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EXEGESE SUFI DO CORÃO
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Sendo o Sufismo o aspecto interior do Islã, sua doutrina constitui substancialmente um comentário esotérico do Corão, fundamentado nos ensinamentos do Profeta — inclusive nas sentenças santas (ahâdît qudsiya) — que fornecem a chave da exegese destinada especialmente aos contemplativos.
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O Profeta transmitiu oralmente a chave da interpretação corânica.
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Certos ditos foram pronunciados como santo contemplativo e não como legislador.
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As ahâdît qudsiya possuem grau de inspiração análogo ao do Corão.
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A exegese sufi parte dessas sentenças destinadas aos iniciados.
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Cada palavra do Corão comporta múltiplos sentidos, reflexo do processo de manifestação divina, e a exegese sufi fundamenta-se tanto na natureza simbólica das coisas quanto na riqueza semântica das línguas primordiais como o árabe, o hebraico e o sânscrito.
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A revelação reproduz graus da manifestação divina.
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A linguagem primordial conserva modalidades do concreto ao universal.
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O exoterismo limita-se ao sentido imediato.
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A interpretação sufi percebe o significado interior e necessário.
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Exemplos incluem os versículos sobre linafsihi e ‘alà nafsihi e o dito «quem se conhece conhece seu Senhor».
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Em certos casos a exegese sufi inverte o sentido exotérico, interpretando ameaças de aniquilação como símbolos da extinção espiritual da alma durante a realização interior.
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O ponto de vista da individualidade pode opor-se ao do intelecto transcendente.
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A contradição é real, mas não absoluta.
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Existe também uma exegese fundada no simbolismo fonético do Corão, segundo a qual cada letra corresponde a uma determinação do som primordial, e cuja compreensão requer a doutrina tradicional da revelação como “descendimento” global na noite da predestinação (sura al-qadr).
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O Corão foi feito descer como conhecimento indiferenciado.
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O “descendimento” fixou-se na modalidade corporal da consciência do Profeta.
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A noite simboliza potencialidade e receptividade perfeita.
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A manifestação compara-se ao dia.
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O estado primordial é paz pela Presença divina.
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O conhecimento integral oculto na noite da predestinação exprime-se posteriormente em palavras conforme os acontecimentos o atualizam, o que explica a fragmentação do texto e a repetição variada das verdades essenciais, cuja forma sonora conserva o poder espiritual originário.
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A revelação ocorre sem elaboração discursiva.
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A sonoridade participa da força espiritual.
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A multiplicidade textual deriva da atualização progressiva.
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A doutrina tradicional da revelação do Corão corresponde essencialmente à do Veda no Hinduísmo, recebido pelos Rishis por inspiração visual e auditiva, e as referências mundanas do texto devem ser compreendidas segundo a experiência ordinária e não como afirmações científicas.
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O Veda subsiste eternamente no Intelecto divino.
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A revelação opera-se pelo som primordial.
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Os exemplos mundanos servem ao conhecimento de Deus.
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Não se trata de especulação psíquica inconsciente.
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Embora o comentário metafísico pareça superior por sua abstração, o texto corânico possui a superioridade simbólica de uma forma sintética e antropomorfa que corresponde ao próprio processo da manifestação divina.
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A forma concreta não diminui o simbolizado.
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O símbolo exprime a incomensurabilidade divina.
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Deus pode tomar qualquer símbolo sem perda de transcendência.
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Segundo a tradição profética, todo o conteúdo revelado se resume no Corão, este na sura al-fâtiha e esta na basmalah, cuja essência se concentra na letra ba’ e em seu ponto diacrítico, símbolo da Unidade principial.
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A basmalah é fórmula de consagração ritual.
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A tradição remonta ao Califa ’Ali.
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A letra inicial simboliza a Unidade.
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Os nomes divinos Allah, al-Rahmân e al-Rahîm exprimem três aspectos da Infinitude divina: transcendência absoluta, superabundância manifestadora e imanência salvadora.
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Allah simboliza o Infinito transcendente.
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Al-Rahmân corresponde à Misericórdia universal.
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Al-Rahîm expressa a Graça imanente.
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A manifestação do mundo é misericórdia.
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A sura al-fâtiha estrutura-se tradicionalmente em três partes que mencionam os aspectos da Divindade, a condição da criatura e a relação entre ambas, articulando dependência e participação.
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A primeira parte exalta os atributos divinos.
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A parte final enumera as tendências da criatura.
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O versículo central exprime adoração e busca de auxílio.
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Pela al-hamd o espírito eleva-se além das limitações aparentes, reconhecendo em cada qualidade positiva a profundidade do Ser único, Senhor dos mundos.
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Cada cor e cada qualidade revelam fundo inesgotável.
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O louvor manifesta abertura ao Ser.
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O tempo manifesta o Rigor (al-Yalâl), consumindo o mundo e conduzindo ao “dia do juízo” (yawm al-dîn), entendido como reintegração do temporal no intemporal.
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O dia do juízo é dia da religião e da dívida.
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A reintegração pode referir-se ao homem, ao mundo ou ao universo.
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Tudo é perecível exceto a Face divina.
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No intemporal, a liberdade retorna ao seu fundamento divino, coincidindo liberdade, ato e verdade em Deus, razão pela qual alguns sufis afirmam que os seres se julgam a si mesmos n’Ele.
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Os membros do homem testemunham contra ele.
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O juízo reflete a essência da liberdade.
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O julgamento depende da tendência essencial do homem, figurada nos três caminhos da sura al-fâtiha e simbolizada pelo Profeta mediante a cruz formada pelo caminho reto vertical e as direções opostas e horizontais, correspondendo às dimensões ontológicas e às gunas do Hinduísmo.
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Caminho reto corresponde à elevação.
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Cólera divina indica oposição descendente.
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Erro exprime dispersão horizontal.
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Sattva, rajas e tamas refletem essas tendências.
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Em última análise, há para o homem uma única tendência essencial, o retorno à própria Essência eterna, sendo o caminho reto identificado esotericamente com a própria Essência única dos seres, conforme o versículo da sura Hûd.
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A ignorância gera tendências desviantes.
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A oração é atendida pelo simples fato de ser pronunciada.
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Deus mantém todos os seres no caminho reto.
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O versículo «É a Ti que adoramos e é junto a Ti que buscamos auxílio» exprime simultaneamente a extinção (al-fanâ’) da vontade individual e a subsistência (al-baqâ’) no Ser puro, constituindo o istmo (al-barzaj) entre o Ser absoluto e a existência relativa.
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A adoração implica conformidade à Lei e à Graça.
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O auxílio divino é participação na Realidade.
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O versículo é ponto de união entre dois oceanos.
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