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SUBVERSÃO

DAUGE, Yves Albert. L’ ésotérisme: pour quoi faire? Paris: Dervy-Livres, 1986.

  • O crescimento da negatividade sob todas as suas formas instala no mundo uma atmosfera de inversão e paródia que Albert Méglin descreve como um mundo de cabeça para baixo, gerando o que se pode chamar de Âme-crise.
  • As forças bárbaras que rebaixam o ser humano e impedem sua vocação de mediador entre Céu e Terra se intensificam em certas épocas por convergência de causas, e a época atual é uma dessas acelerações espetaculares da negatividade.
    • Forças bárbaras são definidas como ignorância, ódio, negatividade, vontade de potência, violência, materialismo, mentira, fechamento sobre si, paixão pela quimera e pelo desordem, e revolta contra Deus.
    • A raiz metafísica do mal é identificada como a falta de ser.
    • Eruditos designam o momento presente como fim de ciclo, Kali-yuga (hinduísmo) ou Grande Ocultação (ghaybat kobra do xiismo).
    • O Asclepius, tratado hermético latino traduzido de um original grego do século III, é evocado com uma descrição apocalíptica do tempo em que as trevas são preferidas à luz, o ímpio é tido por sábio e toda voz divina é silenciada.
    • O Vishnu-purana citado por Julius Evola em Revolta contra o mundo moderno apresenta acentos análogos.
    • O lama Govinda diagnostica uma civilização esquizofrênica em que o homem não mais dirige os instrumentos de que dispõe, mas é por eles dirigido.
    • Raymond Ruyer, em Les cent prochains siècles, declara que a cultura atual não apenas é suicida, mas está em processo acelerado de suicídio.
    • Ernst Jünger prefere a fórmula Zwischenreich (interregno) à expressão oriental Kali-yuga, definindo o momento como aquele em que os velhos valores morreram e os novos ainda não estão em ação.
    • O interregno é o momento da histólise, do caos, do desencadeamento dos Titãs (imagem órfica), da obra ao negro, da kenose e da prova para a mutação.
    • O aforismo fundamental que emerge dessa perspectiva é: toda época é boa para quem sabe utilizá-la.
  • Os dois princípios degradados da tradição indiana do Samkhya, rajas e tamas, invadem o presente e subjugam o terceiro princípio, sattva, relegado às margens do mundo.
    • Rajas corresponde a agitação, instabilidade, violência, desordem passional e vontade de potência.
    • Tamas corresponde a obscuridade, ignorância, materialismo e inércia.
    • Sattva, associado à luz, à consciência, à pureza e ao conhecimento, não consegue contrabalançar os efeitos dos dois outros.
    • A dominação tamasica se manifesta como reino da quantidade e do lucro, igualitarismo, gregarismo, nivelamento, utopia social, valorização da horizontalidade, adormecimento do intelecto e renúncia à aventura perigosa do conhecimento deificante.
    • A expansão rajasica se manifesta como exasperação dos apetites, desenvolvimento dos imperialismos econômicos, desaparecimento dos deveres substituídos por reivindicações, multiplicação dos confrontos em direção à guerra de todos contra todos, progresso do niilismo e do terrorismo.
    • Arthur Koestler atribui essa patologia do comportamento humano à falta de coordenação hierárquica entre as estruturas antigas e recentes do cérebro, concluindo que se trata de uma raça de doentes mentais.
    • Raymond Ruyer afirma que a espécie humana não pode deixar de ser, por algum lado, uma espécie selvagem.
    • A hipótese de que a espécie humana resulta de uma hibridação deficiente de duas ou mais variedades de seres diferentemente evoluídos é apresentada como chave para compreender o problema em sua globalidade.
    • O problema específico da época atual é o desaparecimento dos freios que continham essa deficiência congênita, produzindo regressão massiva aos planos inferiores de consciência simultaneamente ao crescimento descontrolado dos poderes tecnológicos da razão prática.

  • O arquétipo do Rei do Mundo, que representa a hierarquia correta das funções diretoras, foi totalmente suplantado em nosso tempo por sua contrafação, instalada no lugar do ideal que sempre fascinou o espírito humano.
    • O Rei do Mundo pode ser considerado tanto como entidade sobrenatural, anjo egregora ou mestre oculto, quanto como colégio de sábios desconhecidos, elite universal de seres realizados.
    • No plano individual, cada ser humano é chamado a tornar-se Rei do Mundo.
    • O arquétipo se articula em três aspectos: Brahmatma (soberania religiosa, autoridade espiritual, Ciência da Luz), Mahatma (circulação equilibrada das Energias, manutenção da Paz, Ciência da Balança) e Mahanga (ordenamento da Natureza, do psíquico e do corporal, Ciência dos Símbolos).
    • No lugar do aspecto Brahmatma, constata-se a decadência das Igrejas, a proliferação das seitas, a degenerescência do Logos em discurso e o reino dos intelectuais e do mental divisor.
    • No lugar do aspecto Mahatma, instala-se a separatividade, o bloqueio e a corrupção das energias, a barbarização da política, o choque dos totalitarismos e o extremismo dos egos.
    • No lugar do aspecto Mahanga, instalam-se a confiscação dos bens pelos trusts internacionais, a injustiça social e vital em escala planetária e a idolatria do dinheiro.
    • O simbolismo dos quatro cavaleiros do Apocalipse (6, 2-8) é identificado com a subversão: o cavalo branco encarna os fanatismos, o vermelho-fogo a autodestruição, o negro o desperdício e a exploração injusta, e o cavaleiro da Morte (cavalo esverdeado) exprime o suicídio da humanidade como resultado da subversão.
    • O Príncipe deste mundo, ou Ego triunfante, é situado no Mundo das Cascas da Cabala (Qeliphoth, inversão das Sephiroth), lugar dos detritos da criação e das forças demoníacas (Sheddim).
    • A palavra de Jesus em Jo 12, 31 – o Príncipe deste mundo será lançado fora – é interpretada como anúncio de um novo espaço para o Rei do Mundo e para a luz esotérica salvadora.
  • O ponto crucial da confusão e da subversão contemporâneas reside no domínio avassalador da psique, no desconhecimento da Alma superior e na impotência da Alma do Mundo.
    • A influência de Freud é identificada como ponto de partida de uma expansão patológica do psiquismo como categoria dominante.
    • Jung consagrou sua vida ao estudo da psique sem conseguir discernir com precisão seus limites.
    • O que se chama de ciências humanas, filosofia, antropologia, imaginário e mitanálise é caracterizado como variações sobre a psique.
    • O homem tipo do mundo atual é descrito como um psíquico que estuda a psique pela psique e reduz tudo a esse tipo de operação.
    • Certos pretensos espirituais, prisioneiros de uma inflação egocêntrica, tomam os reflexos da psique na tela de seu desejo por manifestações superiores, e a Philocalia e a sabedoria budista são citadas como exemplos de tradições que há muito perceberam esse mecanismo de ilusão.
    • O esoterismo, por conhecer a estrutura verdadeira e completa do ser humano como escala hierarquizada de frequências vibratórias ou níveis ontológicos, distingue a psique como alma inferior, transitória e mortal, dos elementos superiores da pessoa.
    • Heb 4, 12 é citado: a Palavra de Deus, viva e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, separa a alma (psyche) do espírito (pneuma).
    • Além da psique e do Espírito, o ser humano possui uma Alma superior ou Alma essencial, permanente e divina, e o Coração como órgão de recepção do Divino e princípio do redirecionamento do homem.
    • Mahmud Shabestari é citado: a alma de cada criatura está escondida em ti; tu és a alma do universo.
    • A Alma do Mundo é identificada com a an-Nafs al-kulliyah do sufismo, a Alma universal de que falam Platão no Timeu, Teilhard de Chardin, os cabalistas, Henry Corbin, Jabir ibn Hayyan e Vladimir Soloviev.
    • Rumi é citado duas vezes: cada átomo é aturdido pelo sol da Alma universal; e: sou desta Alma que é a Alma das Almas, sou desta Cidade que é uma Cidade infinita.
    • A Alma-crise é definida como a situação em que os relais da Sabedoria são insuficientes, as Energias espirituais não circulam, o ser humano se mutila e a inflação psicossomática ocultou a Alma essencial e substituiu a Alma do Mundo pelo psiquismo coletivo.
    • Julius Langbehn é citado: se o caos está aqui, a criação está próxima.
    • Heidegger e Jünger são evocados na exigência de apressar o retorno dos deuses, interpretados como o divino interior a cada ser humano – vocacionado a tornar-se um homem icônico, teofania, irradiação (tajalli, segundo os sufis) de uma Ideia de Deus – e as presenças espirituais e correntes da Sabedoria ao redor.
    • O programa proposto é redescobrir a Alma essencial e a Alma do Mundo, operar uma conversão vertical, reforçar o princípio sattva e conquistar a Luz, a Paz e a Ordem próprias do Rei do Mundo, por meio do esoterismo.
    • A futura elite, a esperada raça de ouro evocada por Virgílio, já estaria em formação, e é necessário encorajá-la, reuni-la e nutri-la com a geleia real do verdadeiro esoterismo.
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