressam que o amor divino, origem da criação, é a expressão da abundância do Ser e da beatitude contida em Deus, um excesso que reverte na nada, concedendo existência inclusive à negação de Deus, mas esta é condenada pela justiça divina.
-
A existência das possibilidades infernais depende do amor divino, mas tais possibilidades são condenadas pela justiça divina como negações de Deus.
-
A duração do além (perpetuidade) não é idêntica à eternidade de Deus, e a condição dos condenados é a desesperação.
-
Virgílio, que conduz Dante até a cima do purgatório, tem sua sede no limbo com os demais sábios e heróis da antiguidade, pois não batizado não pode alcançar os céus que dependem da graça.
-
O “nobre castelo” no limbo, com seu prado de fresco verdor e gente de mirar repousado, já não tem nada a ver com o inferno, mas tampouco pode incluir-se diretamente sob a graça cristã.
-
Dante não tem uma atitude fundamentalmente negativa em relação às fés não cristãs, como demonstra ao colocar o príncipe troiano Rifeo entre os eleitos, falando da imponderabilidade da eleição divina e aconselhando os homens a não julgá-la levianamente.
-
Embora existam protótipos islâmicos para quase cada elemento importante da Divina Comédia (interpretação dos planetas como níveis de consciência, subdivisão do inferno, figura de Beatriz), é improvável que Dante conhecesse e reconhecesse o Islã como religião, sendo mais verossímil que tenha tido acesso a escritos não diretamente islâmicos, pois os espíritos podem encontrar-se num determinado nível de consciência sem jamais terem conhecido a existência um do outro no plano terrenal.
-
/home/mccastro/public_html/perenialistas/data/pages/burckhardt/ciencia-sabedoria/dante.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
