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ESPÍRITO

  • O Espírito (al-Ruh) universal, também chamado Intelecto primeiro (al-Aql al-awwal), é descrito ora como criado ora como incriado, pois segundo a máxima do Profeta foi criado, enquanto o versículo corânico sobre o sopro divino em Adão implica que é incriado por estar diretamente ligado à Natureza divina.
    • O versículo corânico que descreve o Espírito como procedente do Mandamento (al-Amr) do Senhor (XVII, 84) admite os dois sentidos: que o Espírito é da mesma natureza que o Mandamento divino, incriado por necessidade, ou que procede da Ordem situando-se num grau ontológico imediatamente inferior.
  • O Espírito possui ambos os aspectos por ser mediador entre o Ser divino e o universo condicionado: incriado em sua essência imutável, é criado enquanto primeira entidade cósmica.
    • Compara-se ao Cálamo supremo (al-Qalam al-ala) com o qual Deus escreve todos os destinos na Tábua guardada (al-Lawh al-mahfuz), que corresponde à Alma universal (al-Nafs al-kulliyya).
    • Segundo o Profeta, Deus criou o Cálamo e a Tábua e ordenou ao Cálamo que escrevesse Sua Ciência da criação até o dia da ressurreição.
    • O Espírito engloba toda a Ciência divina que concerne aos seres criados, sendo segundo o aspecto considerado a Verdade das Verdades ou Realidade das realidades (Haqiqat al-haqaiq), ou a manifestação imediata desta.
  • Alguns autores sufis, como Abd al-Karim al-Yili, denominam a essência incriada do Espírito de Espírito Santo (Ruh al-Quds), comparando-o à Face de Deus (Wajh Allah), o que equivale ao Intelecto divino.
    • A essência incriada do Espírito corresponde ao que os hindus chamam Purusha ou Purushottama.
    • A natureza criada do Espírito corresponde ao Buddhi, a Luz intelectual, primeira produção de Prakriti, a Substância plástica universal, sendo portanto de natureza supra-individual mas criado, pois toda criatura participa da passividade da Substância.
  • O termo sufi para a Substância universal ou Matéria-prima é al-Haba, designação originada no Califa Ali, sucessor espiritual do Profeta, que significa literalmente o pó fino suspenso no ar, visível apenas pelos raios de luz que refrata.
    • O simbolismo de al-Haba ilustra a natureza dupla do Espírito: a luz indiferenciada simboliza o Espírito incriado; a luz determinada como raio simboliza o Espírito criado, dirigido como um raio.
    • O pó fino, símbolo de al-Haba, é um princípio de diferenciação invisível como tal, o que significa que a substância não tem existência própria e só pode ser captada em seus efeitos, o mais grosseiro dos quais é a manifestação do modo quantitativo, representado pela multidão dos grãos de pó.
    • O pó iluminado pelo raio não é outra coisa que o cosmos.
  • Al-Haba é ao Intelecto incriado o que a Alma universal (al-Nafs al-kulliyya) é ao Intelecto criado, e a primeira dupla relaciona-se com a Natureza universal (al-Tabia) e a Ordem divina (al-Amr), sendo a Natureza universal identificada com a Espiração divina (al-Nafas al-rahmani) como aspecto maternal da substância.
    • Há teoricamente três duplas cosmogônicas cujos termos se relacionam como princípio masculino e princípio feminino.
    • Do ponto de vista cosmológico, o Espírito ou Intelecto só é incriado implicitamente, pois apenas o Espírito criado representa uma realidade cósmica distinta de Deus.
    • A Matéria-prima (al-Haba) em sua natureza puramente principial, denominada por Ibn Arabi Elemento supremo (al-Unsur al-azam), escapa à cosmologia por ser apenas uma possibilidade divina não-manifestada, o que dissolve aparentes contradições entre diferentes autores sufis.
  • Como mediador por excelência, o Espírito é também o protótipo das manifestações proféticas, identificando-se nesse aspecto com o arcanjo Gabriel (Jibril), que anunciou o Verbo à Virgem e transmitiu o Corão ao Profeta.
  • A imagem mais central do Espírito na Terra é o homem, mas como toda forma deixa necessariamente fora de si alguns aspectos de seu arquétipo, o Espírito revela-se igualmente em aspectos complementares em outras formas terrestres.
    • A árvore é um desses símbolos: seu tronco simboliza o eixo do Espírito que atravessa toda a hierarquia dos mundos e seus galhos e folhas correspondem à diferenciação do Espírito nos múltiplos estados da existência.
    • Segundo uma lenda sufi de provável origem persa, Deus criou o Espírito com a forma de um pavão e lhe mostrou sua própria imagem no espelho da Essência divina; o pavão, tomado de temor reverencial (al-hayba), emitiu gotas de suor das quais foram criados os demais seres, e a cauda do pavão imita o desdobramento cósmico do Espírito.
    • A águia, que plana acima das criaturas terrestres e desce verticalmente sobre sua presa como um relâmpago, é outro símbolo do Espírito: assim a intuição intelectual apreende seu objeto.
    • A pomba branca é imagem do Espírito por sua cor, sua inocência e a suavidade de seu voo.
    • Nos confins extremos do mundo sensível, a natureza luminosa dos astros e a transparência e imutabilidade das pedras preciosas evocam outros aspectos do Espírito universal.
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